terça-feira, 18 de setembro de 2012

Professor deve conciliar livro e jornal para agradar



Araçatuba
Ayne Salviano
Coordenadora do Ler para Crescer


Fabiano Ormaneze nasceu em Jales (120 km de Araçatuba). Estudou jornalismo na PUC (Pontifícia Universidade Católica) em Campinas, onde hoje é professor, se especializou em Jornalismo Literário pela ABJL (Academia Brasileira de Jornalismo Literário) e concluiu o mestrado pela Unicamp (Universidade de Campinas) em Divulgação Científica e Cultural.
Atualmente é um dos coordenadores do projeto Correio Escola Multimídia, de mídia e educação, mantido pelo jornal Correio Popular, de Campinas. É autor de um livro-reportagem, Vidas Partidas (Editora Akademika, 2006), além de ser coautor do livro Novas Competências na Sociedade do Conhecimento (Editora Leitura Crítica, 2012).

Nesta obra, ele escreve o capítulo “Jornalismo na internet: reflexões sobre transmídia e reportagem 360° como propostas de produção” e é coautor do capítulo “Competências para as novas mídias”. No primeiro, discute como a internet modificou a forma de fazer jornalismo, impactando as mídias tradicionais. Também analisa algumas propostas criativas de convergências de linguagem possíveis num ambiente multimídia, como a reportagem 360°, que surgiu no El País, da Colômbia, e tem sido implantada, aos poucos, em outros países, inclusive, no Brasil.
No capítulo em que é coautor, aborda como a internet exige um outro tipo de leitor: ainda mais crítico, capaz de separar informações e filtrar dados. Ao mesmo tempo, esse leitor pode ser um grande colaborador com a divulgação das informações.
Com o Programa Jornal e Educação Ler para Crescer da Folha da Região,conversou sobre a possibilidade de os professores de literatura conquistarem o público leitor unindo as obras ao jornal diário.

É possível ensinar literatura por meio da leitura dos jornais? 
Sim, desde que os professores tenham conhecimento de como a linguagem jornalística e a literária podem se integrar em determinados momentos, guardadas suas especificidades. Para isso, o professor precisa dominar também a história da constituição dos gêneros jornalísticos e literários e perceber que, durante muito tempo, escritores e jornalistas utilizavam praticamente a mesma forma de escrever e que foi no jornalismo que muitos escritores começaram a carreira ou conseguiram se manter. Outra forma de fazer essa relação é identificar temáticas que, embora tratadas pela literatura de ficção (inclusive clássica), continuam presentes no nosso cotidiano. O trabalho com literatura fica muito mais interessante quando, ao adotar a leitura de um livro, o professor consegue mostrar aos alunos que as temáticas abordadas na obra são perceptíveis em acontecimentos do cotidiano. É possível também usar a crônica para mostrar como ainda hoje muitos escritores usam o jornalismo como vitrine de seus estilos e produções. Se o professor tiver noções conceituais do jornalismo literário, esse trabalho fica ainda mais fácil, pois ele poderá identificar, junto com os alunos, textos publicados em jornais e revistas que tragam características estilísticas e literárias.
A leitura do jornal pode ajudar na compreensão e confecção de textos literários?
Com certeza. A história da literatura está cheia de exemplos de escritores que se inspiraram em suas vivências como jornalistas para escreverem seus textos literários e ficcionais. Ernest Hemingway, por exemplo, produziu Por Quem os Sinos Dobram a partir de sua experiência como correspondente na Guerra Civil Espanhola. Emile Zola, no Realismo Francês, decidiu se empregar como minerador para fazer uma investigação praticamente jornalística sobre como era o trabalho das pessoas que viviam daquilo, antes de escrever uma de suas obras-primas, O Germinal. Foi se baseando em cartas que chegavam às redações de jornais baianos e a partir de suas observações nas ruas, que Jorge Amado escreveu Capitães da Areia. Muitas histórias de Nelson Rodrigues foram retiradas da experiência dele como repórter policial. Poderíamos citar dezenas de exemplos sobre essa convivência sadia entre jornalismo e literatura, tentando, cada uma a seu modo, compreender o mundo. Imagine agora desenvolver uma narração com os alunos a partir das histórias retiradas de jornal: os fatos estão lá, prontos, com personagens, tempos, lugares, clímax. A tarefa agora é transformar tudo isso numa narrativa, com a liberdade e com o estilo que nem sempre o jornalista tem.
Você usa novas tecnologias para atrair a atenção dos alunos para obras literárias, inclusive dos clássicos?
As novas tecnologias são excelentes se bem utilizadas. É muito fácil, hoje, você ter acesso a trechos de filmes, fac-símile de páginas escritas pelos próprios autores e até mesmo livros na íntegra. Da mesma forma, é fácil ter acesso a análises e estudos, publicados em congressos e revistas no mundo inteiro. Tudo isso pode servir de chamariz para uma leitura das obras.
Com o leitor mais crítico, é possível notar melhoria no gosto pela literatura?
Com certeza. O leitor mais crítico quer sempre saber mais. Sabe que o bom texto congrega conteúdo e forma, que os livros podem contribuir para sanar curiosidades e que a verdade é algo a ser perseguido diariamente, comparando as informações.
Que tipo de evolução tem notado na produção de textos dos alunos a partir da leitura dos jornais?
As melhorias dizem respeito, principalmente, à argumentação mais rica e consciente, com menos lugares-comuns, além da possibilidade de perceber como temáticas do tipo globalização, geopolítica ou sustentabilidade estão relacionadas ao nosso dia a dia e não são apenas temas de livros didáticos. O jornal tem esse potencial de aproximar teoria e cotidiano. Em relação aos textos narrativos, percebo maior facilidade para criar personagens, cenários e situações e, principalmente, a percepção da necessidade de um clímax que vai garantir a permanência do leitor diante daquelas palavras. É muito interessante, por exemplo, notar como o lead pode ser transformado no clímax de uma narrativa ficcional. O mundo está à frente dos alunos quando eles estão em contato com o jornal!
Quais benefícios os professores de literatura que adotarem o jornal obterão?
De modo geral, os professores vão perceber um interesse maior pela leitura (afinal, nos jornais, os alunos encontram assuntos do seu cotidiano, do seu interesse), além de uma facilidade para argumentar, para perceber os níveis de linguagem e para contar fatos, ou seja, o domínio das estruturas textuais e o prazer da leitura são, resumidamente, os dois grandes benefícios.

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