quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sonhos loucos

Por Anizio Canola

Um telefone que não toca.
Um abraço que não vem.
A carta esperada que não chega nunca.
Um beijo com mel que fica só no querer.
A saudade aumentando mais e mais.

Angústia que consome a alma.
Uma vontade louca de adequar a realidade aos sonhos róseos, num estalar de dedos. O pôr do sol tingido de melancolia. Uma nuvem de lágrimas... Inevitável o retorno à Praça dos Sonhos Dourados. Onde procuro ansioso o carro dela, cujas placas têm o prefixo ALI, letras de seu nome. Debalde... Mesmo assim teimo na busca vã. Sento-me no banco que já nos acomodou nos momentos felizes. Meu coração quer explodir. Ah, Aline...


No mosaico do jardim, uma risonha menina brinca bem à minha frente. O mesmo jeito que minha querida tinha na infância: meiga, cabelos pretos compridos, uns seis anos. Munida de um canudinho de mamoeiro, faz lindas bolhas de sabão com o líquido da canequinha. Doce diversão de criança... Uma bolha escapa. A garotinha tenta dominá-la. Mas logo some no ar. Sinto que esta cena tem algo a ver com o nosso idílio. Recordo-me de uma anotação de Aline: Tudo é possível! Sonhe, pois o sonho sempre persiste. O que muda é a realidade.
Antes, ela exaltava nosso arco-íris. Todavia, sobreveio a dura realidade e o sonho comum se tornou inatingível.

Beatriz Segall afirmou, numa telenovela: Os nossos sonhos nem sempre coincidem com a realidade.
De fato. Quando paixão e razão se desequilibram, a barra pesa demais. Advém a ânsia de sonhar de novo. Iludir-se que nada mudou. Porém nenhum sonho é infindo. A gente sempre acorda para a crueza da vida. Amores impossíveis geram sonhos loucos. Inconsistentes. Cativantes, mas tão efêmeros quanto as bolhas de sabão... Li num jornal: “Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas, sonho que se sonha junto é realidade”.

Contudo, como segurar uma paixão trepidante ainda que oriunda de uma pura ligação afetiva? Valerá mesmo a pena acumular tanta ternura, sem possibilidade de poder consumi-la com a mulher de minha vida? As convenções nem sempre valorizam as razões do coração. Tornando os obstáculos incontornáveis.
A garotinha da praça admira uma bolha de sabão com alguma cor. Que, trazida pela brisa, desmancha-se no meu ombro. Ela sorri.

No meu enlevo, imagino ouvir a dupla Maurício e Mauri:
- Olha o nosso amor valeu, quando a gente fez, a primeira vez. Foi lindo como aconteceu. Desejo de verdade. Prazer sem maldade. Quando dei por mim, estava assim, preso no seu laço. Me perdi de amor. Eu senti você nua em meus braços. Não consigo esquecer essa emoção. De uma vez vem me entregar seu coração. Da paixão não sei fugir. Meu amor, vê se não some. Te fiz mulher para ser sempre o seu homem...”.
Um dia ainda brinquei com ela: Aline, vê-se não some! Parecia confiante, ao responder:
- Não vou sumir, não...
Mas...
Agora uma bolha cai entre as flores. A criança consegue se contentar com algo tão simples. Os adultos são complicados demais. Por que insistir num amor impossível, se a realidade atroz prevalecerá?
Acabou a brincadeira.
A garota pega a caneca vazia e o canudo. E a ilusão.
Antes que se afaste, pergunto-lhe: Menina, como é o teu nome?
- Aline...

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