segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Em Araçatuba, número de alunos da educação inclusiva cresce


Jessian e Henrique, os últimos das fileiras,
são deficientes auditivos: ninguém é deixado de lado

Por Neila Storti

"Quando eu crescer quero trabalhar em um grande banco. Para isso, vou ter que estudar bastante. Adoro a escola, meus pais me ajudam a lidar com minhas dificuldades e medos. A escola é muito importante em minha vida, fiz muitos amigos e eles também me ajudam muito".

Essa declaração é do estudante Henrique de Sousa Fabri, de 12 anos, deficiente auditivo, estudante do 5° ano do ensino regular, que por meio da linguagem de Libras (Linguagem Brasileira de sinais) concedeu entrevista à reportagem da Folha da Região.

Depois do medo da exclusão ser vencido, a mãe de Henrique, Meire de Sousa Fabri, o matriculou em uma escola de ensino regular quando o menino tinha apenas 4 anos. Segundo ela, antes de matriculá-lo, sentiu receio, porém foi convencida pela diretora de que o garoto teria que estudar. "Cheguei aqui com muito medo. Não sabia como ele seria recebido, mas a diretora me convenceu e disse: "Seu filho vai ter que estudar e esse é o lugar certo para isso". A partir daí, trouxe o Henrique todos os dias e hoje ele está muito bem adaptado", explica a mãe.


O estudante, que está matriculado na Emef Cristiano Olsen, em Araçatuba, estuda em uma sala de aula regular com aproximadamente mais 30 crianças, dentre elas, um outro aluno com a mesma deficiência. Na sala, os estudantes em que os dois estão inseridos se apoiam uns aos outros para atingir boas notas e abominam a palavra preconceito.

Jessian Danilo Chaves Lopes, de 12 anos, também deficiente auditivo, é conhecido pelo bom humor e também pela sua dedicação aos estudos. Seu sonho é trabalhar como operador de máquinas, assim como seu pai. O menino anda sempre rodeado de muitos amigos, que além de ajudarem o garoto, nem se lembram de sua pequena diferença. Segundo ele, o que mais gosta da escola é de estar perto dos amigos. "É normal, ninguém deixa ninguém de lado. Fazemos uma grande bagunça e nos unimos para nos divertir", diz.

NÚMEROS
Os estudantes acima são apenas dois entre os 376 alunos com diversos tipos de deficiência matriculados na rede de ensino municipal. O número de alunos inseridos na educação inclusiva cresceu 11% neste ano em Araçatuba. Segundo dados da Secretaria de Educação da cidade, no ano passado 338 estudantes deficientes estavam matriculados na rede. Eles fazem parte da educação infantil, ensino fundamental e EJA (Educação de Jovens e Adultos).

Um convênio da secretaria com o MEC de adesão ao Programa de Educação Inclusiva foi renovado por
mais quatro anos com a finalidade de manter nas escolas o Atendimento Educacional Especializado.
Para a coordenadora pedagógica do Cristiano Olsen Lucinéia Dias Koga, a inclusão faz a criança se sentir igual. "Muitas vezes sentimos que a inclusão não está na criança, pois ela não enxerga a diferença do outro.

Eles gostam de ajudar, gostam de estar perto. Para a criança, a inclusão é normal, tanto da criança que precisa da inclusão, tanto da que não precisa. Na escola eu sinto que as crianças não sentem preconceito pelas outras, o adulto é quem coloca o preconceito na criança", diz. Segundo Lucinéia, dentro da escola, um aluno cadeirante é muito querido entre os estudantes e há até briga para decidir quem vai empurrar a cadeira do aluno.

APAE
A diretora da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) Rosimeire Pagan Fernandes, afirma que de 2007 a 2010, os números de atendidos que passaram a frequentar o ensino regular dobrou. "Em 2007, tivemos cinco alunos incluídos, no ano passado, esse número saltou para 40, somando 89 alunos que frequentam escolas estaduais e municipais", conta. No final deste ano, a entidade fará uma avaliação para saber quantos dos atendidos foram inseridos neste ano no ensino regular.

Rosimeire afirma que muitos pais ainda resistem ao processo de inclusão. "Ainda existe muita resistência das famílias. A prefeitura oferece o AEE (Atendimento Educacional Especializado) que é feito na própria escola, no contra-turno (fora do horário normal de aula) para os alunos especiais. Esse atendimento não é suficiente. Estamos buscando montar essas salas na própria Apae para ajudar", explica.

Do total de 376 alunos atendidos, 334 possuem deficiência intelectual, oito têm surdez, cinco são deficientes visuais, quatro deficientes físicos, 9 com deficiências múltiplas e 16 com transtorno global do desenvolvimento. Segundo Rosimeire, todo aluno com qualquer tipo de deficiência tem direito de ser matriculado nas escolas da rede.

INCLUSÃO
Segundo a Política Nacional de Educação Especial, o processo de inclusão tem como principal objetivo ampliar a participação de todos os estudantes no ensino regular e atender as necessidades educativo-especiais dos estudantes, desenvolvendo a aprendizagem e o desenvolvimento social dos alunos. Em Araçatuba, a Política Nacional de Educação Especial foi elaborada para que todos os estudantes tenham a possibilidade de aprender, tendo em vista, suas aptidões e capacidades.

A Secretaria de Educação afirma que a organização de escolas e classes especiais implica em uma mudança estrutural e cultural da escola para que todos tenham suas especificidades atendidas. Para o próximo ano, 20 salas com recursos multifuncionais serão instaladas nas Emebs de ensino infantil. As salas de atendimento serão equipadas com computadores, impressora braile, calculadora sonora, materiais pedagógicos e didáticos, mobiliário adequado, laptop, entre outros.

Imagem: Paulo Gonçalves/Folha da Região - 09/09/2011

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