segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Esperança no sangue dos jovens


Por Roelf Cruz Rizzolo

“Por isso é que eu sou um vampiro e com meu cavalo negro eu apronto. E vou sugando o sangue dos meninos e das meninas que eu encontro.”
(Jorge Mautner).

Quem diria que mais de 30 anos depois, a belíssima música de Jorge Mautner adquiriria também um viés científico. Não, não..., nenhum vampiro foi identificado pela ciência -fora os morcegos hematófagos- mas a utilidade do sangue dos meninos e meninas está na ordem do dia.

O experimento ao qual me refiro é tão interessante que vale a pena retroceder um pouco para compreender seus antecedentes.


Desde os tempos do grande neuroanatomista espanhol Ramón y Cajal - primeira década do século 20- tínhamos a convicção que os neurônios, as células do cérebro, não se reproduziam. Nascíamos com um número determinado e daí para frente nenhum outro nasceria.

Essa teoria começou ruir nos anos sessenta quando a equipe do neurocientista Joseph Altman comprovou a proliferação de novos neurônios no cérebro de ratos, processo denominado neurogênese adulta. Esses resultados, porém, ficaram algo esquecidos até a década de oitenta, quando a neurogênese foi confirmada no hipocampo, uma região do cérebro responsável pelo aprendizado e a memória.

A partir desse momento as pesquisas na área se intensificaram. Hoje sabemos que a neurogênese adulta não apenas existe como pode ser estimulada mediante exercício físico voluntário e convívio em ambientes intelectualmente estimulantes. Infelizmente, descobrimos também que ela diminui com a idade, e essa redução parece estar associada aos déficits de memória e raciocínio observados durante o envelhecimento e mais fortemente nas doenças neurodegenerativas como o mal de Alzheimer.
Assim, um dos objetivos dos cientistas tem sido não apenas investigar formas de estimular a neurogênese hipocampal, mas também entender quais os fatores que a reduzem na velhice.

Alguns pesquisadores suspeitaram que os fatores associados com a diminuição da neurogênese poderiam estar não nos próprios neurônios, mas seriam trazidos ao cérebro pelo sangue circulante. Para testar essa possibilidade, o pesquisador Saul Villeda e seus colaboradores da Universidade de Stanford criaram inicialmente ratos “siameses” mediante um processo cirúrgico denominado parabiose (resumidamente, dois animais cirurgicamente conectados de forma a compartilhar o sistema circulatório, assim, o mesmo sangue circula pelos dois organismos). Neste caso, os pesquisadores criaram grupos experimentais unindo dois ratos jovens (J+J), dois velhos (V+V) ou um jovem com um velho (J+V).

Depois de cinco semanas de união artificial, os animais foram sacrificados e mediante técnicas especiais foi contado o número de novos neurônios em cada um dos grupos. Os cientistas observaram que esse número não se modificou nos grupos J+J e V+V, mas nos animais do grupo J+V, o rato idoso teve um número maior de novos neurônios quando comparado com um rato da sua mesma idade “não siamês” (grupo controle). Possivelmente, alguma proteína circulante no sangue do rato jovem com o qual estava artificialmente conectado tinha alcançado seu cérebro e por mecanismos ainda desconhecidos, aumentado a neurogênese.

O inverso também foi observado. No cérebro do “siamês” jovem do grupo J+V, o número de novos neurônios foi bem menor que o contabilizado em ratos controle da mesma idade. Como no caso anterior, os pesquisadores suspeitaram que alguma substância produzida pelo rato idoso tinha alcançado o cérebro do jovem e induzido uma diminuição na neurogênese.

Os cientistas partiram então para descobrir quais poderiam ser essas substâncias. O que haveria no sangue do animal jovem que estimularia a produção de novos neurônios? E o que acontece quando o rato envelhece?

Mediante uma técnica denominada análise proteômica, compararam as proteínas dos ratos antes e depois do experimento, e identificaram seis que estavam em nível elevado tanto nos animais jovens do grupo J+V (aqueles que tiveram a neurogênese diminuída) como em animais idosos controles. Uma delas foi a CCL11, proteína pertencente a uma família conhecida como eotaxinas, com grande participação em nosso sistema imunológico.

Para confirmar as suspeitas sobre o papel da CCL11, os pesquisadores a injetaram em ratos jovens normais e observaram que, de fato, a neurogênese diminuía. E não apenas isso. A capacidade de aprender ou mesmo lembrar tarefas que tinham sido previamente aprendidas foi drasticamente comprometida.
A ideia agora é estudar detalhadamente essas proteínas e como elas funcionam no homem. Há um bom caminho antes de transformar esse conhecimento em um medicamento que alivie alguns dos males do envelhecimento e as doenças cerebrais, mas a CCL11 pode representar um grande atalho.
Fonte: Villeda, S et al (2011). The ageing systemic milieu negatively regulates neurogenesis and cognitive function. Nature, DOI: 10.1038/nature10357.

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