quinta-feira, 22 de março de 2012

Música e língua estrangeira


Patrícia Bértoli Dutra
Folha da Região - 22\03\2012 (C2)

Uma das principais características do bom aprendiz de língua estrangeira é sua ânsia por aproveitar todas as oportunidades de contato com a língua que quer aprender, aproveitando-as para praticar o que já sabe e ampliar seus conhecimentos. Isso, é claro, é feito ao se extrapolar os limites da sala de aula. Um recurso utilizado há muito tempo tem sido a música.
O aprendiz do passado tinha que se esforçar muito para conseguir a música e poder ouvi-la repetidas vezes. Não bastava ter dinheiro para comprar o disco, pois, 30 anos atrás, por exemplo, muitas das gravadoras brasileiras não reproduziam os encartes que traziam as letras das músicas impressas e aquele aprendiz que se esforçava para entender aquilo que cantava, não tinha como verificar seu nível de acertos. Por sorte, havia também umas revistas de letras traduzidas nas bancas que ajudavam muito.
Hoje, em dez segundos o sujeito vai à internet e consegue letra e música, não precisa comprar disco, não precisa gastar papel nem a memória do computador, pode ouvir e assistir ao vídeo on-line mesmo, tentar entender, confrontar a letra, tentar traduzir e ainda verificar se a sua versão de tradução está próxima à de outras pessoas que publicaram na web.

Na sala de aula também tem sido um recurso bastante utilizado. Hoje, o professor tem maior facilidade de encontrar letra e música, mas continua apresentando as músicas para seus alunos, especialmente para o ensino de pronúncia. É muito mais fácil mostrar para o aluno como o nativo pronuncia determinada palavra usando a própria voz do nativo e, ainda por cima, de uma maneira tão agradável.
Usar a música para aprender tem diversas vantagens, segundo Arleo (2000): é altamente motivacional (se for uma música de que se goste); afeta as emoções e pode criar um ambiente descontraído de aprendizagem; pode ser utilizada para aprender aspectos gramaticais, vocabulário, pronúncia e interpretação; e a música tem um fenômeno de “grudar” na cabeça, o que demonstra sua forca cognitiva para memória de curta e longa duração. Além disso, a repetição natural de palavras que ocorre nas músicas, não exclusivamente, mas principalmente, nos refrões, faz com que sejamos expostos a uma mesma palavra ou conjunto de palavras, tantas vezes, de modo tão natural e imperceptível, que dificilmente falaríamos de modo incompreensível.
Aliás, o fator mais marcante da música em relação a qualquer outro recurso de aprendizagem que seja extraordinário à sala de aula é que ouvimos mesmo quando não queremos, pois a música está na trilha sonora da novela, no supermercado, na farmácia, na abertura do programa de televisão e assim por diante. Se nos permitirmos ouvir músicas estrangeiras de um modo levemente menos involuntário, vamos aprender sozinhos, muito mais do que poderíamos imaginar. Não apenas expressões como “I love you”, mas coisas que requerem mais trabalho como “eulogy”; “camelion” e ainda perceber diferenças de sotaques quando temos cantores de diferentes regiões cantando a mesma música, ou as mesmas palavras em músicas diferentes.
É uma pena que o material didático se aproveite tão pouco desse recurso. Aparentemente, a maioria dos materiais didáticos, e possivelmente as pessoas que os criam e o mercado que os consome, ainda enxergam a música apenas por suas possibilidades sonoras. Se o objetivo fundamental do aluno da escola regular, não a de idioma, não é falar inglês (como propõem os parâmetros de ensino), mas estar apto a reconhecer, a ler, enfim, a passar no vestibular, para que utilizar músicas? Aí é que reside o equívoco, pesquisas como a minha  comprovam a proximidade do discurso da música com o inglês geral, não apenas o falado, mas em suas diversas formas. Outras pesquisas têm também demonstrado o valor da música sob a forma de texto, da mesma forma que os textos de jornal, revista e literários. Obviamente o discurso coloquial não é sobrecarregado de rimas como o da música. Na escrita formal construímos períodos mais longos do que aqueles que geralmente aparecem nos versos das músicas. Todavia, há concatenação de temas e uso de frases, palavras e expressões. O que acontece é que após ouvirmos tantas vezes um refrão como “beautiful day”, ninguém que pense em “dia bonito” dirá “day beautiful”. A primeira forma naturalmente lhe ocorrerá.

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