sexta-feira, 29 de julho de 2011

Os bastidores do museu

Por Talita Rustichelli

Quando visitamos um museu, temos contato direto apenas com o que está exposto. Mas como é feita a triagem daquilo que vai para exposição? Ou melhor, como são selecionados os materiais doados ao museu para integrarem de fato seu acervo?

Em Araçatuba, os objetos pertencentes ao Museu Histórico e Pedagógico Marechal Cândido Rondon vem passando por uma nova catalogação. O trabalho de longo período (realizado desde 2009) demanda uma organização detalhada, tanto no armazenamento quanto na pesquisa, para apurar sua procedência e seu valor histórico.

O diretor do departamento de preservação histórico-cultural e artística da Secretaria Municipal de Cultura, Carlos Paupitz, explica que o museu, ao longo de seus quase 50 anos (foi fundado em 1964), reuniu um acervo com grande quantidade de objetos. "Antes de 2009, grande parte dos materiais estava sem identificação. Ainda há muitos que ainda estão sendo identificados, alguns que já eram do museu, outros passaram a fazer parte do acervo há pouco tempo. A organização de tudo exige um tempo de pesquisa, pois alguns deles não sabemos nem quem foram os doadores", diz.


Entre os objetos ainda não catalogados, estão bonecas antigas, uma roca de fiar (quebrada), e documentos e livros pertencentes a Nair Falco, encontrados na casa onde morou na cidade, na rua Floriano Peixoto, demolida recentemente. Um oratório doado ao museu em 1973, feito em Minas Gerais, cuja identificação inicial diz que possui entre 140 e 190 anos, está entre os objetos em catalogação.

Segundo Paupitz, além dos objetos que já estão em acervo, o museu recebe doações de moradores da cidade. Para saber a procedência do material doado, Paupitz explica que uma pesquisa é feita a partir de livros sobre a cidade e em cima de depoimentos dos proprietários ou familiares dos donos dos objetos.

"Algumas pessoas acabam trazendo para cá várias peças. Porém, a aceitação ou não delas depende de seu valor histórico ser comprovado. Para integrarem o museu, os objetos devem ter fundamentalmente uma relevância em relação à história de Araçatuba. Mas, se chegar alguém aqui com um objeto muito antigo, raro, mesmo que não tenha relação com a história da cidade, não será rejeitado; será avaliado", acrescenta.

DESCARTE
O diretor afirma que há ainda materiais que não estão inseridos no contexto do museu, que tem a preocupação de conservar e ensinar a memória da cidade, como discos de vinil de músicos que não tiveram nenhum vínculo com a região, e uma penteadeira antiga. Além disso, há muitos telefones, equipamentos de comunicação, máquinas fotográficas sem a origem exata.

"Há muitas coisas que não sabemos de onde vieram, de que ano são. Isso ainda está sendo organizado. Após terminarmos a catalogação de tudo, será dado um destino para o que não tem características compatíveis com o museu", diz.

PRESERVAÇÃO
Paupitz explica que assim que o objeto é recebido, fica guardado em uma sala específica, para depois receber um tratamento. "Existe uma 'fila' de objetos. Ordenadamente, vamos checando um por um; antes de serem identificados, é feita uma higienização, apenas com um pincel, sem a aplicação de nenhum tipo de produto", diz.

O diretor explica que não há uma sessão específica para a realização de eventuais restauros ou uma higienização total, pois por enquanto não há estrutura nem profissionais qualificados para o trabalho, que exige minúcia e especialização.

O material que não permanece exposto no museu fica guardado em uma reserva técnica. Na sala, dentro de armários ficam armazenados objetos que já foram catalogados, que foram ou não expostos, e os que estão em processo de identificação. Em outra sala, estão documentos, fotografias, e outras peças

Após identificação, objetos vão ser expostos no museu
O Museu Marechal Cândido Rondon possui algumas exposições pré-montadas em seu acervo, que circulam dentro da programação. Além disso, objetos são reunidos de acordo com o tema e, à medida em que é recolhido material suficiente, é possível formar uma nova exposição. É o que deve ser feito com as peças que passam por catalogação no museu.

O museu já realiza mostras com os objetos que pertenceram ao Monsenhor Víctor Ribeiro Mazzei, padre conhecido em Araçatuba por seus feitos assistenciais; com os materiais indígenas, incluindo peças produzidas pelos primeiros habitantes da região, os índios caingangues; e com as peças relacionadas à estação ferroviária de Araçatuba.

Outro grupo de objetos possui imagens, documentos, medalhas e troféus do atleta Anubes Ferraz. "Ele hoje tem cerca de 75 anos e doou todo seu material para o museu, são muitas medalhas e troféus, além de camisetas utilizadas em treinos", afirma o diretor do departamento de preservação histórico-cultural e artística da Secretaria Municipal de Cultura, Carlos Paupitz.

CIRCULAÇÃO
De acordo com Paupitz, os objetos que ficam em exposição permanente compõem uma cronologia da cidade. São peças, fotografias e textos que contam a história de Araçatuba desde 1908 até a década de 70. Além disso, há ainda móveis antigos que pertenceram a moradores da cidade.

Ele explica que, para dar dinamismo e estimular a maior circulação de pessoas no museu, e ainda aproveitar melhor o espaço físico do local, as exposições que não são fixas circulam periodicamente. "Geralmente fazemos exposições temáticas, de acordo com alguma data importante".
Além das exposições relacionadas à história de Araçatuba, o museu tem ainda painéis sobre as histórias em quadrinhos doados pelo governo do Estado, com o qual ainda há uma parceria para receber exposições itinerantes.

Outros painéis pertencentes ao acervo compõem uma exposição do escritor português Luiz Vaz de Camões, mas que não estão prontos para ficarem à mostra.
De acordo com Paupitz, os 37 quadros possuem imagens e textos sobre o autor e foram produzidos em Portugal, restaurados posteriormente com o apoio da escola Anglo de Araçatuba

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