quarta-feira, 27 de julho de 2011

Os elefantes e a dengue

Por Wilson Marini

A mídia internacional ainda explora a repercussão sobre a morte da cantora Amy Winehouse e entra em detalhes sobre a tragédia do massacre na Noruega. Ambos os fatos são transformados em destaques globais, comentados em toda parte na velocidade da internet.

Enquanto isso, as comunidades regionais vivem em silêncio as mudanças globais sem que os seus fatos ganhem as capas de revistas ou sejam manchetes nos jornais de prestígio mundial. Mas são essas notícias locais ou regionais que verdadeiramente interessam a elas, porque apontam causas, efeitos e tendências da esquina de cada um.


Elefantes
O Bhutan Observer, jornal independente do Butão, deu destaque a uma reportagem surpreendente: elefantes estão invadindo propriedades rurais em busca de alimentos e com isso provocam prejuízos aos agricultores.

O Butão é um reino situado na cordilheira do Himalaia, entre a Índia e a China. A televisão chegou ao país só no ano 2000 e o telefone celular três anos depois. A agricultura de subsistência emprega a maior parte da população. O Butão sabe da morte de Amy e da dor norueguesa, mas os leitores estão preocupados mesmo é com acontecimentos como a expansão do alcoolismo e a invasão de elefantes nas lavouras.

Nesse país, agora é temporada de colheita e a manchete local é a iminência de uma batalha entre os agricultores e animais silvestres. Sintoma do perigo é que elefantes “saqueadores” destruíram plantações de milho, banana e noz. Os agricultores temem que possam voltar a qualquer momento e causar um dano maior. Elefantes e javalis são uma ameaça comum para as culturas e as vidas das pessoas. Guardas florestais são colocadas em alerta para ajudar os agricultores a afugentar os elefantes se eles aparecem novamente.

Com a tecnologia a serviço do homem, a parafernália chegou também ao Butão. O Departamento de Florestas começou a adotar cercas elétricas. Ao tocar nelas, o animal recebe um choque elétrico, forte o suficiente para afastá-los, mas não para matá-los. Luzes elétricas piscam e toca o alarme. Todos então sabem que há elefantes nas proximidades e chamam a polícia!

O governo já pensa em oferecer recompensa para quem der o aviso a tempo sobre a aproximação dos animais. Outra providência é ampliar o seguro agrícola. Coisas da tecnocracia. Sob a proteção do regime, cada família na comunidade paga uma determinada parcela do prêmio.
Quando a cultura é danificada por animais selvagens, o prejuízo é calculado e os produtores compensados. Animais menores, como o javali, às vezes são mortos pelos agricultores para salvar suas colheitas e a si próprios.

Há casos de elefantes que aparecem nas aldeias mesmo no inverno, quando os campos são estéreis. De onde vêm os elefantes? O que procuram? Por que estão perdidos? O oficial de florestas Kado Tshering resume: “É um fenômeno estranho. Acho que seus habitats têm sido perturbados”.

“Algo estranho”
No Butão, como no Interior Paulista e em todas as partes do mundo, muita coisa estranha anda acontecendo no ambiente e as pessoas, a maioria, não se dão conta. Pássaros de espécies em extinção são vistos em árvores urbanas e isso é fotografado e divulgado como exibicionismo, colecionismo ou sinal de qualidade de vida, quando na verdade estão fugindo das queimadas no campo.

Abelhas estão sumindo devido à poluição e o uso de agrotóxicos em plantações extensivas, que afeta o seu sentido de direção e olfato. Frutas amadurecem precocemente. No Japão, a cerejeira floresce por antecipação e confunde a festa nacional. Antigamente sabia-se do calendário pela cor e cheiro dos jardins ou dos campos. E agora? Há frutas que amadurecem o ano todo, graças às alterações genéticas induzidas, mas chegam sem viço, pálidas e muitas vezes estragadas por dentro, nos supermercados. Quem se incomoda com isso?

Leão Ariel, de dois anos e 180 quilos,
chegando ao Hospital Veterinário
Um leão
O caso do leão Ariel, nascido em cativeiro de Maringá, e que se espalhou pelo mundo, é um exemplo dessa estranha relação com os animais. O pobre animal não consegue andar porque é tetraplégico, e isso provoca comoção mundial. Uma rede virtual reúne milhares de seguidores da história. Sugestões vêm de todos os cantos. É a globalização. Voluntários se oferecem para fisioterapia. No momento, está sendo tratado numa clínica em São Paulo. Uma única história ganha espaço em sites na internet em várias línguas. No entanto, diariamente pedaços de matas são liquidadas impunemente. Discute-se um leão, mas e a floresta, a visão do todo? E depois o homem urbano se espanta com a proliferação do mosquito da dengue — fenômeno provocado pelo desequilíbrio ecológico.

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