terça-feira, 13 de setembro de 2011

Mudanças na Liberdade são mostradas com imagens em estudo

Por Bruno Capelas/Agência USP


Que tal, professor de Geografia, usar as ideias da pesquisadora de São Paulo e levantar com seus alunos se os bairros onde a escola está inserida ou onde eles moram passam pelos mesmos problemas apresentados no texto?
Fica aqui a sugestão... 




A transformação pela qual passa a Liberdade, bairro paulistano com forte identidade oriental, não é um processo natural. “O processo resulta de ações do Estado e da sociedade. Ou até mesmo da falta delas”, analisa a socióloga Lucimara Flávio dos Reis. Em sua pesquisa realizada no departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, ela verifica, por exemplo, como o bairro da Aclimação – zona residencial adjacente à Liberdade – passa a invadir os limites do bairro “oriental”. A pesquisa traz 39 fotografias do bairro, que servem de apêndice ao estudo.

Recentemente, muitos empreendimentos imobiliários têm sido lançados na Liberdade com características da Aclimação. “Se por um lado isso retoma áreas abandonadas da cidade, por outro pode trazer um risco à identidade da região e às características prévias dos moradores daquele lugar, que acabam sendo ‘expulsos’ devido ao aumento do custo de vida no lugar”. Para Lucimara, este é um símbolo do movimento especulativo que abateu o mercado imobiliário da cidade, e que tem seu lugar porque existe uma demanda reprimida por moradia.

Vale citar que esse não é um movimento que existe apenas na Liberdade, mas em toda a cidade. Recentemente, um levantamento do Sindicato da Habitação (Secovi) mostrou que o preço médio do metro quadrado na capital paulista em novos empreendimentos subiu 8,6% em relação aos últimos doze meses. Muitas das características do trabalho de Lucimara se encaixam bem em outros pontos da metrópole, mas a escolha do objeto de estudo não foi mero acaso. 

“A meu ver, a Liberdade é tipicamente uma zona de transição, uma área com um tipo de ocupação diferente daquele encontrado no centro. A mistura e a sobreposição de usos é a sua marca distintiva. Uma razão para isso é que a cidade cresceu de ‘costas’ para o bairro, que em seus primórdios continha elementos desagradáveis, como um cemitério e um matadouro”, conta ela.

Obsolescência
Na primeira parte da dissertação a autora analisa alguns modelos de urbanização criados por estudiosos americanos, como Ernest Burgess e Homer Hoyt, bem como análises da escola francesa, cujo expoente maior é Henry Lefèbvre, e a sua compreensão da problemática urbana. Entretanto, no decorrer da pesquisa, ela própria verificou que tais conceitos não seriam suficientes para estudar São Paulo, por duas razões. “De um lado, tratam-se de modelos antigos; do outro, é difícil analisar a nossa realidade urbana com um instrumental teórico que não se desenvolveu baseado na experiência daqui. É outra realidade”.


Lucimara analisou o desenvolvimento do distrito da Liberdade a partir da história de sua ocupação, cujo início se deu na segunda metade do século 19 — o desenvolvimento e a consolidação do bairro, por sua vez, ocorreram ao longo do século 20. E, nesse momento, a pesquisadora sentiu a necessidade de ir a campo, mostrando em fotografias alguns dos conceitos que, segundo ela, exibem o processo de “obsolescência” pelo qual passa o bairro. Segundo Lucimara, o uso do termo “decadência” poderia significar que o que ocorreu com o bairro foi uma ação natural. “Por resultar da decorrência de ações humanas é que prefiro o termo ‘obsolescência’”, justifica.


Estado ausente
A especulação e o déficit habitacional são apenas dois movimentos que mostram como um Estado não comprometido com a qualidade da urbanização pode influenciar negativamente no desenvolvimento de uma região: “O Estado tem a responsabilidade de prover habitações. Sem moradia, a cidade cresce sem controle, como fez nas últimas décadas”. 

Além disso, de acordo com a pesquisadora, é necessário que a sociedade tenha a noção de que a cidade não é e não deve ser um ambiente hostil. Lucimara aponta que iniciativas como a Lei Cidade Limpa e a expansão do Metrô podem ajudar a trazer para a mente das pessoas a ideia de que “a cidade não deve ser um lugar feio, voltado para o trabalho, segregado entre diferentes classes sociais. A extensão das linhas do Metrô de São Paulo é uma vergonha, se comparado à de outras metrópoles, mas só o fato de uma nova linha [Amarela] ter se aberto já fez com que pessoas mais e menos abastadas dividissem um espaço, nem que seja por alguns minutos”, explica.

De acordo com Lucimara, o estudo O processo de obsolência nas áreas centrais da cidade de São Paulo: o distrito da Liberdade não é conclusivo. “É difícil falar em uma conclusão. Acredito que esse trabalho conseguiu, entretanto, cumprir sua finalidade, que era a de ressaltar que existe um problema com São Paulo e que deve ser discutido”, diz a pesquisadora. A orientação do trabalho é da professora Amália Inés Geraiges de Lemos, e foi defendido em novembro de 2010.

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