quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Aprender com brincadeiras

Por Hélio Consolaro

O escritor e jornalista Daniel Piza é compadre do procurador-geral da Prefeitura de Araçatuba,Carlos Frederico Barbosa Bentivegna, cujo apelido é Cacaio. O escritor já esteve em Araçatuba em visita familiar. Como pretendo trazê-lo de volta a Araçatuba para a Semana da Literatura, criou-se todo o assunto desta coluna.

E, às vezes, com todo o respeito do mundo, funcionários tratam o procurador-geral de “Dr. Cacaio”. Como substantivo comum, cacaio é um saco, alforje, uma espécie de embornal. Não é grande coisa. O apelido originou-se com certeza na infância, com a repetição da primeira sílaba do nome: Carlos. 
Mas o Carlos Frederico Barbosa Bentivegna tem currículo, foi secretário interino dos Negócios Jurídicos do município de São Paulo, é parente próximo do saudoso Orency Rodrigues, fazendeiro e ex-prefeito de Andradina, e de Dona Missé.


Dr. Cacaio estava em São Paulo tratando dos negócios da Prefeitura de Araçatuba. Como secretário da Cultura, passei-lhe torpedos para que fizesse o convite ao compadre. E ele nem dava confiança. Mandei-lhe um e-mail em linguagem formal, reclamando dele uma resposta.

E ele, para me refestelar, respondeu na linguagem costumeira de alguns advogados prolixos:

“Excelentíssimo Senhor Secretário Municipal da Cultura de Araçatuba. Professor Doutor Hélio Consolaro [dispenso o doutor, sou apenas um reles professor].

Em detrimento da inadequação da linguagem anteriormente empregada em sua comunicação, dado que pecava pelo insanável vício da informalidade, encontrava-me na capital e lá consultei o referido escritor - cujo patronímico se grafa com apenas uma letra "z", sob pena de vê-lo transformar-se no esférico acepipe napolitano - e este ainda nada mo respondeu... Posto que a ele muito apraza a ideia de vir ter com vossa magnificência [houve falta de uniformidade no tratamento] e com o erudito público da Noroeste Paulista, passa - neste exato momento - por situação familiar de certa gravidade, com sua progenitora internada em nosocômio [HOSPITAL]da capital para tratamento hepático de extrema complexidade. Não goza o pretendido convidado de tranquilidade emocional ou da mais comezinha serenidade para comprometer-se com sua alvissareira visita.

‘Ex positis’ [do que ficou exposto] e como pode facilmente constatar o nobre professor, este singelo rábula [advogado chicaneiro, sem formação] - embora não tenha esta entre as funções que lhe são assinadas pelo Poder Público Municipal - fez o que estava no âmbito de seu parco alcance para coadjuvar a gloriosa Secretaria da Cultura.

Mais que isso não farei e foda-se [verbo que deve ser evitado nos processos judiciais, a não ser como fala de réus e testemunhas], ou melhor, autocopule-se [NEOLOGISMO].
Com a renovação das homenagens de estilo que provém de minha elevada estima e invulgar consideração, Carlos Frederico Barbosa Bentivegna.”

Embora este colunista tenha sido objeto de chiste, ao grafar Daniel Piza com dois zês, considero o texto um exemplo de linguagem parnasiana que deve ser evitada por advogados nos processos judiciais. A rabularia se manifestou na forma verbal “foda-se”.

Errou ao dar o recado  
O consumidor deixou um recado para o leiturista do Daea (Departamento de Água e Esgoto de Araçatuba), mas cometeu alguns deslizes: o acento grave não existe, não há preposição com artigo, apenas artigo. Passando para o masculino (teste para ver se tem acento grave no feminino: retirar o chaveiro). Não houve “ao chaveiro”, então, sem crase no feminino.

Quando a sigla formar uma palavra possível de  pronúncia portuguesa, dispensam-se os pontos. Escreve-se: Daea, Adefa. Bem diferente em INSS, em FGTS. Letras maiúsculas, mesmo quando a leitura for possível, apenas em siglas de até três letras: USP. Não há pontuação em siglas.


Teste da Semana
 (Resposta)
Como se escreve o arranjo floral? Ikebana ou iquebana?
Resposta: antes do Acordo Ortográfico, qualquer palavra escrita com “k”, “w” e “y” era considerada estrangeirismo. Agora, tais letras fazem parte de nosso alfabeto. Embora muito a contragosto, tenho que admitir que “ikebana”, “karaoquê” são palavras portuguesas atualmente. Eu prefiro “iquebana” e “caraoquê”.

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