quarta-feira, 20 de julho de 2011

Má conduta entre pesquisadores


Pesquisa desenvolvida na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP mostra que a pressão por publicações feita pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) sobre os pesquisadores gera condutas antiéticas. “Quem não publica muito pode ser responsável pela redução da nota do curso e, por consequência, pode ser retirado do programa”, afirma Jesusmar Ximenes de Andrade, autor do estudo, defendido como tese de doutorado em abril, sob orientação do professor Gilberto de Andrade Martins.

Andrade levantou por meio de um survey — uma pesquisa quantitativa —, a opinião de 85 pesquisadores presentes no Congresso USP de Controladoria e Contabilidade de 2009, ocorrido na FEA. No questionário do levantamento foram apresentados 18 comportamentos antiéticos e os entrevistados deveriam dizer a frequência com que haviam tomado conhecimento de alguma daquelas práticas e a frequência com que acreditavam que os mesmos comportamentos ocorriam. Por fim, foram questionados quais seriam os fatores que levariam à prática de tais comportamentos. Após a aplicação do questionário, Andrade entrevistou oito pesquisadores experientes, por meio de entrevista semi-estruturada, para analisar as respostas e indicar outras possíveis interpretações aos dados.

Um dos fatores indicados como incentivadores de más condutas foi a grande necessidade por publicações. “É algo que merece reflexão da própria Capes e de toda a comunidade científica. É melhor ter quantidade ou qualidade? Publicações com qualidade exigem tempo para serem produzidas”, afirma. Andrade ressalta que o questionamento não é ao papel da Capes. “Associado aos mecanismos atuais outros deviam ser pensados para equilibrar quantidade e qualidade. Isso na contabilidade é particularmente importante, já que não temos uma boa qualidade de revisores”.

De acordo com os resultados do questionário, a má conduta existe, mas não com muita frequência. Porém, segundo Andrade, “só o fato de existir já é um alerta. Ainda que ocorra pouco, é preciso buscar que não aconteça nunca”.

Coautoria e bibliografia
Entre as condutas mais citadas nas respostas está o fato de pesquisadores creditarem outros como coautores sem que estes tenham contribuído para o trabalho. Isso com o intuito de que, em outra pesquisa, haja a retribuição do favor. “Pesquisadores que fazem isso podem ter vantagem em concursos públicos ou em indicações para projetos de pesquisas pois teriam mais publicações que outros”, explica Andrade. Outra prática bastante recorrente é a citação de obras que não foram lidas na bibliografia para fazer parecer que o trabalho tem um maior embasamento teórico.

Ainda segundo ele, o que mais chamou a atenção foi que os entrevistados acreditavam que a frequencia de má conduta era maior do que eles diziam ter conhecimento. “Concluo que ou eles conhecem pouco porque de fato há pouca má conduta ou que, ao falar das suas crenças, eles se incluíam na análise, o que indicaria que eles pudessem ter cometido alguma prática antiética. Mas isso é apenas especulação”, diz.

Segundo Andrade, a importância do trabalho se deve ao fato de a pesquisa brasileira em contabilidade ser muito recente. “Se a ética não for pensada agora que o conhecimento na área está apenas começando a ser produzido, podem surgir vícios difíceis de eliminar no futuro”, afirma.

Sobre a discussão da ética em outras áreas, o pesquisador diz que a saúde tem a discussão bem consolidada, com estudos antigos sobre o assunto. Porém, o fato de a discussão ainda estar presente o faz crer que ainda exista problemas éticos na área. “Inclusive, algo que me fez pensar foi: se na área da saúde, em que uma atitude antiética pode ter graves consequências, elas ainda existem, imagine na contabilidade, cujas consequências não seriam tão impactantes?”, questiona.

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