quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Diga-me com quem andas, que direi quem és


Por Patrícia Bértoli Dutra

Esse ditado popular da nossa língua é comumente usado para se referir às qualidades (ou defeitos) das amizades de uma pessoa, isto é, se seus amigos são boas pessoas, você provavelmente também será.

Todavia, ele também pode ser facilmente transportado para o ambiente linguístico, não porque algumas palavras terão melhores ou piores qualidades que outras (isso não está em questão), mas porque o léxico se combina de forma específica e padronizada, ou seja, algumas palavras andam “bem” juntas enquanto outras não. Por exemplo, quando vemos o adjetivo “esbugalhados”, logo pensamos em “olhos”.

Vou usar o buscador do Google Brasil como fonte de referência aqui pois ele nos apresenta a quantidade de vezes que uma palavra (ou várias juntas) aparece em seus arquivos e, além disso, contém representações de quase todo o tipo de enunciado de nossa língua, como transcrições de livros inteiros, trabalhos acadêmicos, jornais, revistas e falas.

Uma rápida busca no Google por “olhos esbugalhados” nos retorna 104 mil ocorrências, ou seja, além de ser uma combinação fixa é de altíssima frequência no português. Isso não que dizer que “esbugalhados” não combine com outra palavra - há cabelos esbugalhados -, mas significa que reconhecemos relevância da combinação “esbugalhados” e “olhos”.

Esse pequeno exemplo serve de ilustração para o fato de que nossa língua, assim como todas as outras, não é formada por palavras isoladas, mas por palavras que têm comportamento de associação padronizado, palavras que se colocam mais frequentemente antes ou depois de outras.

Temos expressões nitidamente comuns, como “café com leite” que aparece mais de 2 milhões de vezes no Google ou o título deste texto, cujas 10 palavras juntas aparecem mais de 6 mil vezes.

Preciso ressaltar que quanto maior o número de palavras associadas menor a frequência. Isso torna a língua, de certa forma, mais fácil de se aprender, pois podemos incorporar ao nosso conhecimento expressões formadas por duas, três ou mais palavras ao invés de tentarmos aprender apenas os significados isolados de cada palavra, os quais podem variar muito. “Get”, por exemplo, apresenta mais de 30 significados diferentes no dicionário Webster, entre eles: ficar; pegar; conseguir; obter; ganhar; atingir; entender. Já a observação de expressões fixas compostas por “get” mostra-nos que esses significados se alteram de acordo com as palavras com as quais se combina. Por exemplo: “get ready” - ficar pronto; “get the book” - pegar o livro; “he got what he deserved” - ele conseguiu/obteve o que merecia; “I got what he said” - entendi o que ele disse. Isso sem contar expressões idiomáticas como “get back” - voltar; “get in” - entrar; “get up” - levantar, e assim por diante.

O valor de se aprender as combinações mais frequentes e mais prováveis das palavras tem aumentado muito no ensino de língua estrangeira, especialmente no ensino de inglês.

Ter certeza de que uma palavra pode ser usada junto a outra e que isso ocorre com naturalidade na língua traz segurança, confiança para usá-la e ser entendido sem correr o risco de se estar falando absurdos como este que li uma vez: “Yesterday I paved my shoes”, a pessoa quis dizer “ontem, eu calcei os sapatos”, mas usou o verbo “to pavê” que significa calçar, quando associado a estrada, rua (pavimentar); enquanto deveria ter usado “put on" - colocar, vestir, calçar. Da forma como foi escrito, imaginei gangsteres pavimentando sapatos das pessoas que afogavam nos rios.

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