quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Ninguém escreve bem?

Por Ester Mian da Cruz

O professor universitário, leitor atento desta e de outras colunas do jornal Folha da Região, Valmi J. da Silva, há algum tempo me perguntou por que, nesta coluna, há tantas críticas à produção de textos feitos pelos jovens ou “pelos simples mortais”. Ele afirmou que a impressão é de que ninguém escreve bem. Excetuando o que há de brincadeira na fala do amigo, há quase um consenso no país de que o brasileiro não sabe português e nem tampouco expressar-se por escrito.

Aproveito a oportunidade para esclarecer alguns conceitos que são levados em conta, quando da análise de textos escritos ou falados, ou seja, quais critérios de correção um professor utiliza diante das produções escolares. Antes, é preciso esclarecer que os artigos, às quintas-feiras, são mais críticos porque, nesse dia da semana, a coluna se destina a discutir língua e literatura a partir de perspectivas teóricas, baseadas em pesquisas.

Ao analisar uma produção textual, o receptor deve apropriar-se de três perspectivas: a da qualidade da interação discursiva que o texto promove, a do nível de textualidade que possui e a da utilização dos padrões linguísticos adequados.

Apropriar-se da primeira perspectiva consiste em observar se o texto responde às seguintes questões: O objetivo e o interlocutor foram atingidos? O tema suscita, realmente, um processo de interlocução, de interação? A variedade linguística e os registros utilizados são adequados à situação de interlocução?

Observar um texto sob a perspectiva do nível de textualidade que apresenta, segundo Maria da Graça Costa Val, estudiosa da Linguística Textual, deve ser considerar que texto é uma unidade linguística básica, uma ocorrência falada ou escrita, dotada de unidade sociocomunicativa, formal e semântica. Deve ser entendê-lo como uma unidade de linguagem em uso, cumprindo uma função identificável num dado jogo de atuação comunicativa, o que significa que a análise de uma comunicação não pode deixar de lado as intenções do produtor, o jogo mental que cada um dos interlocutores faz de si e do outro, o contexto social e cultural de sua produção, assim como a utilização adequada dos elementos semânticos (coerência) e formais (coesão). Isso significa também que, na sua produção ou recepção, há sempre fatores internos e externos que devem ser levados em conta, tanto por quem o produz, como por quem o recebe.

Uma terceira perspectiva - que deve ser considerada juntamente com as outras - é a da utilização, no texto, dos padrões linguísticos e gramaticais adequados à comunicação escrita, aspecto que é fundamental para confirmar a qualidade de um texto. Não há dúvida alguma de que o uso equivocado dos padrões normativos da língua prejudica a comunicação e causa estranheza no leitor.

Por fim, se um texto revelar a presença desses elementos acima citados, independentemente do grau e das condições em que apareçam, poderemos dizer que a produção é de qualidade.

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