quarta-feira, 6 de julho de 2011

Parece ou é

Por José Hamilton Brito

Costumamos ser muito exigentes com quem nos presta serviços e esquecemo-nos que ali naquele profissional existe um ser humano...E dentre eles figuras inigualáveis.

Uma destas, conheci lendo o livro Dono da Vida, obra de Morton Thompson, história verdadeira de um brilhante médico em Viena e em Budapeste na década de 1850: Ignácio Semmelweis.

Dedicou a sua vida a erradicar a febre puerperal que ceifava vidas por pura ignorância e intolerância dos profissionais médicos da época.


Na febre puerperal, após o parto, a mulher sentia dores no abdome, que inchava, havia febre intensa, delírio e essa doença matava muitas delas.
Os médicos traziam nas mãos fragmentos de outros procedimentos, como autópsias, e isso provocava a febre.

Uma providência simples, mas que jogou contra ele toda a fúria dos ilustres de então: fazer simplesmente a assepsia das mãos ao tratar de uma paciente gestante.

A coisa era tão terrível que aquelas que iam ter filhos preferiam tê-los nas ruas que nos leitos do hospital, pois a chance de sobreviverem era maior.

Uma passagem marcante: tendo sido escalado por seu mentor para cuidar de uma criança cuja morte era inevitável - esse fato não lhe foi revelado - o diagnóstico e terapia foi deixado a seu critério. A criança, como sabido que aconteceria pelo seu mentor, faleceu. Felipe se sentiu culpado e quis abandonar a medicina.

Disse-lhe o mestre: Felipe, por mais que um médico saiba, jamais saberá tudo e por conta do pouco que ele desconhece, pessoas continuarão a morrer e a nascer. Então faça uso do que você sabe, volte para o consultório e para o hospital porque assim você irá aliviar muitas dores e evitar que muitas lágrimas sejam derramadas.

Fui durante muito tempo propagandista de laboratório farmacêutico e tinha como tarefa visitar hospitais para propaganda e vendas de nossos produtos; tínhamos acessos aos pontos dentro dos hospitais.

De certa feita, esperando para falar com uma enfermeira responsável pela padronização na ala da pediatria, percebi um casal sentado em um banco perto da sala de cirurgia.

Como se descreve o desespero?
Confesso que não sei. Eles se buscavam com o olhar, mas nada encontravam um no outro. As mãos, crispadas, pareciam que iam se fundir.
O tempo foi passando e só fazia aumentar a tristeza deles e a minha. Pensei em ir embora, deixar para outra hora...Mas eu tinha um trabalho a fazer.

Cada pessoa que saía da sala, médico ou enfermeira, passava por eles e seguia o seu caminho; coisa absolutamente normal, mas aquilo deixava o casal mais mergulhado na dor, pois não tinha um vislumbre de esperança.

Eis que de repente, da sala, sai um cirurgião. Passos lentos, estava limpando os óculos. Da porta ao casal não tinha mais que 30 metros, mas ele demorou 30 anos para chegar.
Parou na frente dele e ficou olhando longamente.

Eu nunca vi nem verei algo igual na vida. Buscavam-se e não se encontravam. Não havia choro. Não havia mais desespero e sim uma profunda aceitação do que imaginavam inevitável.
O médico continuava a limpar os óculos. O que aconteceu em segundos parecia durar uma eternidade.
-O filho de vocês vai viver.
O casal ficou ali, sem ação. Não fizeram e nem disseram nada. O silêncio gritou que maior que Deus, nada.
O médico foi se afastando lentamente e lentamente continuava a limpar os seus óculos.
Ali, naquela cena, eu vislumbrei o exato momento no qual um homem parece ser um Deus...ou é?

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