quinta-feira, 17 de maio de 2012

Do giz ao tablet

Jornal e Educação

A permanente inovação tecnológica e a expansão das novas mídias da comunicação não somente transformam as relações humanas, mas exigem que a escola formal se reinvente urgentemente. Paradoxalmente, os professores ainda se sentem acuados e inseguros para usar essas tecnologias.
Para discutir o impacto das tecnologias da comunicação na aprendizagem, o Jornal da USP conversou com especialistas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) e da Faculdade de Educação (FE), ambas da USP. Eles sugerem caminhos que a escola deveria seguir a partir desse panorama.
Para Roseli Fígaro, professora do Departamento de Comunicações e Artes da ECA, as tecnologias são parte integrante da nossa cultura. São dispositivos culturais utilizados no dia a dia como instrumentos de trabalho, de lazer, de fruição, criação, comunicação. “Não se trata de discutir se a escola deve ensinar com ou sem tecnologias. A escola não pode ficar aquém das outras esferas da sociedade. Ela deve incorporar as tecnologias digitais da contemporaneidade. Aliás, a escola sempre utilizou tecnologias: ela é fruto da sociedade moderna. A lousa, o giz, o livro didático, o lápis, a caneta esferográfica, o caderno são produtos tecnológicos.”

A professora lembra que, hoje, também o celular, o tablet, o gravador, a câmera fotográfica ou a filmadora “podem ser meios importantes para o ensino”. Aponta como relevante o conjunto do dispositivo e não o equipamento em si, ou seja, a escola deve se apropriar da novidade cultural: a força dos processos comunicacionais e das linguagens da comunicação.
Ismar de Oliveira Soares, diretor do Departamento de Comunicações e Artes da ECA, concorda com Roseli e acrescenta que o problema está em como se usarão essas tecnologias. “A educação sempre usou tecnologias, desde o quadro negro e o flanelógrafo até chegar ao computador e à internet. O problema é o serviço que essas tecnologias podem prestar.”
O mesmo aponta a professora Stela Conceição Bertholo Piconez, da Faculdade de Educação. Para ela, as tecnologias digitais da informação e da comunicação já fazem parte de nosso cotidiano. Lutar contra elas ou rejeitá-las é incompatível com as demandas políticas de formação das pessoas e da própria contemporaneidade.
Já para Vani Moreira Kenski, também da Faculdade de Educação, o uso das tecnologias por si só não altera o aprendizado do aluno nem melhora o desempenho do professor. Ao contrário, pode até piorar, se for mal utilizada. “As tecnologias – tradicionais ou inovadoras – devem ser selecionadas e empregadas de acordo com o contexto em que se dá o processo ensino-aprendizagem e as condições concretas de acesso e uso dos participantes, professores e alunos”, analisa.
Objetivos – Para os professores entrevistados, o importante não é questionar se o ensino deve ou não adotar as novas tecnologias, mas sim se perguntar por que e para que elas devem ser usadas.
Roseli Fígaro destaca que tudo depende da proposta pedagógica da escola. Ela vê como vantagens dos novos recursos tecnológicos a possibilidade de interatividade, o estímulo ao relacionamento com o outro e a maior facilidade para trabalhar em conjunto de maneira mais dinâmica.
Soares propõe que a escola permita que os alunos entendam a razão de ser dessas tecnologias na sociedade e se apoderem do seu uso a partir de uma perspectiva alternativa àquela oferecida pelas grandes corporações. “Ao invés de um uso individualizado e competitivo, deve-se buscar desenvolver um uso mais coletivo e colaborativo. As práticas educomunicativas, com uso das tecnologias, permitem que os professores possam até mesmo aprender com seus alunos, tornando o ensino mais agradável, simpático e eficiente.”
Stela Piconez faz uma ressalva: “As políticas educacionais caminham a passos lentos. Há urgência na formação permanente dos professores tanto em termos de letramento digital quanto informacional dos conteúdos específicos”, afirma.
Para Vani Kenski, o problema não está na tecnologia, mas no processo educacional, nas metodologias e nas estratégias utilizadas para levar o aluno a aprender. “Quanto mais adequadas ao perfil dos aprendizes, maiores serão as condições para que eles se entusiasmem”, alerta.
Vani destaca que a escola, como instituição social, continua a cumprir o papel de formar pessoas para atuarem na sociedade. “Por isso, cada vez mais, ela precisa propiciar condições para que os alunos aprendam a inovar, a contextualizar o aprendido, a ter confiança e autonomia para definir seus caminhos de aprendizagem. Ir além e fazer diferença.”

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