terça-feira, 27 de setembro de 2011

Escola, dinheiro e maionese

Por Christian Carvalho Cruz - O Estado de S. Paulo


Sentada entre uma fonte adornada por uma bonequinha cor-de-rosa que espirrava água e um vigoroso cofre de aço com 1,50 m de altura, Silvia Alambert pôs as mãos nos quadris, fingiu cara de bedel e deleitou-se numa gostosa gargalhada quando eu lhe perguntei o que era um quadrante financeiro: "Ah, quer dizer que na infância você faltou às aulas de educação financeira, não foi?!" Foi. Eu devia estar jogando bolinha de gude. Secretária bilíngue de formação e "uma mulher que chegou a possuir 89 calças jeans ao mesmo tempo", mas hoje se diz curada, Silvia ensina crianças a partir de 5 anos a lidar com dinheiro. Sua empresa, The Money Camp, inspirada na matriz americana que ela foi conhecer em 2006 e da qual voltou fascinada, oferece programas de férias num acampamento no interior de São Paulo e módulos que podem ser adotados por escolas. Num e noutro, o objetivo é o mesmo: "Trabalhar no comportamento das pessoas em relação às finanças. Ensiná-las desde cedo a gastar direito e a poupar pensando no futuro". Silvia diz que atende "crianças com muito dinheiro, muito mesmo, famílias que mais têm dinheiro neste país" e também crianças sem poder aquisitivo nenhum, "filhos de faxineira, etc.". E a confusão mental da turma é enorme, independentemente do tamanho de seus fundos de derivativos futuros.




Exemplo: Em uma das atividades, chamada "Os ricos são.../Os pobres são...", as crianças são convidadas a completar as frases que batizam a brincadeira. "Elas respondem que os ricos são mais felizes, gananciosos, mesquinhos e têm mais oportunidades. E que os pobres são mais infelizes e mais doadores", Silvia conta, para logo em seguida concluir, estupefata: "Se eu acredito que ser rico é ser ganancioso, por que eu vou querer ser rico? Crenças desse tipo afetam demais a nossa vida financeira". Daí a importância de conhecer, entre os tantos ativos imponderáveis disponibilizados pela educação financeira infantil, o relevante quadrante financeiro, vulgarmente conhecido como "maneiras de ganhar dinheiro". Que são quatro, como se pode supor: sendo empregado, patrão, autônomo ou investidor. E o loser aqui, que desperdiçou tardes inteiras no quintal, só foi aprender o valioso conceito na beira dos 40 anos. Paciência.


Silvia não gosta quando perguntam se ela está ajudando a formar capitalistinhas. Ela acha o termo capitalista "muito pejorativo" porque vem sempre seguido da palavra "selvagem", e não se fala assim de criança. Para entender como funcionam as aulas fui visitar um colégio de classe média alta na zona central de São Paulo que introduziu o programa de Silvia como disciplina obrigatória no currículo dos alunos de 6 a 11 anos. A escola é muito asseada e protegida - não tem árvores derramando folhas pelo chão e de ponto nenhum se vê o céu. Boa parte do piso está coberta por um verdejante carpete de grama sintética. Atravessei o pátio, subi dois lances de escada e cheguei ao terraço quente onde acontecem as atividades da Money Camp. Os professores Rafael Soares e Thaís Nicacio, ambos formados em educação física, preparavam o começo da aula colando nas paredes os cartazes que "ajudam a reforçar os conceitos mais importantes". No meio da dúzia de frases, lia-se: "Eu entro no jogo do dinheiro para ganhar", "Eu ponho o dinheiro para trabalhar para mim", "Eu sou excelente administrador de dinheiro". As crianças, de primeira, segunda e terceira séries, corriam e pulavam num brinquedo de túneis e escadas de plástico que exibia cartazes ainda mais objetivos: "Proibido brincar de sapatos" e "Obrigatório uso de meias". Rafael falou alto para pôr fim à algazarra: "Todo mundo desce do brinquedo e senta aqui no chão. O último que chegar perde mula".


Mula é o dinheiro de mentirinha usado nas aulas - pedaços de cartolina recortados e com valor de face de 10, 20, 50 e 100. A palavra vem de moolah, uma gíria americana equivalente a "grana". Mas aqui o pessoal da Money Camp chama de mula mesmo, como a fêmea do burro, aquela que vive empacada. "Às vezes eu trago um painel com o ranking dos maiores ganhadores e perdedores de mula. Não é competição. A mula é uma gratificação dada quando eles fazem coisas legais ou dão respostas certas", explicou Rafael. Pela próxima hora e quinze, o professor recorrerá incansavelmente ao vocábulo "SILÊNCIO", em tom elevado e decidido, para atrair a atenção dos pequenos Warrens Buffets de sandálias Crocs.



A aula começou com uma revisão sobre as diferenças entre cartão de débito, de crédito e cheque. "O cheque é aquele que, se você usa e não tem dinheiro no banco, fica um mês na cadeia", adiantou-se um garoto. "Mas cartão de crédito é mais da hora porque tem mais dinheiro que o dinheiro", explanou outro. Rafael então repassou os textos das peças teatrais que estão preparando para o fim de ano (A Galinha dos Ovos de Ouro e O Rei Midas) e chamou a minha atenção para o fato de que "todo o conteúdo é transmitido assim, de maneira lúdica". Ele tinha um aluno lhe acariciando os cabelos e outro pendurado no pescoço quando me contou, aliviado, que finalmente descobrira um jeito cativante de apresentar o tema nodoso da aula seguinte: desvalorização de bens materiais. "Vou usar o mercado de carros." Ele se levantou, virou para a garotada e anunciou: "Hoje, para terminar, vamos falar de alavancagem. Para quem não lembra, alavancagem é quando você usa a energia e o tempo dos outros em seu favor. E em favor deles também".


Ficou mais claro na prática. Dois alunos foram separados do grupo. A um deles coube o papel de patrão. Ao outro, de saco de dinheiro. Os demais deram as mãos e fizeram um círculo representando as dificuldades que se levantam diante do patrão na sua busca pelo saco de dinheiro. Ao sinal de Rafael, o patrão irrompeu contra o círculo, mas as dificuldades estavam, digamos, coesas no intuito de atrapalhá-lo. Todos caíram uns sobre os outros como num jogo de rúgbi. Na segunda tentativa, uma das dificuldades abriu as pernas, o patrão passou por baixo e correu feliz para abraçar o dinheiro. Todos riram. "Nós somos amigos. Ele me pediu para deixá-lo passar porque quando eu for o patrão ele vai me deixa passar também", explicou a dificuldade participante do esquema. Na terceira vez, juntaram-se ao patrão dois funcionários. Fortalecida, a empresa facilmente esgarçou o círculo e chegou ao saco de dinheiro. "Isso é alavancagem. Em equipe fica mais fácil", consolidou Rafael.


Nos acampamentos da Money Camp, numa variante dessa atividade, um garoto na vez de trabalhador tem as pernas amarradas e tenta correr atrás dos colegas que usam óculos em formato de cifrão. Quando ele amealha muitos amigos de óculos (muito capital), senta numa cadeira de praia e, aposentado, é bajulado por eles. Segundo Silvia Alambert, quanto mais cedo uma criança recebe educação financeira, mais bem preparada ela estará para cuidar de seu patrimônio na vida adulta. "Se seguirem o programa todo, nossos alunos sairão do ensino médio verdadeiros Ph.Ds., prontos para enfrentar a realidade do mundo", regozijou-se. Ela não vê inadequação do assunto em relação à etapa do desenvolvimento da criança, porque, como disse o professor Rafael, "tudo é passado de maneira lúdica".


Imagem: Marcio Fernandes/AE
Levei essas ponderações ao psicólogo Julio Groppa Aquino, professor da Faculdade de Educação da USP. Ele comentou: "Não tem cabimento criança ter aula da tal educação financeira, como não tem cabimento ela ter aula de direção de automóvel, de sexo ou mesmo de participação política. E isso por uma simples razão: trata-se de práticas de adultos. Além do mais, elas terão uma vida inteira pela frente para se deparar com isso. Por que apressá-las, então? O que se ganha com isso? Por que não deixá-las em paz no tão breve dolce far niente da infância? O que perdemos ao fazê-lo?" Giovana Barbosa, gestora da Aliança pela Infância, uma ONG de nome autoexplicativo, detalha o que ganhamos: "Para cada dólar investido na infância, sete dólares são economizados em gastos sociais - prisões, hospitais, etc. Crianças menores de 12 anos não estão preparadas para receber esse tipo de informação. É o brincar que as fará preparadas para a vida adulta, não a introdução de temas adultos na infância". Educação financeira infantil, diz Giovana, pertence ao triste capítulo dos atuais concursos de misses mirins e dos antigos espetáculos de mini-Carlas Perez dançando na boquinha da garrafa. A pedagoga Pilar Manzano Borba salienta que o ser humano nasce com certa taxa de capacidade de adaptação. Com o uso, essa taxa vai diminuindo. "Se gastamos tudo na infância tentando ser adultos, o que vai sobrar quando, lá adiante, precisarmos e não tivermos mais desse poder de adaptação? Pode sobrar depressão", ela lamenta.


No ano passado, o então presidente Lula assinou um decreto instituindo a Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef), que, entre outras ações, prevê a adoção da matéria por escolas públicas no Brasil todo. Cerca de 400 colégios públicos em cinco Estados já estão nessa, por enquanto só no ensino médio. "Mas eu sonho com o dia em que a educação financeira chegará também ao ensino fundamental", segreda o administrador de empresas Álvaro Modernell, que atuou como colaborador do grupo de apoio pedagógico que formulou a Enef. Funcionário de carreira do Banco do Brasil, com 23 anos de serviços prestados, boa parte deles na diretoria de finanças, Modernell se licenciou recentemente para tocar a sua consultoria, a Mais Ativo$. Um expert em educação financeira para todas as idades, ele ministra mais de 90 palestras por ano. É também um best-seller no tema. Seus oito livros que ensinam crianças a fazer reservas e gastar com responsabilidade já venderam mais de 100 mil exemplares. "Não porque sejam maravilhosos, mas é que a demanda por esse tipo de informação é muito grande", ele afirma, com sinceridade. Modernell gosta de dizer que aborda a educação financeira infantil sempre de "maneira humanista", passando valores como amizade, ética e família.


Em O Pé de Meia Mágico, por exemplo, ele conta a história de dois irmãos gêmeos que "eram muito felizes, mas cada um a sua maneira". Marino vivia imaginando o que seria quando crescesse. Mariano só queria aproveitar o dia. Na página 4, ficamos sabendo que Marino tinha muitos e cada vez mais bonitos navios de brinquedo. Mariano, que provavelmente não faz ideia do que seja o quadrante financeiro, "tinha que brincar com qualquer coisa que servisse como barco, até latas velhas". A contracapa do livro informa que ele é indicado a crianças de 3 a 10 anos. Então perguntei a Modernell se, nessa idade, não é bom que a garotada seja capaz de usar a imaginação para transformar latas em navios, tocos de madeira em carrinhos e assim por diante. "É claro que sim. Eu sou gaúcho e na meninice fantasiava que os ossos do churrasco eram meus boizinhos. Só que isso aí é um livro infantil. Você querer se aprofundar demais é viajar na maionese."


Atolado em maionese, voltei a Julio Groppa Aquino, que recomendou: "Valeria a pena nos questionarmos por que queremos transformar os filhos num investimento. No caso da emblemática educação financeira, espero que os pais que tanto se esforçam em garantir uma formação desse tipo para seus filhos recebam, no futuro, o troco que merecem. Seus filhos talvez os tomem, quando velhos, como um investimento sem rentabilidade alguma". 


Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,escola-dinheiro-e-maionese,777229,0.htm

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