sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O Twitter e a reflexão linguística na sala de aula de português

Por Bruno Rodrigues

Esta postagem tem por objetivo "andar" por um dos pontos importantes da gramática do português culto e popular (não gosto dessa terminologia, mas a maioria conhece assim): o plural. Muito se falou sobre ele; não foi difícil ver e ouvir isso nos noticiários dos últimos sete dias quando, em matéria sobre o livro didático de português do MEC, o portal IG afirmava que a autora do livro ensinava português errado para os alunos.

O que mais se mostrou foi a frase "Os livro...". O que menos ficou claro para o público leigo: a construção "Os livro..." é uma possibilidade da língua. Ao dizer 'possibilidade', afirma-se que ela é uma opção dentre outras - no caso, teríamos a outra opção: "Os livroS...".


E é justamente isso que o livro explica: há duas formas, dois registros, duas opções, duas possibilidades... Cabe ao usuário da língua (aluno, professor, médico, servente, servidor público, advogado, ministro etc.) escolher a forma que ache mais adequada à situação, ou seja, que satisfaça as necessidades tanto dele quanto de seu interlocutor. Isso, justamente!

Precisamos entender que em alguns momentos, por mais que estejamos num contexto informal, nosso interlocutor prefira usar um registro mais formal (a norma culta), então ele irá esperar de você um registro formal também. Obviamente, fica a seu critério escolher a norma culta ou popular, entretanto, é a sua flexibilidade em se adaptar que fará de você um falante competente, linguisticamente falando.

A grande sacada da competência linguística não está em você ser usuário da norma culta o tempo todo, mas em saber usá-la no momento em que você identificar como sendo adequado. Saber se adaptar é que fará de você um usuário competente. Por isso é dever da escola fazer você refletir sobre a sua língua; é dever da escola fazer o usurário da língua o mais competente possível, tanto na fala quanto na escrita.

O aluno deve refletir sobre os aspectos sociais e políticos envolvidos para que possa entender que nem sempre quando temos uma polêmica sobre língua o que está em jogo é a língua (fácil perceber isso nos discursos de alguns colunistas nos portais de política mais acessados da internet). 


Um esboço de aula trabalhando plural
Bem, e como trabalhar a "marca de plural" (ou indicadores de plural) na sala de aula? De um modo bem simples e ojetivo: mostrando exemplos de situações reais de uso da língua! Os professores têm que aproveitar o que a internet proporciona. Para ilustrar, vou usar um texto do Twitter (ótimo para se trabalhar a língua, até mesmo porque a capacidade é de apenas 140 caracteres, então é mais dinâmico de trabalhar em sala, não cansa os alunos; dá uma "variada" na aula, deixa de trabalhar um pouco aqueles textos enormes):

Este exemplo é perfeito porque possibilita trabalhar o conceito de certo e errado, tanto na perspectiva da Gramática Normativa quanto da Linguística. Mas, primeiramente, o professor poderia conversar com os alunos sobre a "marca de plural", ou seja, poderia fazer com que os alunos refletissem:
  •  O texto contém muitas palavras no plural?
  •   Que outros tipos de plural vocês conseguem recordar?
  •   Em que situações vocês acham que a construção "as revista" acontece com maior frequência?
  •   Qual a regra para o "desaparecimento" dessa marca? (o aluno não percebe que a norma não-padrão [ou popular] tem suas regras também)
  •   Em algum trecho do texto é possível identificar que o autor não seguiu a regra?
  •   Por que vocês acham que ele não seguiu a regra? (única e provável explicação: o autor nunca percebeu que para esse tipo de construção há uma regra - fazer o aluno perceber que o autor do tweet quis "brincar" com o uso informal da língua mas acabou "errando" é fundamental para que passe a criar um senso crítico a respeito do uso que outros fazem da língua em diferentes situações e para diferentes propósitos).
Bem, esse é um pequeno esboço do que poderia ser uma aula de português em que o professor tivesse que trabalhar o plural. Nem é preciso dizer que o autor do tweet errou feio ao querer brincar com a polêmica do livro didático do MEC; com certeza, nos tempos de escola, gazeou muita aula de português. Por isso é tão importante a reflexão linguística em sala de aula; é preciso entender e estudar a LÍNGUA, não somente a Gramática. Depois da aula, o professor poderia pedir aos alunos que tuitassem a frase seguindo as regras da variante popular da língua (tuitar para o autor da frase, claro! [risos]).

O professor poderia pedir para os alunos que criassem um blog com o objetivo de sempre postarem as coisas da turma, as novas descobertas, as brincadeiras etc. Os alunos poderiam tuitar a correção da frase para o autor do tweet e ainda dizer a ele que visitasse o blog para entender o porquê de terem corrigido. Lá, o autor teria (mais ou menos) estas informações:

"a pessoaS tá comprando dois real de pães e vendendo um pães por um reais"
1. ninguém diz: "a pessoaS", porque isso não existe na língua portuguesa. O que poderia existir é "aS pessoa". Portanto, "a pessoaS" se caracteriza como erro;
2. ninguém diz "um pães"; a regra é clara: só os artigos recebem a marca de plural; poderia acontecer de ouvirmos a construção "dois pão", mas "um pães" não existe, portanto, está errado;
3. ninguém diz "um reais"; o que seria normal de vermos: "dois real". Aí sim! Existe.
4. é muito difícil acreditar que alguém diz "dois real de pães"; muito provavelmente quem diz "dois real" não vai marcar o plural de pão > pães. 

Depois de terem corrigido o texto de acordo com as regras da variante popular da língua, os alunos poderiam corrigir o texto, agora, de acordo com a Gramática Normativa. Ou seja, além de entenderem como a norma não-padrão funciona (porque saber eles já sabem, mas precisam entendê-la!), terão acesso à norma padrão.

A responsabilidade da escola é de fazer com que o aluno se aproprie da norma padrão (culta), mas o processo para que isso aconteça não precisa ser da mesma forma engessada que é a Gramática Normativa. O aprendizado da língua pode ser um momento muito curioso. As descobertas, que podem até parecer banais, farão uma diferença enorme na forma como o aluno passará a ver não somente a língua, mas a sociedade.

Vocês perceberam o que o piadista fracassado escreveu após a frase cheia de erros? "MEC só pode estar de sacanagem, tentando incentivar a idiotice."

Já imaginou a cara dele quando visse o tweet enviado pelos alunos do fundamental? Ao contrário do que ele pensa, o MEC vai incentivar os alunos a acabar com a idiotice.

Fonte: SITE LINGUAPORTUGUESA.COM.BR

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