quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O múltiplo sertão de Rosa


Por Carlos Eduardo Brefore Pinheiro

"Sertão é do tamanho do mundo. (...) Sertão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados. Sertão é quando menos se espera. (...) Sertão é dentro da gente. (...) O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! (...) Sertão é isto, o senhor sabe: tudo é incerto, tudo é certo. (...) Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... Travessia perigosa, mas é a da vida. (...) Este mundo é muito misturado...". Os trechos acima pertencem a "Grande sertão: veredas", de João Guimarães Rosa, publicado em 1956. Desde sua publicação, esta obra-prima da literatura brasileira foi alvo de inúmeros estudos, que tentam apontar possíveis sentidos para a trajetória do personagem Riobaldo e sua saga pelo sertão místico de Rosa. Neste texto, quero fazer alusão a três estudos realizados por professores da USP (Universidade de São Paulo), que dão, cada um à sua maneira, uma interpretação para o romance em questão. São eles: Adélia Bezerra de Menezes, Marcus Vinícius Mazzari e José Antônio Pasta Júnior.


A professora Adélia Bezerra de Meneses, seguindo o caminho da psicanálise, procura apontar em que medida o romance, em que o narrar se afigura como busca desesperada de sentido para o vivido, é a verbalização de situações existenciais de um Outro (numa situação transferencial) que fornece possibilidade de reorganização do próprio mundo interior ("O senhor me organiza", repete incansavelmente Riobaldo a seu interlocutor). Diz a professora que: "a narrativa de Riobaldo, acolhida por um outro, não é só rememorada - o que o sertanejo havia de ter feito muitas e muitas vezes, mas com-memorada (de cum + memorare = lembrar junto). As situações traumáticas têm assim a possibilidade de voltarem do lugar cristalizado que ocupavam, de serem revividas emocionalmente, e como que reeditadas no coração: recordadas".

Já o professor Marcus Vinícius Mazzari lança um olhar sobre a obra de Guimarães Rosa a partir da perspectiva do "romance de formação". As andanças e vivências de Riobaldo em meio à grande guerra jagunça - em especial a relação com Diadorim e o confronto com a forma diabólica do mal encarnada em Hermógenes - perfazem uma trajetória que envolve igualmente princípios e fundamentos da tradição do romance de formação e desenvolvimento. De acordo com Mazzari: "Riobaldo atravessa os seus anos de aprendizado nos espaços 'sem fecho' do sertão, em contato com toda a arraia-miúda dos jagunços, mas também com o 'mais supro' Medeiro Vaz ou o 'grande homem-príncipe' Joca Ramiro; o misterioso Siruiz que lhe descortina a esfera sublime da poesia e o Hermógenes, encarnação suprema do mal; Diadorim, arauto das 'belezas sem dono' e de quem parte a lição seminal da coragem".

Por fim, o professor José Antônio Pasta Júnior aponta como base de lógica do romance a consciência dividida do narrador, a configurar a contradição insolúvel, uma espécie de dialética negativa, que não engendra superação ou síntese propriamente ditas. Partindo da visão hegeliana de formação como distinção entre Sujeito e Objeto, num processo equacionado em tese - antítese - síntese, o professor demonstra que o romance de Rosa é marcado pela indistinção entre Sujeito e Objeto e afirma que: "todos e cada um dos gestos de Riobaldo, como narrador e personagem, vêm da experiência dessa fórmula. Assim é que ele se 'forma' passando no seu outro - ele vem a ser sendo outro -, o que lhe dá a sua conhecida feição de metamorfose contínua, de passagem abrupta de um polo ao outro, de um bando ao outro, de uma convicção a outra, de um caráter ao outro e, mesmo, emblematicamente, de um sexo ao outro - replicação de reversibilidades que constitui a matriz de sua pergunta necessariamente obsessiva e necessariamente sem resposta".

Assim, da visão psicanalítica da transferência com vistas ao processo de cura do trauma por meio da recordação, trabalhada por Adélia Bezerra de Meneses, passando pelas visões antagônicas de "Grande sertão: veredas" como romance de formação (em Marcus Vinícius Mazzari) e como romance de anti-formação (em José Antônio Pasta Júnior), a obra de Rosa se abre para múltiplas interpretações, o que vem validar o título de monumento linguístico e literário que a crítica lhe conferiu e lhe confere até hoje. Em qual interpretação acreditar? Cabe a cada leitor decidir. Afinal, como afirma Riobaldo: "O senhor ache e não ache. Tudo é e não é...".


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