quinta-feira, 11 de agosto de 2011

A fórmula da criação literária

Por Talita Rustichelli

De família pobre e sem nenhum estímulo à leitura saiu o escritor, jornalista e professor responsável por biografias de artistas como o poeta e letrista Torquato Neto e o escritor Paulo Leminski. Pegou gosto pela leitura por si mesmo e defende que o melhor caminho para escrever um bom texto é ler bons livros.

O curitibano Toninho Vaz estará pela terceira vez na região de Araçatuba, onde realiza novamente uma atividade por meio do Sesc. Na oficina de criação literária, que acontece neste sábado, das 14h às 17h, o escritor estimula o hábito da leitura como forma de aprimoramento da escrita.

Em entrevista à reportagem do caderno Vida concedida por telefone na terça-feira (9), da casa onde estava hospedado em Curitiba (para a realização do lançamento de seu livro na cidade, que aconteceria no mesmo dia), Toninho falou sobre a atividade que ministrará, seu mais recente lançamento (o livro “Solar da Fossa - Um Território de Liberdade, Impertinências, Ideias e Ousadias”), sobre a biografia do poeta Paulo Leminski (que foi sua estreia) e sobre futuros projetos.

Como será sua atividade? Você utilizará como base o método Paideuma do escritor norte-americano Ezra Pound, exato?
A oficina é sobre texto, para pessoas que desejam aprender a escrever, ou que queiram, no mínimo melhorar sua relação com a escrita. Eu parto do princípio de que a matéria-prima da escrita é a leitura. Então, sugiro a eles bons autores e bons livros. Faço isso utilizando o método de Ezra Pound chamado Paideuma, que aprendi com o Paulo Leminski, e ele aprendeu com Haroldo de Campos, o Augusto de Campos e o Décio Pignattari (seus mestres).

Pound sugere em seu método cerca de 25 autores clássicos, que ele chamava de mestres; os outros, ele chamava de diluidores, pessoas que imitaram os mestres. Mas ele se concentra basicamente nos mestres da literatura, desde os clássicos greco-romanos, passando pela literatura medieval, a literatura francesa mais moderna (inclui o Arthur Rimbaud), e até Walt Whitman, que é um poeta cultuado pelos jovens, tido como o pai da geração beat (grupo de artistas dos EUA). Através disso, eu estimulo os alunos a terem acesso àquilo que é considerado o melhor da literatura universal.

É claro que falando isso numa era de internet, soa quase como uma relíquia; mas é necessário que uma pessoa que queira realmente escrever tenha a ideia de que é preciso fazer muito mais do que isso que trafega na internet. Então eu vou sugerir autores, inclusive modernos, para não parecer que não sou atualizado. Além disso, peço aos participantes que levem seus textos prontos (normalmente uma pessoa que se inscreve neste tipo de oficina já experimentou escrever algumas coisas), pois já na primeira hora da atividade iremos ler e comentar o que eles apresentarem.

Que escritores atuais têm lhe chamado a atenção?
Hoje não existe mais uma “pegada literária”. Existem bons autores e boas histórias, mas nada comparável à exigência de um mestre na literatura. Se você lê um livro como Madame Bovary, do Flaubert, caramba! Eu me lembro do impacto que eu tive ao ler aquilo! Ele trabalhava com as palavras com uma magia ao descrever coisas... é de outro universo. Por isso acho importante conhecer os clássicos. E Saramago, na literatura mais recente, talvez tenha sido um dos poucos escritores que tenha inovado, não no conteúdo, mas na forma. Esse tipo de experimentação me interessa, ele avança na literatura.

Você acaba de lançar um livro sobre o Solar da Fossa, uma pensão que existiu no Rio de Janeiro de 1964 a 1971, onde ficavam hospedados diversos artistas relevantes da cultura pop brasileira, como Tim Maia, Paulo Coelho, Paulinho da Viola, Betty Faria, Guarabyra, Hélio Oiticica, Caetano Veloso, entre outros. O que o levou a resgatar a história do local?
Eu fiz o livro sobre o Solar da Fossa com base em experiências de amigos que moraram lá, como o Paulo Leminski e mais uns três outros. Eu conhecia a fama do Solar da Fossa quando ele ainda existia, e numa viagem ao Rio, em 1970, eu o vi; minha memória é precária em relação a isso, foi uma imagem rápida, mas o suficiente para me marcar até hoje. Mais tarde, quando fui biógrafo do Leminski, eu tive que reproduzir o que se passou com ele ali, assim como quando comecei a escrever a biografia de Torquato Neto, que não chegou a morar lá, mas frequentava muito o lugar (os parceiros dele, Caetano, Gil, Gal etc moravam lá). Então, tive que apurar essas informações. E a essa altura eu já sabia que era uma boa pauta, que renderia um assunto interessante e que o lugar era especial. O livro está sendo muito bem recebido.

Em suas pesquisas e entrevistas para coletar material para o livro, quais as histórias mais interessantes levantadas e publicadas?
Uma é sobre o Paulinho da Viola, com a música “Sinal fechado”. Quando escreveu, ele entrou no quarto dos companheiros para mostrar a letra, que parecia um diálogo, ninguém entendeu o que era aquilo. “Olá, como vai?/ Eu vou indo, e você, tudo bem?”... Dois amigos, o Abel Silva e o Rogério Duarte, não gostaram, disseram “isso aí não dá samba”. Três dias depois, ele voltou com a melodia e imediatamente eles pediram desculpas. Em cinco dias, a música já fazia parte das paradas de sucesso do Solar, e em cinco meses estava nas paradas de sucesso do Brasil inteiro. Outra história é sobre o Guarabyra. Ele estava na final do FIC (Festival Internacional da Canção) com a música “Margarida”, em 1967. Ao sair para defender a música na noite da final do festival, de black-tie, gravata borboleta, pegou um táxi e o motorista o reconheceu. O taxista, ao invés de levá-lo ao Maracanãzinho, onde seria o evento, o arrastou para sua casa, para que a esposa e filhos o conhecessem. O músico preocupado com o horário, e o motorista dizendo “você vai ganhar o festival, não há dúvida”. Então, finalmente, ele o levou ao Maracanãzinho, e ele ganhou o Festival.

Há dez anos você lançava “Paulo Leminski - O bandido que sabia latim”. Hoje, como você vê a repercussão da biografia?
Eu gosto muito do livro. Ele já está na quarta edição e não há mais erros nele. Da primeira para a segunda edição tive de fazer algumas pequenas correções, havia alguns erros não importantes na história, por exemplo, errei o nome do cemitério onde o filho do Leminski foi enterrado. Mas agora já está tudo corrigido, não tenho nada para mudar. E ele é muito bem recebido, sempre vendido, apesar de ser a biografia de um poeta de fora do eixo Rio-São Paulo (como eu, ele era curitibano). Então, é importante que um livro como este já esteja em sua quarta edição. Eu e minha editora consideramos um sucesso editorial.

Qual a participação de Leminski em sua vida? Como ele esteve presente?
A participação dele na minha vida é muito grande. Quando o conheci, eu era um guri tacanho de Curitiba, com uma formação cultural precária, uma educação precária. Eu era filho de uma família pobre, minha família não tinha preocupação com livros, tanto que eu ganhei da minha mãe apenas um livro na vida, e foi o que acendeu o estopim. Através dele eu aprendi o que era leitura, me apeguei a ela de uma forma rápida. E hoje sou um professor. E o que eu posso alegar para os meus alunos, foi o que o Leminski me alegou: se você quer escrever, você tem que ter talento e prazer, sobretudo com tenacidade. E não parar de ler, porque a matéria-prima da escrita é a leitura, é preciso conhecer os vários estilos.

Que projetos tem em andamento atualmente?
Atualmente, estou trabalhando nos lançamentos do livro “Solar da Fossa - Um Território de Liberdade, Impertinências, Ideias e Ousadias", que saiu agora no início de agosto. Estou também preparando material para escrever uma outra biografia, um trabalho grande, que levará pelo menos seis anos para ser finalizado. Mas não vou revelar o assunto, para não perder a pauta para nenhum concorrente!

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