quarta-feira, 2 de maio de 2012

Livro retrata história de sobrevivente do Holocausto


Valéria Dias
Agência USP

Entre 1942 e 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, o jovem judeu Kiwa Kozuchowicz, nascido em 1922 em Pacanow, Polônia, foi prisioneiro de seis campos de trabalho forçado (dois na Alemanha e quatro na Polônia), além de um gueto em seu país natal. Mas sobreviveu. Chegou ao Brasil, recompôs sua vida e formou uma família. Agora, prestes a completar 90 anos, Kozuchowicz vê sua história transformada no livro “Nos campos da memória” (Editora Humanitas). Quem assina a autoria é sua filha, a psicóloga Rosana Kozuchowicz Meiches, pesquisadora colaboradora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Nos campos de concentração, cada dia era um novo dia para se lutar pela vidaA obra faz parte da coleção Testemunhos organizada pelo LEER, laboratório coordenado pela professora Maria Luiza Tucci Carneiro. “Com o livro é possível perceber que, nos campos de concentração, cada dia era um novo dia para se lutar pela vida, pela sobrevivência. Quem não fazia isso morria. Meu pai sempre teve forças para trabalhar nos campos e isso contribuiu para que ele sobrevivesse, apesar de ele ter passado por situações em que quase foi morto”, descreve Rosana.
A pesquisadora atua no LEER há algum tempo no Arquivo Virtual do Holocausto (Arqshoah), entrevistando sobreviventes para o projeto. Segundo ela, ainda há muito a se contar sobre o tema: com o final da guerra, muitos campos foram destruídos pelos alemães. A memória dos sobreviventes é fundamental para recompor estes cenários. Ao mesmo tempo, é muito difícil para eles se lembrar destas histórias e compartilhá-las com amigos e familiares. “Aconteceu isso com meu pai. Ele nunca comentava sobre este período da vida e nós percebíamos que ele não conseguia falar sobre o assunto, então não perguntávamos”, conta.
Mas o trabalho realizado no LEER a incentivou a buscar as memórias do pai. Em 2009, durante aproximadamente quatro meses, ela gravou os depoimentos. “O projeto foi trilhar o caminho do relato do meu pai. Ele descrevia com detalhes o cenário dos campos, os nomes de oficiais nazistas, e das pessoas que o ajudaram”, conta. Para atestar o depoimento, Rosana decidiu pesquisar informações sobre os campos de concentração onde o pai esteve.
Para isso, buscou informações no Instituto Yad Vashem, em Israel, e no International Tracing Service (ITS), em Bad Arolsen, na Alemanha. Neste último, conseguiu localizar as fichas de trabalho do pai enquanto prisioneiro nazista, e também a ficha de saúde dele após o final da Segunda Guerra. Toda a documentação encontrada nos arquivos internacionais atestou a veracidade do depoimento.
Para a pesquisadora, a principal contribuição do livro é mostrar um “mundo completamente de pernas pro ar”, onde os valores estavam totalmente deturpados. Ao mesmo tempo, possibilita ao leitor uma “viagem” aos diversos campos de concentração onde o pai esteve. “Podemos também repensar a questão do preconceito e cuidar para que essas coisas não aconteçam novamente. O nazismo foi um assassinato em escala industrial. A política do governo era a intolerância e a morte programada de judeus”, destaca. “Outra contribuição é auxiliar para que o tema seja ensinado nas escolas, ajudando os jovens a compreender o que foi o Holocausto e até onde pode chegar o preconceito.”


Prisioneiro 120942
Kiwa Kozuchowicz morava com a família (pai, irmão, quatro irmãs, madrasta, tios e tias) em Pacanow , Polônia, e tinha quase 17 anos, quando o exército alemão invadiu a cidade. Em 1942 , aos 20 anos, ele e o irmão foram levados para o campo de Skarszysco-Kamienna e a família permaneceu na cidade, até serem enviados, dois meses depois da saida de Kiwa, para um campo de extermínio. O irmão acabou morrendo durante uma tentativa de fuga do campos de Pionki.
Pacanow era uma cidade relativamente pobre, sendo que dois terços da população era consitutida por judeus. Sobre a invasão do exército nazista, Rosana conseguiu localizar dois depoimentos de cidadãos poloneses que presenciaram a deportação dos judeus da cidade para os campos da morte. O depoimento foi publicado originalmente em 1999 em uma revista polonesa, e a pesquisadora decidiu incluir no livro uma tradução, em português, desse depoimento. Até 1945, Kozuchowicz passou por seis campos de concentração e um gueto. Era o prisioneiro número 120942. “Nos campos, meu pai se inscrevia para trabalhar como pedreiro. Foi este ofício que o salvou da morte nos campos nazistas.”

Sobrevivente B 513
Com o final da guerra, Kiwa Kozuchowicz foi para Memmingen, Alemanha, onde permaneceu de 1945 até 1948. Depois foi para Paris, França. “Lá, conseguiu entrar em contato com uma prima que morava na Argentina e que o convidou para ir morar com ela”, diz. De acordo com Rosana, em 1949, ele saiu da Europa rumo a Argentina, com escala no Brasil. Em terras brasileiras, reencontrou alguns amigos que já estavam trabalhando. “Gostou daqui e resolver ficar. E nunca mais foi embora”, comenta.
Um amigo italiano não judeu conseguiu um emprego e Kiwa Kozuchowicz foi vender relógios no interior de São Paulo. Casou-se em 1958. Tem dois filhos e seis netos. E ainda carrega consigo uma tatuagem no antebraço com o número B513: é um sobrevivente do Holocausto
A arrecadação do lançamento será doada ao programa “Adote um bolsista”, uma parceria da B’Nai B’rith do Brasil com o Arqshoah / LEER / USP.

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