terça-feira, 6 de setembro de 2011

Pesquisa relaciona história à vida prática dos alunos


Por Agência USP

Estudo da Faculdade de Educação (FE) comparou a forma como estudantes das redes públicas brasileira e portuguesa conseguem aplicar sua consciência histórica na vida prática “Consciência histórica é uma soma de operações mentais que inclui a leitura da experiência no tempo, sua interpretação e a orientação a partir delas no presente”, afirma o historiador e professor Ronaldo Cardoso Alves, autor do trabalho.

Para analisar como os alunos se relacionavam com os fatos foi escolhido um tema comum às histórias brasileira e portuguesa, a transferência da família real portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro, em 1808. Foram apresentadas duas narrativas de livros didáticos brasileiros e os 250 alunos (150 brasileiros e 100 portugueses) responderam a um questionário.


Antes da leitura dos textos foi perguntado se a transferência havia sido uma fuga ou um fato planejado. “Isso avaliou que tipo de explicação histórica os alunos construiram”, revela Alves. Após a leitura os alunos respondiam se sua opinião perante aquele fato histórico foi alterada, se as narrativas apresentadas divergiam entre si e quais as principais consequências do fato aos países. “As questões avaliaram que tipo de evidências os alunos apontaram, qual era a sua compreensão histórica e o significado que eles davam a ela”.

O questionário também incluiu avaliação socioeconômica. Era importante saber qual o nível de acesso que os estudantes tinham aos chamados equipamentos socioculturais, como cinemas, bibliotecas, teatros e jornais. Quanto maior o contato com esses meios, aliado a uma qualitativa metodologia do ensino de História, melhor a construção de consciência histórica.

Alves conta que os estudantes portugueses possuem um maior conhecimento histórico factual, mas os brasileiros que têm acesso aos equipamentos socioculturais são mais reflexivos e criativos. “Não temos uma resposta exata sobre os motivos que levam a isso, mas creio que seja fruto do tipo de educação que é dada nas escolas portuguesas. Lá o ensino privilegia muito mais o conhecimento factual. Os pesquisadores com quem conversei concordam com isso”, diz.

As escolas
Durante a pesquisa, foram entrevistados alunos de duas escolas públicas de ensino médio tradicionais brasileiras, uma no centro de São Paulo, com estudantes do período diurno, e outra em Osasco, na Grande São Paulo, com alunos do noturno. “A escolha por períodos diferentes ajudou a verificar a diferenciação socioeconômica. Os que estudavam à noite geralmente trabalhavam durante o dia para ajudar no complemento da renda familiar, enquanto que os do período diurno apenas estudavam e tinham renda superior”, conta Alves.

Os alunos do período noturno se mostraram mais frequentadores de bibliotecas, por exemplo, apesar de terem menos tempo livre. “Isso mostra que a vivência também aumenta a consciência histórica”. Ele ainda ressalta que mesmo tendo maior acesso aos equipamentos socioculturais, os índices ainda são muito baixos se comparados aos de alunos portugueses.

Em Portugal, Alves contou com o apoio da professora Isabel Barca, da Universidade do Minho, em Braga, no norte daquele país. Foram entrevistados alunos em cinco escolas públicas da região: duas em Braga (uma na periferia e outra em um bairro de elite), duas na cidade do Porto (uma no centro e outra em um bairro nobre) e uma no município de Valongo, próximo ao Porto. “Esta foi a mais curiosa. Apesar de os estudantes serem pobres, eles tinham acesso a equipamentos socioculturais oferecidos pelo governo e deles se aproveitavam. Assim, apresentaram um bom desenvolvimento de consciência histórica se comparados com estudantes das outras escolas pesquisadas”, afirma.

A tese de doutorado Aprender História com sentido para a vida: consciência histórica em estudantes brasileiros e portugueses, sob orientação pela professora Katia Abud, da FE.

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