quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Amizade por correspondência


Por Sérgio Teixeira

Os alunos da escola rural Professor Fernando Gomes de Castro, em Araçatuba, estavam brincando no pátio antes da aula começar. Próximo deles, o galo Mazzaropi caminhava perto da cozinha. Numa das salas da escola, os professores separavam os livros que iriam levar para os estudantes. Esse poderia ser um dia normal na unidade de ensino, mas algo estava diferente. As crianças esperavam ansiosas pela visita de um grupo de amigos da cidade. Eles nunca se viram pessoalmente, mas se conheciam por cartas.

Tudo começou no início deste semestre, quando as professoras Carlinda Alves de Oliveira, que dá aulas na 4ª série da escola municipal rural, e Nacir Souza Longue, do 3° ano da escola municipal Professora Maria Adelaide Camargo Cardoso, no bairro Antônio Pagan, incentivaram os 37 alunos das duas turmas a trocarem cartas entre eles. As correspondências ajudaram as crianças a descobrirem como é a vida umas das outras. Alguns alunos chegaram até a compartilhar segredos.


O último dia 2 foi a data escolhida para as crianças se conhecerem pessoalmente. O encontro foi marcado na escola rural, que fica no bairro Água Limpa. Clara Beatriz Vieira Galhardo, 10 anos, estava com muitas expectativas. Ela trocou cartas com Bruno de Lucca Machado, 7, e já tinha alguns palpites de como o garoto seria. “Acho que ele é divertido.”

Clara segurou a carta enviada pelo amigo o tempo todo. Enquanto o aguardava, ela fazia planos para a visita. “Vou me apresentar e chamar ele para conhecer os meus colegas. Acho que ele vai estranhar um pouco o local porque aqui tem pouco movimento de veículos, o ar é mais fresquinho e tem mais árvores.”

Já Yago Matheus Martiliano Freitas, 11, trocou correspondência com Ana Beatriz Boni Pereira de Jesus, 9. Foi a primeira vez que ele escreveu uma carta. “A Ana já sabe um pouco sobre a minha vida. Contei para ela o nome do meu cachorro, do meu gato, do meu papagaio e do meu coelho.”

CHEGADA
Quando o ônibus que transportava os estudantes da zona urbana estacionou em frente à escola do bairro Água Limpa, os alunos da zona rural já estavam a postos para recebê-los. Cada criança que subia as escadas foi recebida por outra com um abraço.
Após se conhecerem pessoalmente, as crianças da cidade começaram a entender um pouco mais sobre a vida no campo. Uma cesta com produtos da fazenda foi cuidadosamente preparada, com sementes, frutos e produtos típicos da região. Depois, todos participaram de um piquenique num pesque-pague.

APROVADO
Ana Beatriz conversou bastante com Yago. Segundo ela, tudo que foi escrito nas cartas acabou se confirmando na vida real. Ela aprovou o passeio, achou o garoto muito educado e disse que pretende continuar trocando correspondências com o amigo da zona rural.
Bruno, agora já amigo de Clara também na vida real, diz que a menina com quem trocou correspondências é muito inteligente e simpática. “Ela me contou um segredo na carta e pediu para eu não contar para ninguém”, diz o menino, que não revelou mesmo.


Escrever de punho deixa o vocabulário mais rico

A professora Carlinda Alves de Oliveira explica que escrever cartas ajuda a melhorar o vocabulário. Para que o destinatário (quem recebe a carta) possa entender o conteúdo da correspondência, é preciso que o remetente (quem manda a carta) tome muito cuidado para escrever as palavras de maneira correta. Sempre
quando aparecia alguma dúvida, as crianças faziam consultas ao dicionário.

“Outro motivo que nos levou a trabalhar esse assunto é que hoje em dia quase ninguém escreve mais cartas, pois preferem o telefone e a internet”, disse Carlinda.

Já a professora Nacir Souza Longue aposta que a amizade entre os estudantes vai continuar. “Nas próximas cartas, eles vão descrever como foi conhecer o meio rural e a experiência deste contato. Como educação é vida, esta troca é maravilhosa.”

CURIOSIDADES
Os alunos da cidade perceberam muitas diferenças na escola rural. A principal delas é que o homem e a natureza estão mais próximos. Isso foi constatado já na viagem de ônibus. Quanto mais se afastavam do espaço urbano, maior era o número de árvores e animais que eles viam na estrada.

Uma das surpresas das crianças visitantes foi encontrar na escola rural um galo de estimação, que se chama Mazzaropi e tem um jeito diferente de andar e é bastante simpático. Segundo a cozinheira da escola, Luciana Vieira Galhardo, 38, a ave foi doada para servir como uma prenda de quermesse. Mas ninguém teve coragem de mandá-lo para a panela, e ela acabou adotando o bicho. “Ele vive na minha cozinha. Parece até gente”, conta a mulher.

Outra descoberta feita pelos alunos foi sobre os alimentos: boa parte vem justamente dos sítios e chácaras, como a banana, o café, o tamarindo e outros produtos.

Apesar de morar em locais diferentes, a visita mostrou que as crianças são parecidas, pois valorizam uma boa amizade, independentemente das diferenças de cotidiano. E pensar que tudo isso aconteceu porque eles decidiram mandar uma carta!

E você, conhece algum amigo ou parente que gosta de escrever cartas? Então, prepare o lápis e o papel e escreva para ele. Você poderá fazer uma série de descobertas.


Um comentário:

  1. Belíssima iniciativa desse grupo de professoras! Quando adolescente, eu também fazia intercâmbio de correspondências com pessoas do mundo inteiro. Há algumas delas com as quais mantenho contato até hoje, depois de mais de 20 anos.
    É verdade que a escrita de próprio punho enriquece o vocabulário. Mas também a leitura de jornais e livros também contribui de maneira decisiva para que tenhamos jovens mais cultos e comprometidos com o mundo em que vivemos.
    Parabéns às professoras e às crianças!

    Prof.Dr. Nilton Pereira Pinto
    Madrid, Espanha

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