quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Editorial: O desfecho do mensalão e a lição que fica


Ler e analisar os editoriais de jornais em sala de aula para alunos que estão aprendendo o raciocínio lógico dos textos dissertativos é, com certeza, um exercício interessante. 
O editorial traz temas atuais e nascem do pensamento coletivo do veículo de comunicação. Que tal propor isso em sua sala de aula?


A condenação da cúpula do mensalão por formação de quadrilha consolida um divisor de águas sem precedentes na história e no jeito de fazer política no Brasil. Após 82 dias, o Supremo Tribunal Federal decidiu que o ex-ministro José Dirceu, o ex-presidente do PT José Genoino, o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares e associados são culpados pela orquestração do mais sofisticado esquema de corrupção conhecido no País, capaz de abalar toda a República.
Ministro Joaquim Barbosa, relator

José Dirceu disse temer “que as premissas usadas no julgamento, criando uma nova jurisprudência na Suprema Corte, sirvam de norte para a condenação de outros réus inocentes país afora”. E acrescentou: “condenar sem provas não cabe em uma democracia soberana”. Fica assim um desafio para o PT: ignorar o episódio e poupar seus companheiros ou cumprir seu estatuto que prevê expulsar condenados em última instância por “crime infamante ou práticas administrativas ilícitas”.



Mais realista que o rei, o ator principal do mensalão está no seu direito de se manifestar contra a condenação e até ironizar, como faz quando compara a punição a ele imposta a perseguições dos tempos da ditadura. Na verdade, o desfecho desse processo, ricamente abastecido por robustas provas de compra de apoio de parlamentares cooptados pelo governo com dinheiro público, serviu para mostrar a outra face de figuras canonizadas como vítimas dos anos de chumbo.
Não resta dúvida de que o resultado do julgamento representa um grande avanço para as instituições democráticas do Brasil e, especialmente, para a credibilidade do Judiciário, poder ao qual compete o compromisso de garantir os preceitos constitucionais da igualdade de todos perante a lei. Quem se associa para assaltar os cofres públicos de forma tão organizada não é menos perigoso que qualquer bandido armado e sanguinário.
Tanto um quanto o outro produzem o mesmo tipo de vítima, nos mais diferentes segmentos de uma sociedade que não pode ficar indiferente. O episódio se encaixa com perfeição absoluta ao discurso do sempre atual Bertolt Brecht sobre o ciclo vicioso do analfabetismo político, de onde nascem a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra e corrupto.
As condenações em série pelo STF no processo do mensalão prometem funcionar como um recado a toda a sociedade e principalmente aos que se julgam poderosos e, fazendo pose de reis, tentam transformar o povo em bobos da corte. A mensagem deve provocar ressonância em todas as esferas da República, e recomenda padrões de comportamento na vida pública dos Estados e municípios. A tolerância aos malfeitos deve ser exatamente igual a zero.

Fonte: Folha da Região - 24/10/2012 - página A2

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