terça-feira, 4 de outubro de 2011

Do espanto à ação


Por Ayne Salviano

O que faz um menino de 10 anos levar uma arma para a escola, atirar em uma professora enquanto ela estava de costas e, depois, apertar o gatilho contra a própria cabeça? Filho de uma família estruturada, baterista no grupo da igreja, estudante de boas notas, sem histórico de problemas, como explicar suas ações?

VIOLÊNCIA
O que faz um aluno de 14 anos socar sua professora de 54 depois que ela retirou seu celular após pedir que ele desligasse o aparelho por três vezes porque a música alta atrapalhava a aula?


TERROR
O que faz um jovem se armar até os dentes e descarregar seu desequilíbrio emocional na escola onde estudou, matando muitos estudantes inocentes que não tiveram nenhuma chance de defesa?

MEDO
O que faz uma mãe espancar - quase até a morte - a professora da sua filha? Ou um pai ameaçar outra educadora dizendo que ele era 'o policial que ensinava os outros a matar'? Casos hipotéticos? Não, notícias de jornais colhidas nas páginas dos diários e situações enfrentadas cotidianamente por quem não é remunerado dignamente e enfrenta obstáculos que vão desde a própria formação até a carga excessiva de trabalho.

NÚMEROS DA DOR
Segundo a Apeoesp (Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo), só nas escolas paulistas já foram registrados mais de 300 casos de agressão neste semestre pelo Observatório da Violência da entidade. O número é 40% maior do que no semestre passado.

ÓDIO VIRTUAL
E quando a agressão não é física, ainda é preciso enfrentar o ódio nas redes sociais. O que faz estudantes criarem comunidades para expressarem tanta inimizade contra seus professores? Só para se ter uma ideia, quem digitar "eu odeio meu professor" no Orkut vai encontrar nada menos do que 288 comunidades onde jovens contam ter vontade de jogar bombas no carro dos professores ou relatam atos que já cometeram, como jogar rojão no carro do professor, riscar o carro, rasgar pneus dos veículos e até pichá-los com palavrões, entre uma série de outras delinquências.

COVARDIA
E então a cena choca os olhos. Professores em greve por melhores condições de trabalho e vida são violentamente espancados no Nordeste. Agarrados pelos cabelos, socados até o chão, chutados sem dó, estapeados enquanto sangram, tudo mais parece filme de horror. E então as conexões começam a ser feitas.

DESCASO
Um governo - seja municipal, estadual ou federal - que não valoriza os professores que tem abre brechas para que pais e alunos também se sintam no direito de agredir os educadores, muitas vezes verbalmente e, vezes demais, fisicamente.

ERRO ABSURDO
Na contramão do mundo, o Brasil, em todas as suas esferas, insiste em maquiar resultados com aprovações automáticas, diminuir o número de aulas de disciplinas como português e matemática nas quais, atestadamente, os brasileiros não vão bem, sem falar de outras barbaridades que só alimentam as pesquisas na conquista de fundos internacionais.

MODELOS
China, Japão, Europa. Os melhores índices de educação do mundo estão em lugares que apostaram na escola em tempo integral, onde, além do currículo oficial, crianças e jovens podem se preparar para a vida, seja pessoalmente ou profissionalmente. O MEC tem programa semelhante, mas o número de escolas e estudantes atendidos ainda é insignificante para a revolução que precisa ser feita neste País.

VOCAÇÃO
Enquanto isso, os mesmos educadores que recebem tiros, socos e pontapés continuam fazendo horas-extras nas escolas em ações que ultrapassam o ensino tradicional e beiram como a 'salvação' do mundo. Investem tempo e talento na formação de corais, nas salas de leitura, nos programas de jornal e educação, entre outros .

RECONHECIMENTO
Já passou da hora de a sociedade reconhecer estes esforços. Já passou da hora de as autoridades protegerem os professores. Já passou da hora de familiares e estudantes entenderem que só há uma saída para mudar a vida para melhor: a educação, da qual os professores são as personagens principais.

Ayne Regina Gonçalves Salviano é jornalista e professora. Mestre em Comunicação e Semiótica e Especialista em Metodologia Didática do Ensino Superior. Leciona na rede particular de Araçatuba no ensino médio, graduação e pós. Coordena o Programa Ler para Crescer da Folha da Região.

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