quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Oficina preserva Silvio Russo



Painel em parede do Maap, pintado em 1980,
será restaurado pela artista plástica Rose Fávero,
durante curso sobre teoria e prática de restauro

Por Talita Rustichelli

Inventor do traço denominado "biopsíquico" por Pietro Maria Bardi (1900 - 1999), diretor do Masp (Museu de Arte de São Paulo) por 45 anos, o artista plástico paulista Silvio Russo deixou mais de uma centena de obras de sua autoria na cidade de Araçatuba, feitas entre 1971 e 1983, período em que viveu no município. Nada mais justo (e fundamental) que seu trabalho seja preservado, não só por ele ter vivido aqui, mas pela relevância de sua obra.

Para efetivar uma parte desta preservação, junto com a artista plástica biriguiense Rose Fávero, especialista no restauro de murais e também de imagens (esculturas) sacras, a Oficina Cultural Silvio Russo está desenvolvendo a atividade "Teoria e prática de restauro". Os participantes poderão acompanhar a artista na restauração de um painel de Russo, até dia 10 de novembro, data de encerramento da oficina.


A obra mede 4,5 m x 2,5 m e está localizada em uma parede interna do Maap (Museu Araçatubense de Artes Plásticas), na rua Anita Garibaldi, 75, no centro da cidade. O local onde hoje se encontram o Museu e também a Casa de Cultura Adelino Brandão, na época da pintura ainda abrigava o Intec (Instituto Noroestino de Trabalho, Educação e Cultura). O trabalho, de acordo com a filha, fotógrafa e também artista plástica, Fernanda Russo, foi encomendado pela diretoria do antigo Intec.

Fernanda, que ainda era criança quando o pai pintou o painel, em 1980, afirma não ter registros sobre os significados da obra. "Na minha leitura, ele representava alguma situação atual da cidade, com alguns temas históricos do município. Ele sempre retratava pessoas por meio da realidade, o cotidiano, trabalhadores, religião, arte, entre outras coisas. Ele tinha um senso crítico apurado e não media as palavras", conta.

RESTAURO
A artista plástica Rose Fávero aborda aspectos teóricos da restauração, como a história e os tipos de materiais utilizados, e será a responsável por desenvolver o trabalho prático. "Os alunos me auxiliarão em algumas questões práticas, como preenchimentos mais simples na parede, nos lugares onde não há pintura. É necessário ter experiência neste tipo de trabalho, para não correr riscos de descaracterizar a obra", diz.

O painel, segundo Rose, apresenta algumas pequenas rachaduras, além de "bolhas" ocasionadas por infiltrações na parede, manchas amareladas e sujeiras que penetraram na superfície. "Onde há as partes estufadas, por exemplo, elas serão tratadas com todo o cuidado para que os pedaços não caiam e se perca parte da obra", diz.

A parede será limpa e, a partir disso, o grupo dará início à restauração. "A tinta utilizada deve ser a mesma que o autor usou. Quando interferimos em uma obra que não é nossa, temos que ter um cuidado para não interferir nas características dela". Rose afirma ainda que hoje, com a evolução nesta área, há disponíveis no mercado tintas específicas e que possuem a vantagem de proporcionarem um trabalho reversível, ou seja, podem ser removidas sem dificuldade no caso de um futuro restauro.

INTERFERÊNCIA
Para a artista, antes da interferência de um restaurador, é necessário que se tenha a preocupação com a preservação do patrimônio cultural. "Restaurar é uma forma de conservar, de dar continuidade ao trabalho do artista. Mas as pessoas devem cuidar daquilo que faz parte de sua história, memória e identidade. Quanto mais cuidado se tiver com a preservação, mais irá durar a obra", afirma.

Fernanda Russo, que irá participar de uma das aulas, falando sobre a vida e a arte do pai, afirma que a importância da restauração está na manutenção da função da arte, de "ir ensinando as gerações". "Eu tenho uma filha de dois anos e quero que ela veja o que o avô dela produziu artisticamente. As pessoas têm de ter esse contato com as obras. Assim como preservamos nosso patrimônio pessoal, como quando guardamos fotografias antigas, é importante preservar o patrimônio cultural", complementa.

Artista tem obras no acervo do Masp e da Pinacoteca de São Paulo
Silvio Moacir Russo nasceu em 9 de maio de 1934, em São Paulo, e faleceu em 3 de fevereiro de 1997, na cidade de Pedro Juan Caballero (Paraguai). Sua arte passou por inúmeras fases, técnicas e materiais, incluindo esculturas em barro e madeira, mas o que o consagrou foi o traço preto em superfície clara denominado "Biopsíquico". 

O termo com o qual Pietro Maria Bardi classificou suas obras em 1966, em uma conversa entre dois, teria sido explicado pelo artista como a "exteriorização do conteúdo interno de figuras humanas". "Seria o retrato do psicológico de maneira realista", explica Fernanda Russo.

Obras do artista integram importantes acervos do País, como os do Masp e da Pinacoteca de São Paulo. Ele também realizou exposições em vários países da América Latina. Em Araçatuba, além do Maap e acervos particulares, a capela do Colégio Salesiano abriga alguns de seus painéis em suas paredes; eles não foram restaurados, por estarem em ambiente fechado e coberto e apresentarem um bom estado de conservação, mas parte da obra foi descaracterizada. A figura de Maria, por exemplo, teve a intervenção de uma pintura feita por cima do rosto. 

DOCUMENTÁRIO
A vida e a obra de Silvio Russo será preservada também em videodocumentário. A Oficina Cultural é a responsável pela realização do projeto, que tem a coordenação de Fernanda Russo e do jornalista, produtor e diretor de audiovisuais penapolense Lucas Casella. A atividade integrou a programação do primeiro semestre e, segundo Fernanda, o vídeo está praticamente finalizado. "Queremos inserir ainda algo sobre o restauro. O documentário será apresentado pela primeira vez em dezembro, nas comemorações do aniversário da cidade", diz.

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