terça-feira, 20 de março de 2012

Mafalda cinquentona e crítica

Que tal preparar um aula diferente usando os quadrinhos da Mafalda?
Conheça um pouco mais sobre esta personagem especial.


Talita Rustichelli
Folha da Região - 18/03/2012


Inimiga das sopas e admiradora dos Beatles, a personagem Mafalda, das tirinhas do argentino Joaquín Salvador Lavado, o Quino, completa 50 anos de existência em 2012. Muito mais que uma garotinha de seis anos, questionadora, atenta aos direitos humanos e aos dilemas da humanidade e cheia de tiradas sensacionais, Mafalda era a metáfora de sua época.

Frases como "Todos acreditamos no país! O que já não sei a esta altura é se o país acredita na gente..." ou "E Deus terá patenteado a ideia deste manicômio redondo?" (ao olhar para um globo terrestre) são algumas da pérolas (no melhor sentido da expressão) ditas pela garota. Suas tiras foram publicadas pelos jornais El Mundo e Siete Dias Ilustrados, entre 1965 e 1973.
Em declarações à imprensa, Quino afirma que somente em 2014 é que a personagem completa seu cinquentenário. Em setembro de 1964 acontecia sua primeira publicação, na revista Primera Plana, de acordo com informações do site do desenhista. Porém, admiradores da garota desde já comemoram seu nascimento. Ela teria sido criada em 1962, para uma campanha publicitária de uma máquina de lavar roupas, para o jornal Clarín, mas um rompimento de contrato entre o diário e a empresa anunciante impediu a publicação no veículo.


Mesmo com o fim da veiculação diária da tira, ainda hoje livros como "Toda Mafalda" (lançado pela Martins Fontes no Brasil em 1991) resgatam as histórias e são frequentemente procurados por admiradores. "Mafalda" não ficou restrita à Argentina, mas conquistou diversos países, ultrapassou continentes e foi traduzida para mais de 30 idiomas.



IDENTIFICAÇÃO
Fã de quadrinhos desde a infância, a administradora de redes penapolense Maria Cristina Carvalheiro de Calasans Melo, 44, se identificou com Mafalda logo que viu o primeiro livro de bolso, em uma banca de revistas. "Um dia vi um livrinho de bolso, em papel jornal, da Mafalda, e comprei. Foi identificação imediata", conta.
O humor crítico foi o que a conquistou. "A forma analítica como vê tudo, desde a situação política global e da Argentina da época, até a condição de 'dona de casa' da mãe, é muito interessante", diz. Ela conta que colecionou vários livros em papel jornal, mas hoje mantém quatro edições encadernadas em capa dura, que reúnem todas as tirinhas.
E a identificação é tanta, que é feita até mesmo pelos amigos. "O mais engraçado é que meus amigos lembram de mim toda vez que veem algo sobre ela. Talvez por sermos baixinhas e 'invocadas'", acrescenta. As tiras preferidas de Maria Cristina são as dos primeiros anos de Mafalda, antes de ela começar a ir para a escola.

LEITURA
A araçatubense Adriana Segura Teixeira, 42, aprendeu a ler com quadrinhos de jornais e foi assim que teve seu primeiro contato com a obra de Quino, aos sete anos. "Nessa época gostava apenas porque me identificava com a Mafalda. Ela tinha mais ou menos a minha idade, era engraçada, enfrentava os pais sem confronto, apenas com suas tiradas inteligentes. A partir dos 12 anos já conseguia entender as críticas; me tornei fã incondicional", conta.
Adriana afirma que o que mais admira na obra de Quino é a possibilidade - sem restrições - de se conseguir, de diferentes formas, aproveitar algo da leitura das tiras. "Qualquer pessoa, mesmo sem a menor bagagem cultural ou política, ou mesmo sem pertencer à época que ele retrata, pode tirar algum proveito, mesmo que seja somente o humor. E hoje eu gosto muito da Mafalda pela capacidade do Quino de perceber o mundo e pela maneira diferente como ele decidiu expor suas críticas e opiniões, por meio dessa personagem apaixonante e real", conclui.

POSTURA
Para o cartunista Orlandeli, de São José do Rio Preto (que tem uma tira publicada diariamente neste caderno), Mafalda é um dos personagens mais importantes do gênero. "Mafalda é genial. Não é a piada pela piada e nem apenas entretenimento; é um humor inteligente, que provoca reflexão", diz. E, para exemplificar sua notoriedade, o cartunista lembra uma frase dita na década de 70 pelo escritor argentino Julio Cortázar: "O que eu penso da Mafalda não importa. Importante mesmo é o que a Mafalda pensa de mim".
O cartunista Lucas Lima, de Araraquara, autor de tirinhas também publicadas diariamente no caderno Vida, ainda destaca que Quino consegue em sua obra reunir elementos fundamentais para um bom trabalho. "Toda boa tira associa uma boa ideia a um bom desenho. E o Quino tem tudo isso e mais em Mafalda", diz.



PERSONAGEM ARGENTINA TEM TARTARUGA CHAMADA BUROCRACIA




Cada personagem de Quino em "Mafalda" oferece ao leitor um prato cheio, não de sopa, mas de reflexão. O pai de Mafalda, Pelicarpo, trabalha em uma companhia de seguros e entra em crise quando pensa na idade. Raquel, sua mãe, é uma dona de casa que não completou os estudos. Guillermo é seu irmão caçula, um garoto esperto e que começa a perceber o mundo.
A tartaruga que ela e o irmão ganham do pai se chama Burocracia. E há ainda Liberdade (Libertad), uma garota minúscula, cujos pais são jovens idealistas. Entre os amigos de Mafalda, está Miguelito, um pouco mais jovem que os outros, filho único, que sempre compreende o que Mafalda diz de forma literal.
Felipe é um sonhador que odeia a escola, mas frequentemente trava batalhas com sua consciência. Manolito é filho de um comerciante, preocupado com dinheiro, que não gosta dos Beatles e tira notas baixas na escola (exceto em matemática). E Susanita é uma garota fofoqueira, que tem como objetivo de vida encontrar um marido rico e bonito quando adulta e ter muitos filhos.
A pedido da ONU (Organização das Nações Unidas), Quino voltou a ilustrar Mafalda e os personagens de sua tira em 1977, para a Edição Internacional da campanha mundial da Declaração dos Direitos da Criança. Quino nasceu em Mendoza (Argentina), em 1932.

ESCULTURA
Mafalda ganhou uma estátua em Buenos Aires, em 2009, no bairro San Telmo, onde Quino morou no início da década de 60. A escultura mostra a garota sentada em um banco de praça, com leve sorriso. Feita pelo escultor Pablo Irrgang, tem aproximadamente o tamanho de uma menina de sua idade. Turistas costumam posar para fotos ao seu lado.

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