sexta-feira, 5 de agosto de 2011

A legitimidade do erro


Por Hamilton Werneck

A língua portuguesa ganha ocasional destaque na mídia; foi o que aconteceu em maio de 2011. Por causa do livro Por uma Vida Melhor, da coleção "Viver, aprender", distribuída pelo Programa Nacional do Livro Didático do MEC, criou-se uma polêmica sobre até que ponto se deve ensinar a linguagem coloquial em sala de aula, o que deve constar nos livros didáticos.

E essa discussão foi levada para campos bastante pisados pelos que trabalham com a linguagem. O que é erro? A forma oral da língua, usada de fato pela população, não é mais relevante que a versão formal? O fato de alguns falarem de forma mais formal invalida os informais, ou ao contrário?

Aqui, agora, não pretendemos apresentar respostas. Convidamos alguns colaboradores a falar sobre o assunto e seus temas relacionados, começando por um texto da coordenadora da Ação Educativa, entidade responsável pela face didática da produção do livro, e finalizando com uma sugestão de uso do tema em sala de aula.


Quando Roland Barthes assumiu a cadeira de linguística na Universidade da Sorbonne, em Paris, proferiu um discurso onde ficaram famosas algumas expressões: “Nós não tomamos a Sorbonne na primavera de 1968 para assumir o poder, mas para derrubar o poder... e, ainda – a língua é mais dominante pelo que nos obriga a dizer”.

A norma culta da língua, de fato, obriga o professor a dizer de modo coerente com a gramática, embora compreenda uma série de interferências que podem estar relacionadas na fala de regiões de fronteira, nas cidades onde estão reunidos muitos colonos vindos de países diferentes. No Rio Grande do Sul, por exemplo, numa distância de 20 quilômetros, entre Cerro Largo e Guarani das Missões, um professor que trabalhe nas duas cidades conviverá com a cultura alemã em Cerro e com a cultura polonesa em Guarani. Isso exigirá dele uma adaptação rápida, por vezes no mesmo dia, abordando estratégias diferentes para ensinar e corrigir distorções, cuja origem é bem conhecida.

Cabe a esse professor e a todos quantos lecionarem pelo Brasil entender as diferenças, oxigenar a mente para lidar com as inúmeras variedades, compreender os erros e corrigi-los, sem humilhar os estudantes.
O cuidado ao lidar com essas pessoas que têm saberes e produzem cultura, embora se expressem de modo pouco familiarizado com a gramática de nossa língua, deve ser estimulado. Não há justificativa para transformar a linguagem popular em chacota e risos porque seria um desrespeito às pessoas que não tiveram oportunidades para aprender bem.

Porém, quando admito que se deve conviver com o erro sem corrigi-lo, admito também que estou privando esse carente linguístico de aprender o que é correto e de ter oportunidade de melhorar de vida.
De que adianta propalarmos que mais um ano de escola aumenta, em média, 15% o valor do salário de uma pessoa se a prática do ensino e o ato de aprender está vinculado a uma perversa pedagogia que “faz o pobre continuar pobre”.

Uma das melhores estratégias para estar um professor mais próximo de seus alunos é, exatamente, a linguagem coloquial que usa. Se ele for compreendido, todos terão possibilidade de aprender.
Pois é nesse ponto que alguns confundem aproximação com o uso da linguagem coloquial dos próprios alunos, muitas vezes retratando os erros de várias origens e as palavras que podem significar termos socialmente desaconselhados. Refiro-me diretamente aos “palavrões”.

Um aluno fala palavrões com mais frequência na linguagem coloquial e, os professores, quando em reunião com colegas, fazem a mesma coisa. A diferença está quando dois grupos diferentes se encontram, sendo um educador e, o outro, educando.

Por mais próximo que se torne um professor, ele precisa perceber que continua sendo uma referência para seus alunos, apresenta um parâmetro que servirá de medida para comparações. Os alunos, diante de um professor, não querem um igual para conviver com eles, querem um amigo que reflita experiência, apoio e segurança. Iguais eles já têm em sala de aula e nos recreios ou nas ruas.
Torna-se também evidente que o professor precisa explicar aos alunos, diante de palavrões ouvidos, o seu significado linguístico. Os palavrões fazem parte de um vocabulário mais antigo, ligado a outras sociedades ou mesmo próximos das raízes das línguas.

Quando um professor, para tornar-se mais popular e mais próximo de seus alunos, usa palavrões, esperando aumentar a comunicação, os alunos geralmente analisam essa postura como uma atitude de nivelamento, tiram do professor a “aura” de formador de opinião e de transmissor de valores.

Enquanto a genética estuda o “gene” transmissor dos caracteres hereditários, a memética estuda o “meme” transmissor dos valores sociais e culturais. Quando um professor permite a si mesmo o uso de palavras não aconselhadas no convívio social mais culto ou mais formal a transmissão da cultura, naquele momento, indica um caminho perfeitamente possível de ser trilhado pelos alunos até quando se dirigem ao professor.
Esse costuma ser o primeiro passo para a perda da autoridade e da credibilidade, dois aspectos que não podem, os professores, perder porque compromete a educação.

A linguagem, na visão do professor Vasco Moretto, faz parte dos pilares da competência, seguindo-se como dedução que um professor que não se comunica adequadamente tem mais possibilidades de perder essa necessária competência que, conforme o mesmo autor, é saber lidar com situações complexas.

Lide, portanto, caro professor, diante de situações complexas com a variedade que seu vocabulário permite, aproximando-se das pessoas sem a necessidade de desvios que, aparentemente, garantam a sua popularidade.
O aluno quer vê-lo diferente e próximo; amigo e grávido de saberes; autoridade sem autoritarismos; eloquente sem ser distante; aberto aos debates sem ser conivente com atitudes duvidosas; mão amiga e forte que conduza na direção mais acertada.

Fonte: site linguaportuguesa.com.br.

 



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