segunda-feira, 18 de julho de 2011

O arteiro Filó

Por Alessandra Nogueira

Outubro de 1940. Recém-chegado de São José do Rio Preto, aos 17 anos, o músico Orlando Filó passa a integrar a Banda Municipal de Araçatuba, a Furiosa. Tocava o clarinete que aprendera a manusear ainda menino com Pedro Moura, pai do exímio clarinetista e saxofonista Paulo Moura, morto no ano passado.

Hoje, aos 88 anos de idade completados no dia 3 de junho, Filó, cujo sobrenome tem origem húngara, ainda mora em Araçatuba e relembra com saudade dos velhos tempos da banda que animava o coreto da Praça Rui Barbosa, inaugurações, eventos cívicos, quermesses, procissões e o que mais requisitasse os acordes dos músicos regidos pelo maestro italiano Luiz Maisano. "Tocávamos em qualquer lugar, até em porta de circo".

É bom que se explique que Furiosa era o apelido das pequenas bandas interioranas. Quando os integrantes passavam pelas ruas fazendo soar seus instrumentos, o povo logo dizia: "Lá vem a Furiosa", numa referência ao som alto que chamava a atenção mesmo do mais apático morador.


Orlando Filó veio para a cidade com o pai, sapateiro, com quem aprendeu o ofício que exerceu por 71 anos. Com o pai, que tocava clarinete, trombone e flauta transversal, também desenvolveu o gosto pela música, sobretudo a clássica. Tanto que ainda hoje ouve sua coleção de grandes compositores (Bach, Mozart, Lizst, Verdi, entre outros) para apurar o ouvido e praticar exercícios musicais com o clarinete milano (italiano) que ganhou de um dos filhos. O velho instrumento com que começou a tocar ficou esquecido em uma oficina. "Fiquei desgostoso porque me roubaram a boquilha comprada em 1934, quando entrei nas aulas de música, e abandonei aquele clarinete".

Dono de memória invejável (atribuída às duas taças de vinho que toma antes das refeições principais), lembra de detalhes dos idos de 1940, quando integrava a Banda Municipal. As apresentações, conta, tinham duração de duas horas, aproximadamente, e eram divididas em duas partes: na primeira, clássica, tocavam sonatas, prelúdios e óperas; na segunda, popular, os dobrados, as marchas militares. Integrou a Furiosa até 1945, quando se casou e voltou para Rio Preto. Doze anos depois, estava de volta a Araçatuba, onde vive até hoje no Jardim Paulista, em uma casa na rua Pará.

TRAVESSURAS
Da banda, recorda-se não só da boa música que executava com os colegas (cita João Castilho, que tocava saxofone, Sérgio Dalloca, do pistão, e Artur, também do pistão e cujo sobrenome não consegue pronunciar por ser ucraniano). Recorda-se bem das travessuras que aprontava até com o maestro.

Pobre Luiz Maisano. Depois de levar uma bronca do regente, Filó vingou-se de seu líder, maníaco por amendoins torrados que carregava no bolso da farda. Em uma apresentação em Penápolis, arregaçou as barras da calça, entrou na fonte, recolheu dezenas de girinos, colocou-os para secar ao sol e introduziu-os no bolso do paletó do maestro, que desavisado, acabou comendo os bichinhos junto com seus amendoins. Ao perceber a gosma e o sabor ruim, o chefe dos músicos esbravejou e o pito foi coletivo. Não descobriu o autor da brincadeira de péssimo gosto, literalmente.

Também lembra-se bem de quando retirava da tuba a cerveja levada pelos colegas músicos para ser saboreada nos intervalos da banda. Pois ele afanava a garrafa, distribuía a bebida entre outros colegas e devolvia o recipiente à tuba. Quando resolvia tomar a cerveja, o dono bebia era a água colocada no lugar. Dá pra imaginar o quanto se divertia com as traquinagens, pois ainda hoje dá boas gargalhadas com o fato.

Outra história que marcou o velho músico ocorreu em 1943, na despedida de um pelotão araçatubense que iria seguir para a Itália, na Segunda Guerra Mundial. O capitão do Exército convocou a banda para tocar no estádio municipal, mas Filó não compareceu. Precisava trabalhar. Ao fazer a chamada dos músicos, o capitão percebeu a ausência do clarinetista e ordenou que fossem buscá-lo. Foram de carroça de campanha puxada por três mulas. E para que o faltoso não fugisse, dois oficiais, um soldado e um cabo o esperaram no quarto para que colocasse o uniforme. "A carroça era igualzinha a de filmes de faroeste", recorda-se.

De música, gosta de Orlando Silva, Carlos Galhardo, Nelson Gonçalves, Vicente Celestino. Ouve também Paulo Moura e Chico Buarque. Dispensa os sertanejos - "é fogo", resume, em tom de reprovação. Mas gosta mesmo é de chorinho (cita Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Dunga).

Hoje, Orlando Filó, no alto de seus quase 90 anos, conta que depois de anos sem tocar seu clarinete, decidiu voltar a estudar música "para não pirar". Faz exercícios com o instrumento de sopro sozinho, utilizando um método que possui. Só para tocar chorinho, seu gênero predileto. Mas no ambiente doméstico, em família, sem coretos nem circos.

Um comentário:

  1. Amei a matéria, pois sou neta do maestro Luiz Maisano e conheçi muito pouco do meu avô paterno e é interessante ver como gostos se repetem por gerações, como gostar de amendoim rs, meu pai Ismar Maisano, também carregava em seu bolso os amendoins rs, eu também gosto muito, muito legal saber que ele fez parte da história e da vida do músico Filó.

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