sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Interpretação é tudo na vida



Na comunicação, obviamente, é imprescindível que os elementos emissor ou interlocutor (quem transmite a mensagem) e receptor ou destinatário (quem recebe a mensagem) estejam presentes. Mas, para que a comunicação seja efetuada, é fundamental que haja interpretação, ou seja, a decodificação da mensagem. Porém, neste artigo, quero me ater à análise da função do receptor: calma, isso não é uma aula de teoria da comunicação! Na verdade, meu intuito é discutir sobre o nosso dia a dia. É que, na maioria das vezes, quando estamos recebendo uma informação (e já esclareço que me refiro aqui à comunicação social e não à midiática - mas nada impede que você possa levar a reflexão para esse campo, se quiser) tendemos a interpretar o que está sendo dito pura e simplesmente, e nos esquecemos de prestar atenção no emissor. Ou melhor, no tipo de emissor.

A comunicação seria bem mais útil se o destinatário focasse sua interpretação também no seu interlocutor. Muitos pré-julgamentos e preconceitos, por exemplo, seriam evitados ou teriam vida curta. Então, se alguém fica sempre falando mal dos outros para você, é de se interpretar que, em uma outra ocasião, muito provavelmente, você será o alvo da maledicência dele. Dessa forma, ciente do tipo de emissor que esse alguém é, ao ouvir uma “informação” transmitida por ele, você certamente não vai absorvê-la como verdade única: vai querer buscar ouvir outros lados... Simples assim!



Pense em uma pessoa que gostaria muito de estar em um determinado cargo ou função profissional, mas não conseguiu. Daí, em vez de lutar por outras oportunidades, ela canaliza as energias para tentar minar aquele que conseguiu. E dá-lhe perseguição... Dá-lhe acusações e tentativas de denegrir a imagem do outro, por exemplo. Mas eis que o receptor, dotado do dom da interpretação, vai se “ligar” ao tipo de emissor que aquela pessoa está sendo. E a conclusão do destinatário, talvez, poderia ser: “Será que essas acusações são tudo isso mesmo?”. E, assim, a mensagem adquirida será bastante minimizada pelo receptor, que, consequentemente, não vai “passá-la para a frente”.

Sendo assim, em tudo na vida, o ideal é usarmos essas dádivas que possuímos: a inteligência e a interpretação. É perigoso, e injusto, formar opiniões, estabelecer conceitos e, pior ainda, propagá-los, baseados nas informações que obtemos de determinados tipos de emissores. O ser humano costuma ser passional. E esse sentimento, geralmente, influencia nossas ações e palavras. Portanto, a comunicação não é imune a ele. Por meio da mensagem verbal (composta por palavras faladas ou escritas) e/ou não verbal (gestos, expressões faciais, imagens etc), o interlocutor pode “vender” ideias, se vingar de um desafeto, formar opiniões, fomentar iniciativas e por aí vai.

Também, pudera, o objetivo da comunicação é estimular uma reação no receptor. Isso significa que o ato de comunicar está permeado de interesses (positivos e negativos). É bem como escreveu o escritor e jornalista brasileiro Eduardo Spohr no livro “A Batalha do Apocalipse”: “Há interesses por trás de cada movimento no mundo. Tanto os justos quanto os perversos são movidos por vontades implícitas”. Por isso, cabe a cada um de nós, no momento em que estivermos sendo destinatários, desprezarmos as interpretações simplistas, superficiais e irmos além. O primeiro passo para não sermos manipulados é detectar (um esforço que requer perspicácia, pois, muitas vezes, o emissor é dissimulado) quem é nosso interlocutor. Que interesses há por trás de suas palavras e atitudes. E olha que interessante: agindo como intérpretes inteligentes e questionadores, nos momentos em que formos os emissores seremos regidos pela ética e pela justiça, uma vez que haverá em nós a ciência de que quem nos ouve, assiste ou lê não é tão influenciável assim...

Ágatha Helena de Freitas Urzedo é jornalista, editora da Folha da Região e professora universitária em Araçatuba.

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