terça-feira, 10 de abril de 2012

Graça da desgraça


Jordemo Zaneli Junior
Folha da Região - 10/04/2012 (C2)

A chuva que se iniciou na madrugada trouxe uma quantidade incalculável de folhas e galhos vinda da parte mais alta da cidade, a rua ficou coberta de um verde musgo com pequenos pontinhos amarelados, o aspecto das nuvens que cobriam o céu não demonstrava nenhum sinal de que a água iria parar de cair pelas próximas horas.
No interior da moradia de aspecto ordeiro, uma criança em tenra idade, curiosa, sabendo muito pouco da vida e do mundo, observa atentamente os espaços à sua volta, um universo de cores e sabores encantados.
Nas suas limitações, estuda as possibilidades de abrir a geladeira que vê ser visitada por todos da casa, é de lá que vem as guloseimas de que gosto. Imagina ainda preciso dominar esta máquina, sem ela não conquistarei minha independência. Prepara o terreno, arrasta um banquinho, aproxima-se do alvo, abre a porta e quando pega o suco para sorvê-lo com prazer, celebrando gloriosamente sua conquista, escorrega, cai, espalhando o líquido pelo corpo e pelo chão.
Risos, gargalhadas e o Faustão diz esta merece reprise, volta, olhe a cara deste meliante! O garotinho foi flagrado por uma câmera indiscreta que invadiu sua privacidade, registrou toda frustração da primeira tentativa de conquistar um pequeno pedaço de um território ainda hostil.

Agora teremos também um reality show de MMA (artes marciais mistas). O lutador é uma pessoa como outra qualquer. É importante que os espectadores vejam que ali há pessoas que trabalham.
Na rua, tem gente que tem medo de mim, mas eu não mordo, diz um dos participantes, o outro justifica: nós vamos mostrar o respeito que a gente tem um pelo outro, numa tentativa de humanizar o esporte. Na França a transmissão de lutas é proibida na televisão.
Num outro canal televisivo “artistas” se esforçam para praticar o bullying, disfarçado de pegadinha, constranger, humilhar, expor ao ridículo dezenas de pessoas.
Rir da desgraça dos outros, exercício realizado à exaustão, o maior prazer de muitos aos domingos. Início de semana com uma dose generosa de sarcasmo.
É preciso, porém, observar um fenômeno que explodiu nos últimos 20 anos: uma criança dos centros urbanos, a partir dos dois anos de idade, assiste à televisão, em média, durante três horas diárias, o que resulta em mais de 1 mil horas como espectadora em um ano (sem contar as outras mídias eletrônicas, como rádio, cinema e internet).
Ao chegar aos sete anos, idade escolar obrigatória, ela já assistiu a programação televisiva por mais de 5 mil horas. (Fonte: Mario Sergio Cortella, filósofo, professor da PUC-SP, e autor de “A Escola e o Conhecimento: Fundamentos Epistemológicos e Políticos” (ed. Cortez/IPF).
A ONU (Organização das Nações Unidas) concluiu análise de todos os desenhos animados em seis emissoras de TV aberta transmitidos no Brasil. As 71 horas de desenhos indicaram que, em média, a cada 60 minutos, entre outras coisas, aparecem 20 crimes, a maioria lesão corporal e homicídios.
Os problemas de aprendizagem possuem muitas causas. Podem estar relacionadas ao contexto emocional vivido pelos alunos em casa ou na escola, às questões de metodologia de ensino ou transtornos de aprendizagem. Como visto o hábito da reflexão, o pensamento é distorcido desde os primeiros anos de idade.
Exercitar com a família o bem, a cortesia, a educação e os bons costumes, com conversas francas e cada vez mais frequentes, parece mais do que oportuno nos dias atuais. Exercitar o diálogo com seriedade, como se exercita os músculos das pernas, dos braços, do abdômen para ficar tipo tanquinho, um condicionamento disciplinado e rigoroso.
Rir da desgraça dos outros não tem graça. Está cada vez mais escassa a imagem de famílias brincando, lendo coletivamente um livro, conversando, contando histórias, praticando esportes. E o salário oh...

Jordemo Zaneli Junior é escritor, membro da UBE (União Brasileira de Escritores) e autor do romance “A Garota Rockstar”.

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