segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Jovens militantes mudaram e buscam novo espaço na política

Militantes hoje mantém mais distanciamento
entre a vida pessoal e a partidária
Por Paloma Rodrigues/Agência USP

Estudo feito para a tese de doutorado Militância de jovens em partidos políticos: um estudo de caso com universitários, por Ana Karina Brenner, da Faculdade de Educação (FE) da USP, expôs a realidade dos jovens dentro do cenário da política nacional. A análise mostrou que a militância está presente em todos os segmentos da vida dessas pessoas. Ainda que não se portem à maneira dos jovens da década de 1960, que abdicavam de tudo pela luta política e hoje seja mantido um mínimo distanciamento entre a vida pessoal e partidária, a escolha de prioridades dessas pessoas sempre passa pelo ativismo.

Com a ideia inicial de realizar entrevistas em pequenos grupos de pessoas, Ana Karina decidiu realizar apenas entrevistas individuais, a partir de questionário aplicado a jovens que participaram de um congresso de estudantes na universidade que foi campo de pesquisa, no Rio de Janeiro, no ano de 2009. Isso facilitou  entender como a atuação política se reflete nos demais aspectos da vida desses jovens e em suas relações afetivas, familiares e nas suas escolhas profissionais.


Muitos entrevistados disseram que o estudo é prejudicado pelo tempo dispensado ao partido. A relação com os pais pode se fragilizar nesse sentido, pois eles não entendem a mudança do foco de dedicação dos filhos. As relações interpessoais passam a ser, basicamente, o círculo social formado dentro do partido. Ana ainda ressalta que alguns jovens chegaram a dizer que só conseguiriam estabelecer relacionamentos amorosos com membros do partido, pois as diferenças no estilo de vida entre um militante e um não-militante impediriam que uma união sólida se estabelecesse.

Os jovens são vistos como aqueles que vão fazer o partido no futuro. Mas há uma enorme dificuldade de serem ouvidos, pois geralmente são apenas consultados como realizadores de tarefas e não formuladores. Contudo, existe um forte desejo por parte deles de receberem maior consideração dentro do grupo, tendo espaço para expandir suas ideias já no tempo presente.

Aplicação da metodologia
A variedade de partidos foi possível. Dentre os 25 jovens entrevistados, havia representantes de cinco partidos diferentes. Contudo, as diferentes inclinações ideológicas não puderam ser mantidas. Isso porque a militância política é uma prática tradicional dos partidos de esquerda. No caso da minha avaliação, que foi no Rio de Janeiro, partidos de direita encontram núcleos organizados, segundo os jovens militantes, apenas em universidades privadas.

No grupo que se disse engajado, havia uma parcela muito maior de homens. “Uma questão de gênero já se mostrou pronta para ser abordada”, diz. Acreditando ser importante uma análise equilibrada, Ana foi atrás de mulheres que também participassem ativamente da vida política. Selecionados os participantes, a primeira questão colocada já foi a da disparidade de sexos na luta estudantil militante. A pesquisadora se disse impressionada com a contraposição de respostas: os homens disseram que a situação lhes parecia quase resolvida e ainda surpreenderam-se com o fato de as mulheres acharem que a questão é presente e é difícil.

Nove dos 21 jovens entrevistados foram levados para uma segunda etapa, que se realizou um ano depois, com entrevistas mais longas e detalhadas. A entrevista em dois momentos foi pensada depois de a orientadora do doutorado, Marilia Pontes Esposito, questionar o fato de as pesquisas serem pontuais, avaliando um período específico e não longitudinais, que agregariam um longo intervalo de tempo. “O intervalo de um ano não dá o caráter longitudinal para a pesquisa, mas se mostrou um espaço de tempo relevante para os entrevistados. Eles observaram mudanças em aspectos de seu ativismo e de suas vidas”, observa Ana.

O engajamento traz novas experiências para os jovens, que conhecem novas cidades, novas pessoas e aumentam seu capital cultural a partir do engajamento. A separação da vida pessoal e da vida partidária ainda consiste em uma linha muito tênue, mas que, cada vez mais, tenta ser traçada. “Precisamos de mais estudos sobre os militantes, que analisem o que acontecerá daqui pra frente. Esse campo é pouco explorado no País e necessita de mais literatura, para que possamos entender mais aspectos da iniciação na nossa vida política”, conclui.

Imagem: Folha on Line
Fonte: http://www.usp.br/agen/?p=74619

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