terça-feira, 30 de agosto de 2011

Adeus a Bruno Zago


Por Alessandra Nogueira

Logo na chegada ao portão, quem olha pelo vão da grade já sente o clima de arte no ar. Os moldes de instrumentos musicais pendurados na parede da varanda denunciam: ali mora um artista. O alpendre, transformado em oficina, hoje está vazio, triste, de luto. Seu personagem principal foi para outras paragens após ser vítima de uma pneumonia que o levou desta vida aos 88 anos, na semana passada. Ele é Bruno Zago, tabapuanense de nascimento (ele é de Tabapuã, região de Catanduva) e araçatubense de coração.

Um violinista apaixonado pela música que, de tanto observar, estudar, fuçar e pesquisar, de tanto mexer no violino, consertar aqui, colar ali, restaurar acolá, tornou-se um mestre na arte da fabricação de instrumentos de cordas. Em francês, um luthier. Em português, um alaudeiro (em referência ao alaúde, instrumento de cordas de origem árabe).

Zago veio ao mundo no dia 20 de maio de 1923, em uma família de imigrantes italianos. Os pais, Luiz Zago e Clementina Bertoni Zago, vieram de Cremona, região da Lombardia, nos primeiros anos do século passado. Vieram para trabalhar como colonos em propriedades rurais. Coincidência ou não, Cremona é famosa por ser a terra do célebre luthier italiano Antonio Giacomo Stradivari, mais conhecido pelo nome em latim, Antonius Stradivarius, e também por seus violinos e instrumentos de corda.

O pai, Luiz, era marceneiro e ensinou a arte ao filho, que ingressou ainda menino no mundo dos trabalhos artesanais e artísticos. Nesta época, apaixonou-se pelo violino ao ouvir alguém tocar o instrumento na sede da fazenda onde morava com a família, conta Marcelo Zago, filho de Bruno que segue os passos do pai na arte da luthieria.

Bruno Zago tinha de trabalhar para ajudar no sustento da casa, por isso o pai o proibiu de estudar. A paixão pelo instrumento, no entanto, foi maior. O jeito era sair escondido dos pais para tomar aulas na cidade. Da fazenda até Tabapuã eram sete quilômetros de cavalgada para aprender a tocar violino.

Daí em diante nunca mais parou de estudar. Já em Araçatuba, fez aulas com o maestro José Raab, no Conservatório Musical Santa Cecília, e também com o professor Célio Novaes. Fez cursos no Conservatório Imirim, em São Paulo, e com outros professores da capital paulista. Em casa, estudava religiosamente entre duas e três horas por dia, sem falhar. Mesmo aos sábados, domingos e feriados lá estava Zago com o violino e seu arco a estudar páginas e páginas de partituras e métodos. No sábado (20), véspera de sua internação na Santa Casa para não mais voltar, o velho músico tocou seu violino, apesar da dificuldade que enfrentava para respirar.

Esta mesma dedicação e esforço Bruno Zago exigia das netas Marcela e Nathalia, que aprenderam a tocar com o avô. "Ele tinha muita paciência para ensinar, mas era muito exigente. As aulas eram diárias e tinham uma hora de duração, até nos fins de semana", conta Marcela, 14 anos, que começou a estudar com o avô ainda criança, aos cinco anos de idade. As duas netas de Zago hoje integram a orquestra da Alma (Associação Livre dos Músicos de Araçatuba) e pretendem se profissionalizar no futuro.
 
Como músico, Zago integrou a Banda Municipal de Guararapes, onde morou. Em 1968, mudou-se para Araçatuba, onde passou a fazer parte da Banda Municipal, a Furiosa - tocava um instrumento de sopro, o baixo tuba. Na capital paulista, para onde foi em seguida, integrou a Banda da Sorocabana. Depois, retornou a Araçatuba e daqui não mais saiu. Na cidade, foi integrante da Camerata Lítero-Musical, nos anos 1980.

Como morava próximo à Igreja São João, gostava de ir até lá para tocar Ave-Maria de Schubert para Nossa Senhora na porta do Santuário, conta a filha Angélica Zago. Chamava a atenção das pessoas na rua e, tímido que era, guardava o instrumento e voltava para casa.

A música preferida era "Rapaziada do Brás", eternizada na voz de Carlos Galhardo. Gostava também de música clássica, tango, valsa e sambinhas. Entre os cantores brasileiros os prediletos eram Orlando Silva, Francisco Alves, Vicente Celestino e Altemar Dutra, além do próprio Galhardo.

REPAROS
Paralelamente aos estudos e execuções musicais, o curioso Zago fazia reparos em instrumentos. Comprava violinos quebrados para restaurar e tornava-se cada vez mais íntimo do instrumento de madeira. E isso era ainda na longínqua década de 1940. Em 1958, fez um curso de luthieria com o professor Rafael Leone, de São Paulo, e assim foi aperfeiçoando-se. Começou a confeccionar violino e depois ampliou a produção para viola, violoncelo e contrabaixo.

O primeiro violino saiu meio torto, como ele mesmo definiu em entrevista à Folha da Região realizada em 2008. O filho Marcelo conta que o pai considerava o "número um" mais um objeto de decoração do que propriamente um instrumento. "Ele não tinha todo aperfeiçoamento, por isso o primeiro não tem a qualidade dos demais". A peça foi doada por Zago à Associação dos Músicos no ano passado.

Ao longo da vida, Zago foi entalhador, escultor e marceneiro, além de luthier. Nesta última atividade, dedicou atenção exclusiva nos últimos 20 anos, após se aposentar. Produziu um total de 100 instrumentos (trabalhava no 101º, um violino, que não conseguiu concluir), dos quais 64 são violinos, 11 contrabaixos, 2 violas e 23 violoncelos. Já vendeu para São Paulo, Tatuí (SP), Goiânia (GO), Belo Horizonte (MG), Vitória (ES), Austrália, Holanda e África. A última encomenda, de um músico de São Paulo, ele não conseguiu terminar.

VIOLINO
Um violino leva, em média, entre 30 e 40 dias para ser confeccionado, levando em conta o primeiro corte da madeira até a última pincelada de verniz. A arte depende da inspiração, diz o filho Marcelo, companheiro de oficina do pai por 20 anos, por isso a regra é não correr. Tudo é milimetricamente calculado, com precisão de detalhes, o que exige muita concentração e persistência, pois o instrumento é inteiro feito à mão. 

O mesmo vale para o contrabaixo, viola e violoncelo. Um violino custa, em média, R$ 2,5 mil, mas o preço varia de acordo com a nobreza do som. Por isso alguns custam muito dinheiro e outros não têm valor.
Zago dizia que a arte do violino está na colocação da barra harmônica, que tem como função transmitir as vibrações a todo o corpo do violino. Fica posicionada embaixo da tampa, na posição das cordas. Há ainda a alma, cilindro de madeira que fica dentro do corpo do violino, mais ou menos abaixo do lado direito do cavalete, que liga, mecânica e acusticamente, o tampo superior ao inferior. Depois de colocada a alma, busca-se o melhor som.

As madeiras utilizadas na confecção do violino são a grevilha (de origem australiana), pinho suíço e o pau-brasil. O arco é feito de crina de cavalo e o verniz foi inventado pelo artesão à base de goma-laca e resina de jatobá. As ferramentas também eram criadas por Zago, que as fabricava conforme sua necessidade. Uma delas, para medir o tampo do violino, foi feita com metro de marceneiro e trinco de porta.

VIOLINISTAS
O médico e violinista Carlos Alberto Nor manha conta que via Bruno Zago, a quem chamava de BZ, fabricar os violinos e encomendou o 17º instrumento fabricado pelo luthier. "O BZ era era um estudioso de violino, pesquisava modelos, a história da música e da fabricação de instrumentos e começou a confeccionar. Com o tempo, foi se aperfeiçoando", afirma, destacando que Zago era fascinado pelo instrumento.

Normanha, que hoje mora em Água Clara (MS), fez questão de dar adeus ao amigo querido. Os dois tocaram juntos na Camerata de Violinos de Araçatuba. "Ele era sempre alegre, gostava de colocar apelido nos outros", relembra.

O médico Satoru Okida, também violinista, possui um violino feito por Zago. O instrumento foi criado para estudo, por isso tem o som baixo para não incomodar ninguém e é chamado de violino surdo. "É uma verdadeira obra de arte esta peça", define Marcelo Zago.

O engenheiro e violinista Sérgio Abujamra conta que Zago cuidou de seus violinos durante 20 anos. "Ele amava sua profissão e era o exemplo de bondade", afirma o amigo, que conheceu o músico e luthier em apresentações musicais.

ÚLTIMOS DIAS
O mestre Zago passou os últimos dias de sua vida viajando (ficou 10 dias em São Paulo na casa dos filhos) e trabalhando. Retornou da capital paulista na quinta-feira e trabalhou no Cemfica (Centro Municipal de Formação Integral da Criança e do Adolescente) do Alvorada, onde dava aulas para garotos carentes. 

Ensinava a eles a arte da luthieria junto com o filho Marcelo. O projeto, em parceria com a Prefeitura via Secretaria Municipal de Cultura, começou em 2010, mas estava suspenso havia oito meses. Na primeira fase, os alunos construíram seis violinos com a ajuda dos professores. A retomada ocorreu este mês, com a participação de 20 alunos. Marcelo Zago diz que pretende dar continuidade, mas depende do aval do município.

Na sexta-feira, antevéspera de sua internação, Zago trabalhou no 65º violino que estava construindo. Mais tarde tocou um pouco e foi dormir. A mesma rotina se repetiu no dia seguinte, mas passou mal às 18h, estava com sintomas de gripe e Marcelo decidiu levá-lo ao hospital devido à dificuldade respiratória que apresentava.

Ao chegar ao hospital, os médicos constataram a gravidade do quadro e o internaram na UTI. Foi sedado e assim permaneceu até morrer, às 6h de terça-feira (23). O viúvo de Alzira Moreira Zago deixou 10 filhos, 24 netos e 21 bisnetos.

O violino soou triste na tarde de quarta-feira, enquanto seu corpo era velado na capela Laluce. A neta Nathalia tocou para o avô junto com os amigos Normanha e Antônio Pereira da Silva. Foi a última homenagem ao músico que virou luthier. Adeus, Bruno Zago.

Educação musical?
   
Não dá para levar a sério a lei federal que torna obrigatório o ensino de música no ensino básico e fundamental no Brasil. A legislação, em vigor a partir deste mês, não exige que o professor tenha formação musical, ou seja, qualquer um pode ministrar aulas de música. Alguém acredita que os alunos aprenderão realmente desta forma? Impossível não lembrar os áureos tempos em que a escola, sobretudo a pública, tratava o assunto com seriedade. Em Araçatuba, por exemplo, o IE (Instituto Educacional Manoel Bento da Cruz) tinha como professor o maestro José Raab. Hoje, não é preciso nem saber ler partitura para "ensinar" música nas escolas, conforme prevê a lei federal sancionada ainda pelo presidente Lula. Lamentável.

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