sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Escrever

Por Jorge Napoleão Xavier

“Quero chegar vazio à morte. Em vida, não devo deixar de pedir os perdões necessários, de declamar versos, de escrever livros” (Bruno Toledo, reitor do Unitoledo)

Como, dileto amigo, você dizer que Araçatuba não tem história, claro que tem, ou por acaso você nunca soube que são muitos, muitíssimos, os relatos contando a urbe desde a sua fundação? Ouviu falar de Fabriciano Juncal? De Célio Pinheiro, de Odette Costa? Pois eles e ela, entre outros tantos, descreveram a trajetória e a saga dos que vieram para ficar: empreste de alguém “A verdadeira História de Araçatuba”, de Juncal, 1974, 123 páginas, e “História de Araçatuba”, de Odette e Célio, 1997, 598 páginas, 21 capítulos, 78 fotos históricas. Está tudo lá, registradinho, mexa-se. Desse jeito, dá a impressão que você sequer conhece a história da cidade onde nasceu e donde veio para cá.


Ouviu alguém dissertar a respeito de Bueijhi Saito, modelo de comerciante, 95 anos, em plena atividade na Tabajaras com Bernardino de Campos? Pois não é de hoje que ele dedica seus braços para ajudar na construção da Araçatuba metrópole que é.

O que lhe foi contado sobre Fuad Nasser, pai do publicitário Flávio, da Safra? O vate, produtor do horóscopo do jornal do cunhado Paulo Alcides Jorge, “A Comarca”, sentava-se diariamente ao lado de Ubirajara Lemos (Odorindo Perenha) na redação da Marechal para curtirem os versos e as rimas dos príncipes da poesia, isso ainda existe? Pois o filho de árabes, provocado certa tarde por um pecuarista que reclamou sobre a fragilidade do jornal, afirmando que os de São Paulo eram bem melhores, o que não deixa de ser verdade, simplesmente lascou: “Tudo bem, 'seo' fulano, tudo é relativo e proporcional: o senhor, por exemplo, tem fama de rico aqui, mas lá em São Paulo o senhor é mais um remediado, classe média. No máximo”.

Classe máxima era Natal Drigo: Tião Maia tirou-o do Banco Commercial para trabalhar no frigorífico, braço direito, Coccapieler e Mário Menezes acharam ruim, não teve jeito, foi embora com o mineiro de Passos. No entanto, bem antes, Drigo - no maior sigilo - já distribuía e dividia suas posses com os pobres, levantando meios com que cuidar das crianças carentes, no cumprimento modelar de sua missão espiritual. Natal Drigo é a própria história, amigo.

E as Olgas, as várias Olgas de Araçatuba, não a Benário Prestes, endeusada pela ótica da materialista dialética marxista?

A Olga, jaleco branco, quieta, quase calada e quase surda, aplicando em profundo silêncio a injeção nas nádegas dos meninos e das meninas na farmácia da Oswaldo Cruz, a majestade profissional da liturgia do solene ato, monástico, o marido Optaciano Mendes, alva cabeleira bem penteada, sorriso permanente plantado na face de quem também se sabe benfeitor da humanidade.

A Olga Carli Mitidieri, semissócia do Hotel Terminus, da Olavo Bilac: os viajantes se hospedavam cientes do bom atendimento, da chiqueza e da limpeza do lugar.

A Olga Kubo, óculos escuros, administrando na Princesa Isabel o Foto Kosmos, apoio de ´seo´ Kaname, sumamente educados, a tradição japonesa no servir e no ser útil, estampada no registro dos grandes e felizes momentos nas fotografias branco e preto ou a cores das famílias.

A sobriedade de Olga de Arruda Soares, irmã de Jair, esposa de Antonio (precocemente levado), mãe de Maria Luisa, João Francisco, Maria Rita, Rafael, Antonio Carlos e Ana Maria: que distinção! A suprema glória de trazer à vida um filho da dimensão de João Francisco, ainda agora idolatrado pela multidão de amigos.

A Olga Bissoli: veio de e voltou para Mirandópolis, a paciente e solidária arte de embelezar as jovens, as balzaquianas, as idosas, as mulheres, enfim. Empanturrá-las de laquê, transformar as meio-feias em bonitas no salão da Cussy, defronte à Praça Tóquio (Sakusuke Nó). Arte de deixá-las perfumadas, cheirosas, cheias de si, cabelos ao alto, autoestima lá bem em cima. As mulheres geralmente entram tristes e saem alegres e sorridentes dos salões de beleza das cabeleireiras. Percebeu, amigo? E dona Olga Albanez, conheceu?

Uma das três ou quatro figuras marcantes que remanesciam na Oswaldo Cruz, no centro da cidade: ali, ela abriu e manteve por décadas a loja, seu bazar. Ali ela cooperou com o filho Carlinhos e com Beth, a nora, na administração da cantina, do Hotel Itapura e do San Rafael, atendendo a freguesia com a tranquila humildade e dedicação dos indispensáveis, senhora de bem com a vida que nem sempre lhe sorriu, generosa e benfazeja, como a definiu padre José Carlos Guabiraba na encomendação do corpo, parentes, amigos e funcionários deixando as lágrimas descer fartamente, sem rebuços. Conheceu? Essas pessoas, amigo, escreveram ao longo dos anos a história humana de Araçatuba, assim como Clarindo Ferreira, Abdul Hajoul, Eduardo Ferreira e Elídio Pereira também a escrevem há mais de 30 anos enquanto descem juntos a rua General Glicério para beber o café do bar do Jorge. Sim, ele mesmo, o Clarindo que chegou com a agência da União de Bancos Brasileiros, o pai do médico Pedro Paulo. Quando - em 14 de maio deste ano - Germínia Venturolli foi surpreendida na chácara Morada do Sol com o mundaréu de gente da família para comemorar seus 80 anos, naquela noite, com certeza, ela redigiu algumas páginas da história de Araçatuba, descoberta por Sylvio em 1951.

Amigo, o verdadeiramente araçatubense, araçatubano, araçatubino, age como araçatubense, araçatubano, araçatubino: todos os dias, mesmo sem ser escritor, ainda que analfabeto, ele escreve com satisfação um pouco de sua história, a história de sua gente, a história de sua cidade. Mexa-se, amigo.

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