segunda-feira, 4 de julho de 2011

Poesia e vida

Por Hélio Consolaro

COTA ZERO STOP.
A vida parou ou foi o automóvel?  
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade lançou o seu livro “Alguma Poesia” em 1930, em que está o poema “Cota Zero”. Um mineiro que se engajara a distância ao Modernismo, explodido com a Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo.

Naquela época, em que o Brasil já era territorialmente gigante, mas com pouca gente, uma mídia primitiva, com milhões de analfabetos totais, os livros repercutiam mais, pelo menos na intelectualidade. A tiragem da primeira edição de Dom Casmurro, impressa pela Livraria Garnier, filial francesa instalada no Rio de Janeiro, teve 100 exemplares. 


Como já escreveu Afonso Romano Sant’Anna, em 1965, quando lançou seu primeiro livro “Canto e palavra” em Minas, houve um estrondo nos jornais. Hoje, ele continua escrevendo seus livros, mas não sai nenhuma notinha nos jornais. Afonso não deixou de ser um bom escritor, mas escrever livros hoje não é mais novidade. Qualquer cidade de porte médio tem a sua editora.

No mesmo “Alguma poesia” estava o revolucionário “No meio do caminho” que foi um soco nos parnasianos empedernidos da época, que faziam poemas chapa branca,  metrificados, rimados, com palavras dicionarizantes, os modernistas eram classificados de petulantes, malucos, inconsequentes. “No meio do caminho” é uma paródia do poema de Olavo Bilac: Nel Mezzo del Camin. E toda paródia é irônica.

Depois de passar pelo Tropicalismo, Bossa Nova, Beatles, Concretismo e esse mosaico que virou a cultura brasileira, toda multifacetada, ler “Ode ao Burguês”, de Mário de Andrade,  pode causar tédio, mas na época de sua publicação, o poema foi um tapa na cara de muita gente.

“Cota Zero” não é diferente, mas até hoje choca os estudantes do ensino médio ao deparar com esse “poeminha”, mais parecido com um haicai.
- Isso é poema, professor?   

O título do poema nos leva ao rés do chão: zero, participação nula. A uma vida urbana sem sentido, fatigante. Isso quando os carros tinham a velocidade máxima de 30 km/h. Hoje, não é mais possível nem refletir no semáforo, porque se demorar, o carro de trás buzina, mostrando um motorista enfurecido.

O automóvel na modernidade se tornou uma segunda pele do ser humano. Carro em trânsito congestionado é atraso nos compromissos, tudo para. “A vida parou ou foi o automóvel?”

O poeta faz questão de deixar a dúvida. Ele não quer fechar questão sobre o assunto, busca a polifonia (várias leituras e interpretações), deixando que cada leitor se inclua na construção do poema.

Drummond usou o “pare” em inglês (stop), como uma forma de denunciar, numa intelectualidade parnasiana que tinha a França como referência cultural, que pelo idioma anglo-saxônico é que chegaria à modernidade ao Brasil. 

Há muitos ensaios exegéticos sobre “Cota Zero” publicados por universidades, mas aqui a pretensão é discutir com o leitor de jornal, internauta, o cidadão comum, a leitura de poemas: aqueles pensamentos bobos que vêm à cabeça ao ler um poema têm muito valor. Pode ser que vê coisas, não muito valorizadas por ph.D. Ler um poema não é privilégio de uma casta, nem precisa ser iniciado, basta ter sensibilidade e gostar de arte.

Por falar nisso, as letras das músicas que você canta são poemas! Aí é outra briga, há quem as desqualifique, dizendo que são apenas cantigas.

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