segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Dez anos sem Jorge Amado

 Por Talita Rustichelli

O cenário predominante de suas obras são a Bahia. Personagens como Gabriela, Tieta, Quincas Berro D'Água, Pedro Bala, Dona Flor e Pedro Archanjo são figuras principais de algumas das histórias mais populares da literatura brasileira. Seu criador, Jorge Amado, há dez anos fazia do cais um portal para outro mundo, deixando uma obra composta por 45 títulos (a maioria romances), alguns deles traduzidos em cerca de 55 países.

Seu primeiro livro, "O País do carnaval", completou 80 anos de publicação neste mesmo ano em que contam-se 10 anos após sua morte, e o escritor, se estivesse vivo, completaria 99 anos no próximo dia 10.

De acordo com o professor e doutor em Literatura Tito Damazo, uma das características mais marcantes da literatura de Jorge Amado são as fortes marcas românticas, não em relação ao movimento romantismo, mas em relação ao idealismo.


Segundo Damazo, em seus romances, considerados ficções regionalistas por se passarem em uma determinada localidade, ele enfatiza uma idealização da vida e a narra com lirismo. "Jorge Amado parte da ideia de que o povo é que vivencia a verdadeira liberdade e de que existe esperança de melhorar. Seus personagens centrais são predominantemente pessoas do povo. O narrador é sempre interventivo, ou seja, se mostra a favor das causas populares", explica.

"Os livros de Jorge Amado mantêm como traço fundamental a ideologia literária projetada nos narradores. Eles detém um engajamento em favor dos oprimidos. O conflito social, a exploração de pessoas, esta ideologia está presente em toda sua obra", complementa.

MOMENTOS
O professor afirma que em sua obra existem dois momentos distintos. "O primeiro, que predominou em duas primeiras obras, publicadas a partir da década de 30 até os anos 50, tem como foco as crônicas sociais. Ele aborda fatos e episódios da vida humana na Bahia, fazendo implicitamente uma denúncia da exploração social. Nesta fase estão, por exemplo, Capitães da Areia (1937) e Terras do sem-fim (1943)", observa Damazo.

No segundo momento (dos anos 50 até o período final de sua produção), segundo o professor, Amado produz crônicas de costume. "São histórias focadas em personagens específicos, tipos de pessoas que habitam a Bahia, com um tom pitoresco. Há a questão social, mas é deixada em segundo plano. Gabriela, cravo e canela (1958), Tieta do Agreste (1977) e Dona Flor e seus dois maridos (1966) são algumas obras com estas características.

CONTRASTES
Jorge Amado pertence à segunda fase do modernismo brasileiro, que predominou do período de 1930 a meados da década de 40, assim como o escritor Graciliano Ramos, autor do aclamado romance "Vidas secas", lançado em 1938. Damazo afirma que, segundo os críticos literários, a idealização e o romantismo presentes no trabalho de Jorge Amado são fatores que fazem com que a obra de Graciliano Ramos seja predominante em relação ao valor literário.

"Os narradores de Ramos se isentam dos fatos, por isso é uma obra árida, voltada ao ceticismo, objetiva e isenta de lirismo. O que há em relação à esperança são fluxos da consciência dos personagens, sem intervenções do narrador", explica.

Porém, ele afirma que há uma característica comum entre os dois autores: a denúncia social. "Na obra de Ramos, ela fica implícita, mas aparece em fatos como a exploração de trabalhadores, por exemplo", analisa.

Livros do escritor baiano ganharam versões para o cinema e a televisão
De acordo com o professor Tito Damazo, uma das obras de destaque de Jorge Amado (e também uma de suas preferidas do autor), é "A morte e a morte de Quincas Berro D'Água". Para ele, o livro mostra um Jorge Amado diferente, em que a narrativa acontece a partir do contraste de duas perspectivas: a da filha de Quincas e a dos amigos dele. "O escritor, nesta obra, consegue estabelecer uma relação de grandeza entre o trabalho artístico literário e o enredo", diz.

Em "Quincas", Jorge Amado narra a história de um pequeno burguês, funcionário público exemplar, que decide fugir da vida de regras, da família e da esposa autoritária, se rebelando e indo conviver com pessoas de níveis sociais mais baixos, como marinheiros, carregadores do cais, entre outros.

"Como ele desaparece, a família o dá como morto. Porém, certo dia ele realmente aparece morto, no quartinho onde vivia. A partir daí, a narrativa começa a estabelecer um jogo com o fantástico. Os amigos de Quincas, bêbados, começam a 'ver' o morto sorrindo, e o levam para a 'última noitada'", conta.

CINEMA
Assim como outras obras do escritor, "A morte e a morte de Quincas Berro D'Água" ganhou uma versão cinematográfica em 2010, tendo o ator Paulo José no papel principal.

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