terça-feira, 9 de agosto de 2011

Arte naïf na sombra

Por Talita Rustichelli

Há mais de 30 anos, a cidade de Penápolis era presenteada com o primeiro museu de arte naïf da América Latina. Inaugurado em 1972 em São Paulo, a partir do acervo da artista plástica Iracema Arditi, o Museu do Sol foi transferido para a cidade em 1979.

Desde então, é administrado pela Fundação das Artes de Penápolis que, atravessando uma crise financeira, teve de fechar as portas do museu por período indeterminado. Naïf é um estilo de artes visuais que se caracteriza pelos traços e pela ausência de formação acadêmica de seus autores.

Desde fevereiro de 2010, a população está sendo privada de um importante acervo especializado no gênero, que conta com cerca de 500 obras, entre telas, gravuras, esculturas e outros objetos de artistas de renome na arte naïf brasileira e internacional.


De acordo com Elizabeth Bergner, que está à frente da curadoria do museu desde 1981, a instituição é privada, mas sem fins lucrativos. Ela afirma que há cerca de 10 anos já trabalhavam com uma contenção de despesas e que o maior problema, que resultou no fechamento do local, foi a folha de pagamento dos colaboradores.

"No total, quando fechamos, eram necessários cerca de R$ 15 mil mensais para manter o funcionamento do museu. Havia sete funcionários efetivos, entre segurança, faxineiras, arte-educador, administradora etc. O maior gasto era com os pagamentos, pois realizávamos uma gestão enxuta na manutenção, publicidade e arte-educação", explica.

Segundo ela, além da exposição permanente, o museu realizava exposições periódicas, que ultimamente não estavam sendo realizadas. "Essas exposições temporárias exigem gastos com segurança, transporte, etc. Apenas obras dos alunos do ateliê estavam sendo expostas periodicamente", diz. O museu oferecia aulas de artes plásticas, de acordo com Elizabeth, cujo dinheiro das mensalidades cobradas de alunos que tinham condições de pagar auxiliava em pequena parcela da manutenção do local.

"Geralmente, todas as instituições culturais mantidas por entidades particulares acabam tendo problemas de sustentabilidade. Ainda mais neste caso, em que a mantenedora se trata de uma fundação sem fins lucrativos", complementa.

ADMINISTRAÇÃO
Segundo o secretário municipal de cultura, Joaquim Alberto Fernandes, a prefeitura intermediou uma visita técnica de representantes do Ibram (Instituto Brasileiro de Museus), que irão até o local nos dias 22 e 23 de agosto. "Eles farão uma visita para conhecer o museu e avaliar as possibilidades de atuação do governo federal", afirma.

Fernandes diz que, em reuniões com os administradores do museu, a prefeitura se colocou à disposição para assumir a manutenção do local, mas a fundação optou por procurar ainda outros meios, através de parcerias com instituições privadas ou estaduais.

Elizabeth afirma que já foram feitas várias tentativas de parcerias com instituições particulares e governamentais, mas ainda sem sucesso. "É um trabalho difícil. As pessoas ainda não entendem o museu como uma referência, como algo que tem importância por si só. A conscientização das pessoas de que ele proporciona um patrimônio pessoal é um processo lento, pois acontece de forma indireta, por meio da educação", conclui.

A reportagem tentou contato com o diretor da Fundação das Artes, Celso Viana Egreja, ontem, para comentar o assunto, mas não conseguiu localizá-lo.

PERDA
Para o secretário, o fechamento do Museu do Sol acarreta diversas perdas, não só para a cidade. "Há poucos museus de arte naïf no país. Além deste de Penápolis, há mais três: um no Rio de Janeiro, que também passa por crise financeira, um em Assis, e um em São José dos Campos. Além disso, várias escolas de cidades da região traziam sempre alunos para visitarem o museu", diz.

"O Museu do Sol levou o nome de Penápolis e da região para todo o Brasil e exterior. Ele possui obras de artistas de renome nacional e internacional, além de ter sido referência na museografia, que é a disposição do acervo exposto", complementa.


Obra pertencente ao museu será exposta no Chile
O Museu do Sol é referência quando se trata de arte Naïf, ou "arte ingênua", gênero de artes visuais se caracteriza essencialmente pelas formas não acadêmicas com as quais é expressado. Nota-se neste tipo de arte a ausência das técnicas como o uso científico da perspectiva e das formas convencionais de composição e de utilização das cores.

A curadora Elizabeth explica que as cerca de 500 peças pertencentes ao acervo são tombadas e devidamente catalogadas, e incluem obras de expoentes do gênero. "O museu tem importância fundamental para neste gênero. Temos obras de renomados artistas da arte naïf, como Isabel de Jesus, Chico da Silva, Heitor dos Prazeres e Mestre Dezinho", complementa a curadora.

O Museu do Sol possui ainda uma biblioteca específica de artes visuais. A curadora afirma que há cerca de 2.000 títulos, além de um banco de catálogos de exposições, o que atraía vários pesquisadores e interessados na área.

DESTAQUE
Para ressaltar a importância do museu, Elizabeth afirma que uma das telas do acervo será exposta no Chile. "No segundo centenário do Banco do Brasil, em 2008, a instituição organizou uma exposição de artes plásticas com obras de diversos artistas brasileiros, de acervos de diversos museus.

Uma das telas, 'Parque de Diversões', da artista Maria Auxiliadora, pertence ao Museu do Sol e integrou esta mostra. O banco auxiliou na restauração da obra, e agora a pediu para uma nova exposição, desta vez no Chile, que acontece provavelmente no final do ano", diz.

Maria Auxiliadora foi uma pintora mineira autodidata, que nasceu em 1938 e morreu em 1974. Iniciou sua produção artística por volta de 1954 e desenvolveu uma técnica na qual utilizava cabelo humano nas telas, além de tinta acrílica de cores fortes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário