quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Os metais de Osni Branco

Por Talita Rustichelli

Ele nasceu em Araçatuba, em 1947. "Na Santa Casa, quarto 25", como fez questão de dizer. Ficou aqui até os 20 anos de idade, quando mudou-se para São Paulo com a família. Hoje o artista plástico Osni Branco, que tem obras espalhadas pelo mundo todo e mora em Itapecerica da Serra (SP), retorna à sua cidade natal para relembrar suas raízes e na tentativa de realizar um desejo antigo: desenvolver um projeto artístico no município onde nasceu e onde ainda tem laços.

O artista chegou na tarde de ontem, quando se reuniria com possíveis interessados em suas propostas, e deve ficar cerca de uma semana. "Há muito tempo tenho vontade de fazer alguma exposição ou oficina em Araçatuba. Estive aqui pela última vez há muito tempo, para expor minhas obras. Agora venho para rever amigos e os lugares onde vivi, e quero aproveitar para tentar uma forma de viabilizar algum projeto artístico no município", afirma Branco, que não visitava a cidade havia mais de 15 anos.


Ele veio acompanhado da filha mais nova, Yasmin de Liz Branco, de 24 anos, que, influenciada pelo pai, também atua no campo das artes. A jovem estudante do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, além de auxiliar o pai nas oficinas que ele realiza, trabalha com fotografia e vai realizar em Araçatuba um trabalho de resgate histórico de sua família por meio do registro de imagens.

CARACTERÍSTICAS
Branco trabalha principalmente com esculturas em alumínio, utilizando ainda outros materiais, como bronze, cerâmica e rochas. Segundo ele, uma das características fundamentais de sua obra é a preocupação com a sustentabilidade, e temas como a natureza são frequentes em seus trabalhos.

"Meu foco está no ser humano e na sustentabilidade do planeta; além disso, ultimamente tenho trabalhado mais com o alumínio, que é um material que pode ser reciclado eternamente, sem que ele perca suas características", explica o artista, cuja mais recente exposição teve como tema as árvores.

INCLUSÃO
Branco conta que desenvolve um projeto de inclusão social chamado "Encontro de Arte", com jovens financeiramente menos favorecidos de sua cidade e região.

A sustentabilidade também é o foco das oficinas teóricas e práticas que ele realiza. "Acredito que a arte tem o papel de passar uma mensagem de conscientização. Além disso, este projeto tem como proposta proporcionar o conhecimento aliado à sensibilidade, para criar homens mais sensíveis e menos burros, com melhor capacidade de absorver as coisas que estão em torno deles," diz.

O artista afirma que nestas oficinas usa como tema o peixe. "Além de ser relacionado à natureza, é o resgate da dignidade, ou seja, 'não dar o peixe, mas ensinar o jovem a pescar'. É um repasse de conhecimento", explica. O projeto "Encontro de Arte" começou no Japão, em 1995, onde Branco morou durante 20 anos, e teve continuidade no Brasil, quando retornou definitivamente, em 2004.

PROJETOS
Além de produzir esculturas particulares para seus clientes, Osni Branco está envolvido em outros projetos. "Vou apresentar o trabalho desses jovens alunos da oficina na Feira Latino-americana de Fundição, onde terei um estande e apresentaremos fundição ao vivo", afirma. A feira acontece de 4 a 7 de outubro, em São Paulo.

Ele se prepara ainda para uma mostra de seu trabalho em um estande em outra feira, a Expô Alumínio, que acontece no início de 2012, no mês de abril, também em São Paulo.


Autodidata, artista plástico fez a sua primeira escultura profissional aos 25 anos
Osni Branco afirma que fez sua primeira escultura como profissional aos 25 anos. "Não tenho formação acadêmica, sou autodidata. Porém, posteriormente fiz cursos no Japão, EUA etc. Desenvolvi minha técnica e depois, interessado na produção de escultura fundida, fui buscar informações para realizar este tipo de arte", diz.

Segundo ele, a escultura fundida requer conhecimentos diversos, desde tecnologia até engenharia e química em seu processo de produção.

"Este tipo de escultura tem uma parte que é criativa, mas tem uma parte que envolve tecnologia e trabalho operário, afirma Branco. “É a arte do fogo, da temperatura, é necessário fundir o metal, vazar no molde para transformar na peça desejada", completa.

MONUMENTOS
De acordo com o artista, para peças maiores, por exemplo, são necessários conhecimentos de cálculo de resistência, precisão de encaixe e química para evitar oxidação. Ele afirma que sua maior obra está instalada na Unicamp (Universidade de Campinas), e mede 5 m por 8 m. "É uma composição de ondas do mar", diz.

Questionado sobre o tempo que leva para finalizar uma peça, Branco afirma que algumas, dependendo do tamanho e da complexidade, podem levar anos. "Faço obras de diversos tamanhos. Os monumentos, esculturas grandes, são feitos em faz em pedaços, que depois são montados e soldados no local onde ficarão", explica. Cada obra pode custar entre R$ 1 mil e R$ 100 mil.

OBRAS
Além do Japão, Branco tem obras e realizou exposições em vários países. Estados Unidos, França, Itália, Coreia, Suíça e Paraguai estão entre os países que compõem a rota de seu trabalho. Em Araçatuba, ele afirma que existem algumas obras, mas não se recorda corretamente quem são os proprietários, por terem sido adquiridas em 1994, quando esteve na cidade.

Movimento cultural reforça identidade brasileira no ‘País do Sol Nascente’
Osni Branco foi morar no Japão pela primeira vez em 1972, movido por um sonho de criança. Sua mãe alfabetizava crianças japonesas recém-chegadas ao país e como ele descreve, sua casa estava sempre cheia de japoneses. Esse contato constante fez com que ele desenvolvesse uma grande admiração pelo Japão.

Em 1975, retornou ao Brasil, e depois, em 1990, voltou ao Japão, onde residiu por cerca de 20 anos. Em 2004 retornou definitivamente para o Brasil com a família. "Eu sentia falta do sol, dos amigos, do espaço. O ser humano tem a necessidade de estar em contato com suas raízes. Por mais que se tenha sucesso no exterior, sempre falta algo. Lá, minha arte era muito valorizada, mas eu estou em um bom momento aqui no Brasil", conclui.

"No Japão, eu atendia jovens brasileiros que trabalhavam nas fábricas japonesas. Era um movimento cultural, ou seja, tinha a proposta de reforçar a identidade cultural brasileira, além de dar a oportunidade para que estes jovens pudessem fazer um investimento em si através da arte", afirma. Segundo Branco, a comunidade brasileira que vivia no país sofria vários problemas, entre eles a exclusão por conta da língua e por serem estrangeiros. "Como cidadão, eu decidi abrir minha oficina e convidá-los para participarem das atividades de arte", complementa.

O artista se mostra satisfeito com os resultados obtidos. "O projeto começou com 12 pessoas e depois de um ano havia mais de 100 participantes. Fizemos 15 exposições, ganhamos um espaço positivo na mídia, que antes só falava mal do jovem brasileiro", conclui.

INÍCIO
O movimento iniciou suas atividades em Nagoya, província de Aichi, no Japão, em 1995. Posteriormente, oficinas foram sendo realizadas durante cerca de 10 anos consecutivos, nas cidades de Hamamatsu, Toyohashi, Toyokawa, Yokohama, Tóquio, Oizumi. As oficinas, nas quais eram desenvolvidas obras nos segmentos da escultura, joia, cerâmica, pintura e fotografia, eram ministradas em língua portuguesa, mas abertas a todos os interessados em arte e cultura.

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