terça-feira, 13 de setembro de 2011

O escritor e a concisão


Por Talita Rustichelli

Nascido em Sertânia (PE), o escritor Marcelino Freire vive em São Paulo há 20 anos. Foi para a capital paulista achando que ia ficar por pouco tempo, mas ali encontrou-se definitivamente com a literatura.

É ele quem ministra a primeira palestra da Semana Literária de Araçatuba, nesta terça-feira, às 19h, no auditório do Senac, e a oficina "Narrativas Breves", das 14h às 18h, no Unicolégio. A Semana, que começou ontem e vai até o próximo dia 24, é realizada pela Secretaria da Cultura de Araçatuba, em parceria com o Sesc (Serviço Social do Comércio) e Sesi (Serviço Social da Indústria).


"Amar é crime", seu sexto livro, foi lançado há dois meses, pelo selo coletivo Edith, do qual é um dos coordenadores e editores. Em entrevista concedida ao caderno Vida, por telefone, em meio a ruídos de metrô (estava a caminho de Santo André, onde está ministrando uma oficina), falou sobre o selo, a palestra, e a sua relação com a internet.

Os contos de seus livros são independentes ou seguem uma linha temática?
Cada livro tem uma linha temática. Em "Contos Negreiros", que ganhou o Prêmio Jabuti em 2006, por exemplo, o negro é personagem direta e indireta das narrativas. Eu escrevo vários contos, depois vejo o que eles têm em comum e agrupo de acordo com as temáticas.

Você só escreve microcontos?
Não. Meus contos não são tão longos, mas não chegam a ser micro. Tenho uma relação com os microcontos porque eu organizei o livro "Os cem menores contos brasileiros do século", em 2004 (Ateliê Editorial), muito antes doTwitter, antes dessa coisa dos 140 caracteres, eu já falava dos microcontos. Agora em agosto iniciei uma coluna no jornal O Estado de São Paulo, onde escrevo microcrônicas quinzenalmente, sobre o cotidiano da cidade, sobre o Brasil, e no Twitter (que tem um espaço curto, serve muito bem para este gênero) coloco muitos microcontos... Mas, nos livros, tenho contos de até quatro, cinco páginas. Mas, independente do tipo de texto, eu trabalho sempre a concisão.

O fato de ter ganhado o Prêmio Jabuti de Literatura lhe abriu portas?
Abriu algumas portas internacionalmente. Surgiram alguns convites para fora do país, porque é um prêmio muito conhecido. Mas o escritor não pode só viver de Jabuti. Acho que é importante o prêmio, mas você deve continuar escrevendo, produzindo a sua literatura, aquilo em que você acredita, sem pensar em prêmios. O grande prêmio eu recebo quando um leitor me procura, de onde quer que seja, porque gosta daquilo que escrevo.

Seu penúltimo livro foi publicado pela Record e, para o último, optou pelo selo Edith. Por quê?
O selo Edith é um selo independente, do qual eu sou um dos criadores e editores. Eu acho que, se o escritor não tomar cuidado, vira um patê de fígado. O que me interessa é a inquietação... Eu não tenho o que reclamar da Record, publiquei dois livros por ela, mas eu quis dar uma zerada em tudo e tratar a literatura como uma proposta de intervenções nos lugares, pensar em um grupo artístico. Eu quis sair dessa linha confortável e ir pra uma luta que tem muito mais a ver com a literatura contemporânea brasileira.

Como funciona o selo Edith?
Eu sou um dos editores, um dos criadores, mas a gente trata a editora como uma pessoa. Não estamos abrindo uma empresa, não temos obrigação de receber originais das pessoas, por exemplo. A Edith é uma postura. A pessoa que tiver o seu livro, o seu original, e tenha amigos que acreditam na mesma literatura e queiram fazer coisas juntos, se unam, façam seu próprio selo, abram uma página na internet, façam circular os seus livros, suas ideias. Esta é a proposta da Edith. A gente tem recebido muitos contatos de pessoas que querem mandar seus trabalhos, saber como publicar, mas não é essa a nossa postura. Não é uma empresa que a gente abriu com a intenção de entrar no mercado editorial com toda a força, todo investimento; é longe disso. É uma atitude de um grupo de artistas que se reuniu para produzir suas próprias coisas. E nada mais natural que eu trouxesse o meu livro pra essa filosofia, para essa provocação.

O selo nasceu quando?
Já fazia um tempo que eu queria fazer, eu e o Vanderley Mendonça. Na metade do ano passado, lançamos os primeiros livros do selo. E o selo também faz curta-metragem, produções, tem uma fotógrafa no grupo. Dia 19 de setembro, mais três livros serão lançados. Outro projeto em andamento é um concurso só para escritoras, cujo resultado sai dia 19 também; nós vamos publicar uma autora nova, tem cinco finalistas. Na página da Edith - http://visiteedith.com - tem a relação das finalistas, os próximos lançamentos, sobre o "Amar é crime", tudo o que está acontecendo. Há também uma lojinha no site, com os livros à venda.

Em Araçatuba, durante a Semana Literária, você abordará as narrativas curtas...
À tarde, eu vou fazer uma oficina rápida sobre isso e sobre a concisão. O que eu falar sobre o microconto vai servir pra quem está escrevendo um livro de mil páginas, não importa. A concisão é um trabalho que o escritor deve seguir. Na palestra, à noite, falarei sobre microcontos, sobre minha trajetória, sobre a Edith, sobre os meus livros, sobre a literatura contemporânea e também responderei perguntas da plateia.

As narrativas curtas são uma tendência nesse "mundo imediato de teclas, clics e touchs"?
Hoje a micronarrativa está sendo utilizada com mais frequência, por causa dessas redes sociais, que tem espaços curtos. Mas Machado de Assis já escrevia textos curtos, se você pegar os romances dele, pode ver microcapítulos, e se você pegar a Bíblia, mesmo, ela é dividida em versículos, você pode pegar qualquer um deles e colocar no Twitter.

Você tem Twitter, tem blog. Tem uma boa relação com a internet...
Tenho sim. Eu acho que a gente tem de usar a internet e não deixar a internet usar a gente. É o que eu faço. Pego um meio de comunicação extraordinário e tento usar de forma inteligente. Você tira um texto seu da gaveta e coloca no mundo. Você abre um blog e as pessoas podem ler o que você escreve, de qualquer cidade, qualquer país. É revolucionário.

E os direitos autorais?
Podem me roubar, me piratear. Eu quero ser lido. Desde que, evidentemente, coloquem o crédito. Mas também, se não colocar, tudo bem. Mas, se eu descubro, por exemplo, que uma grande empresa pegou um texto meu e fez um uso indevido, será minha glória literária, porque o processo vai me render um dinheiro, e eu só vou fazer isto na vida: escrever. Mas eu falo isso só em relação a essas grandes empresas. O leitor que está em outro Estado, que pega um texto meu, faz circular, pega uma frase e coloca numa camiseta e passa pra frente, está fazendo um favor pra mim.

Além de escrever, você ministra cursos e palestras pelo Brasil. Que outros trabalhos desenvolve?
Só isso. Há uns quatro ou cinco anos eu só trabalho direta e indiretamente com literatura, escrevendo, fazendo curadoria de eventos, palestras, é com isso que eu me sustento.

Mesmo com as possibilidades oferecidas pela internet, você vê necessidade ainda de lançar livros? Por quê?
Eu estou até estudando a possibilidade de colocar meu livro no acesso livre. Meu livro está à venda na Amazon, foi o primeiro livro de literatura contemporânea brasileira a ser lançado diretamente na Amazon (não estou falando de um livro que tenha sido lançado anteriormente, depois transferido para lá), então eu tenho muita ligação com isso. Eu acho ótimo ter um livro na mão para levar para qualquer lugar, mas também estou de olho nessas novas possibilidades.

Que vantagem você vê em publicar um livro, comparando com a disponibilização na internet?
O livro impresso é um documento. A internet parece que é fictício. O livro na mão é uma prova documental de que o livro existe, você pode bater com ele na cabeça do outro, você pode mostrar que ele existe, que ele tem vida material...

Você não acha que isso seja uma questão de hábito? Porque talvez essas gerações que estão vindo agora prefiram ver tudo pela internet...
O que eu acho é o seguinte: um Kafka sempre será um Kafka, no papel ou no computador, na tela de um celular. "A Metamorfose" vai estar lá, o mesmo desespero, o mesmo homem se transformando em inseto. O comportamento é que muda, mas o leitor continua sendo o mesmo, de um lado, e o escritor, do outro lado, também. Eles se encontram na leitura, na compreensão do mundo... Um texto sempre será um texto.

Como foram os seus primeiros contatos com a literatura?
Aos nove anos de idade, com uma poesia do Manuel Bandeira. A partir dessa leitura, eu quis ser escritor. Eu fui conhecendo mais o trabalho do Bandeira e de outros poetas, fui fazer Letras, fiz teatro (como dramaturgo, sobretudo).

Você tem feito trabalhos relacionados à produção de literatura e à circulação de ideias. Acha que falta um pouco desse "agito literário" para realizar uma mobilização literária maior no País?
Eu acho que estes movimentos têm aumentado. Basta você ver o número de festas e encontros pelo Brasil todo, como a de Paraty, a jornada literária de Passo Fundo (que fez 30 anos), a Balada Literária, que eu coordeno em São Paulo. Acho que se tem feito provocações o tempo inteiro, para tirar um pouco a literatura do casulo, do castelo. Acho que as coisas estão mudando. A literatura começou a estar presente nos discursos da Dilma, ela cita sempre em seus discursos, e isso acaba de alguma forma caindo na prioridade do governo... Tem muita coisa pra fazer ainda, mas acho que as coisas têm mudado.

E a Balada Literária? Quando acontece?
A próxima edição acontece de 6 a 20 de novembro, em São Paulo. São debates, oficinas, palestras, shows, tudo gratuito, é só chegar e assistir. Reúne quase uma centena de escritores nacionais e internacionais na Vila Madalena.

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