sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Para entender o Amazonas

Por Maria Antonia Dario

Manaus é uma das 12 sedes da Copa do Mundo de 2014. E a impressão que tenho, como recém-eventual-moradora da cidade, é que seus problemas foram negligenciados até aqui. Faltou força ou vontade aos poderes públicos para corrigir rotas na saúde, no trânsito, no saneamento básico, na educação, na iluminação, em segurança e no transporte públicos... O meio ambiente? Esse toma peia (surra) todos os dias. Agora, com menos de 36 meses para o pontapé inicial da Copa, quiçá lá no Itaquerão, as autoridades apressam-se em tentar mudar o cenário cotidiano de desrespeito às leis, inclusive as naturais. E pior: precisam aprender a fazer isso também.


Metrópole de 1,8 milhão de habitantes, Manaus cresceu desordenadamente entre grandes invasões e condomínios, que abocanham porções generosas de mata na área urbana, no seu entorno e ao longo das rodovias que ligam a capital a outras cidades. Se há uma coisa que a maioria nem titubeia, é derrubar mata. Mais de 90% do esgoto é despejado diretamente nos igarapés que a cortam, in natura. A especulação imobiliária voa alto. Certamente não falta dinheiro a esta cidade. Grandes obras como a do estádio Vivaldo Lima (futura Arena da Amazônia) vão de vento em popa.

A recuperação do Mercado Adolpho Lisboa, na zona portuária e centro da cidade, vai muito bem obrigada e é mais do que necessária. Essa é uma área linda para visitar, mas que precisa de uma urgente e controversa solução sobre o que fazer com os milhares de camelôs que ocupam a maioria das ruas e calçadas. Na verdade, um festival de falta de higiene, de invasão do espaço público e de pirataria, puxado pelos manjados CDs e DVDs. Aliás, esses estão em todos os lugares de Manaus. Inclusive nos terminais municipais de ônibus, ao longo das grandes avenidas, portas de shopping, de igreja e de restaurante. Há também vendedores ambulantes dessa muamba toda, que ofertam os lançamentos de mesa em mesa em muitas bem frequentadas lanchonetes. Só não compra quem não quer.

Direitos individuais, preservação ambiental na área urbana, mobilidade e acessibilidade precisam quase começar do zero. Quem pensa que o Amazonas fica numa planície, engana-se. Manaus cresceu subindo e descendo morros e fazendo suas calçadas (quando há) com degraus quase intransponíveis até para quem não tem qualquer dificuldade de locomoção. Sem falar nas bocas de lobo sem tampa e ruas mal-iluminadas.

O turista que se contenta com os passeios oficiais pouco vê dessa cidade, embora vá ver construções imponentes como o Teatro Amazonas, o palácio Rio Negro, o largo São Sebastião, o Palacete Provincial, o Palácio da Justiça e outras tantas construções centenárias, como a Ponte de Ferro, trazida desmontada da Europa, e o prédio da Alfândega. Entre as belezas naturais, o encontro das águas dos rios Negro e Solimões (hoje ameaçado pelo projeto do governo estadual de construir ali um porto - o das Lages -, que comprometeria todo o bioma do local e acabaria com esse ponto turístico) e os passeios por igapós e praias naturais tanto em Manaus quanto em cidades próximas, como Novo Airão, Silves e Presidente Figueiredo - a terra das cachoeiras e cavernas. Ver o nascer e o pôr-do-sol de qualquer ponto do rio Negro, acredite, é experiência única. Observar (e ouvir) estrelas e pássaros tendo a companhia da floresta é algo difícil de descrever. Só (vi)vendo. Apesar das dificuldades, apenas tais poucos pontos turísticos já garantem um passeio inesquecível ao turista.

Mas Manaus (e a Amazônia) parece seguir um modelo de crescimento cruel, como um espelho do restante “desenvolvido” do País, que visa o lucro, mesmo que a água fique suja, que o ar seja contaminado e que as matas - com toda a diversidade de fauna e flora - sejam impiedosamente dilaceradas. Salvo fragmentos da floresta (quatro deles em parques estaduais e municipais), a arborização das ruas e avenidas inexiste. Um contrassenso numa terra farta de sol e de temperaturas altas o ano todo. Na prática, esse pedaço de Brasil desconhece o inverno, com o frio tradicional de outras regiões.

Enfim, quando se vem para Manaus é que fica possível perceber que a derrubada da floresta é apenas uma consequência da falta de educação ambiental, senso de preservação da própria vida e ganância desmedida. Também, talvez até responda por todas as mazelas e os grandes fossos econômicos e sociais que subdividem essa terra. E o brasileiro do sul e do sudeste, que ainda nem descobriu o Amazonas, acha que o principal problema é a quantidade de mata derrubada.

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