terça-feira, 10 de abril de 2012

‘Ó Mar Salgado’



Por Carlos Eduardo Brefore Pinheiro


“Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena.” Estes versos são conhecidos, citados, incorporados ao chavão popular, transformados em lugar-comum. Porém, talvez, muitos não conheçam o seu autor: Fernando Pessoa. Talvez não conheçam sequer o poema a que estes versos pertencem: “Mar Portuguez” (não errei na grafia; o autor empregou o português arcaico na escritura deste texto). Transcrevo o poema em questão, antes de aprofundar o assunto:
“Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal! / Por te cruzarmos, quantas mães choraram, / Quantos filhos em vão resaram, / Quantas noivas ficaram por casar / Para que fosses nosso, ó mar! // Valeu a pena? Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena. / Quem quere passar além do Bojador / Tem que passar além da dor. / Deus ao mar o perigo e o abysmo deu, / Mas nelle é que espelhou o céu”. Enfim, talvez, muitos não saibam a que obra este poema pertence: “Mensagem”.

O livro abre com uma epígrafe em latim - “Benedictus Dominus Deus Noster Qui Dedit Nobis Signum” (“Bendito Deus Nosso Senhor que Nos Deu o Sinal”) e está dividido em três partes: “Brasão”, um panorama histórico da fase em que Portugal se define como nação, desde suas origens medievais, e, em seguida, expande seu território, primeiro no continente europeu, depois mar afora; a segunda parte, “Mar Portuguez”, retrata as grandes viagens e a ampliação marítima, empreendida pelos portugueses no seu apogeu; a terceira parte, “O Encoberto”, volta-se para a figura de D. Sebastião (espécie de rei messiânico que estaria predestinado a ressurgir um dia para devolver a glória perdida de Portugal) e abrange desde o seu desaparecimento até a atualidade, correspondendo à fase de decadência da nação.
A primeira parte da obra tem como centro organizacional o escudo heráldico, isto é, o brasão distintivo da nobreza de Portugal, com seus castelos, suas quinas, sua coroa e seu timbre. Para cada item do brasão, Pessoa compõe um poema, dedicado a uma figura real portuguesa: Ulisses, Viriato, o conde D. Henrique, Dona Tareja, D. Afonso Henriques, D. Diniz, D. João I, Dona Philippa de Lencastre, D. Duarte, D. Fernando, D. Pedro, D. João, D. Sebastião, Nun'Álvares Pereira, D. Henrique, D. João II e Afonso de Albuquerque.
A segunda parte da obra, referente ao período das Grandes Navegações, época de apogeu e domínio, funciona como uma espécie de patamar em que se calca o espírito heroico dos portugueses.
A seção aponta vários personagens históricos deste período, todos eles ligados à conquista marítima: Bartolomeu Dias, que descobriu o Cabo das Tormentas; Fernão de Magalhães, navegador que chegou ao Rio de Janeiro e, seguindo rumo ao sul, atingiu o oceano Pacífico; Vasco da Gama, navegador que chegou às Índias, em 1498; e Diogo Cão, cujas expedições trouxeram o conhecimento necessário para que Gama atingisse as Índias.
Por fim, a última seção da obra, centrada na figura de D. Sebastião, fecha o livro com um clima de desencontro, incertezas e expectativas. Os títulos das três partes em que esta seção está dividida já prenunciam o mistério e os vaticínios que cercam os poemas (“Os Symbolos”, “Os Avisos”, “Os Tempos”).
Além de D. Sebastião, para quem todos os poemas convergem, aparecem aqui as figuras do Bandarra (que cantou em trovas a volta de el-rei), do padre Antônio Vieira (adepto do sebastianismo) e do próprio Fernando Pessoa. A obra encerra com uma visão pessimista do Portugal moderno e a expectativa de uma mudança, prefigurada no retorno de D. Sebastião: “Ó Portugal, hoje és nevoeiro... / É a Hora!”.

Carlos Eduardo Brefore Pinheiro é professor de Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa, mestre em Teoria da Literatura pela Unesp e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP.
Folha da Região - 05/04/2012 (C2)

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