terça-feira, 26 de julho de 2011

Insuflando Adágios

Cecilia Ferreira

(Você se lembra de Luzia, que terça-feira passada esteve aqui contando como veio do campo pra cidade pra tratar da saúde? Pois é, quer dar uma lida no resto do causo? Deixa que eu Conto)

Esperou festiva mais aquele junho de nédios santos e plenas esperanças.
Na cidade, o início, foi pena para a mãe. Veio a aprender no hospital que fogo queima oxigênio e resseca o ar.

Lembrava-se bem, no primeiro junho sob o vão que agora ocupavam, tendo achado santo de pé quebrado nas andanças carroceiras, o pai quis fazer altar pra que sua ajuntada acendesse velas em honra do poder maior, quando o médico ensinou que santo de casa além de não fazer milagre não tem poder pra impedir fogo de consumir o oxigênio.


Por continuar acreditando nos santos, como em promessa ser dívida, restou-lhes aguardar o cumprir dos homens de lei: a partir de tal data nada mais seria queimado, cerne de flora, ou de fauna.

Homens eram fauna, achara graça Luzia ao encontrar essas palavras noutro livro. Agradeceu em suas orações ter aguentado chegar ao ano da promessa: seriam mais caminhões a carregar plantio, mas muito menos fumaça; que sem queimadas o fogo que arderia estaria mais nas ganâncias insatisfeitas do que nos campos.

E, já que uma andorinha só não faz verão, deu de prometer alegrias também. Quando sarasse, disse à enfermeira, viesse o que viesse, nunca, mas nunquinha, nunquinha mesmo, insistiu, iria morar longe dos pais que lhe faziam a vida mais doce.

Veio a cirurgia, a alta precoce (que pobre não cobre leito com erva verde) e a recomendação médica: além dos comprimidos, deixem que a menina, como o nome, pra fazer mais luz, tome muito ar. Nada mais fácil de providenciar num lar descortinado por natureza.

Tristeza foi o prejuízo do catador, naquele São João de manjericão repleto de latinhas e garrafas pets que rendidas aos encantos de outros carroceiros diligentes não puderam aguardar por ele.

De lucro, dos muitos cravos e crisântemos, só a beleza depositada na caixinha que a mãe pintou de branco e bordou em florinhas azuis, coroas de lágrimas secas.

A urna recheada com o silenciado tesouro, ficou bonita, enfeitada que só vendo.

O corpinho nem esfriava tanto era o cobertor de flores funéreas oferecidas por floristas conhecidos. Coisa de se pagar a perder de vista.

Luzia não foi chorada porque a desgraça foi grande, e mesmo não sendo bobagem, quem quer chorar defuntinha pobre de dar dó?

Na tosse contínua daquela noite os pontos se esgarçaram nela como na blusinha preferida, ambas puídas no esforço de se manterem limpas.

A hemorragia deu pano pra manga, tanto que sobrou para toda a mortalha, explicaram ao viandante quase amigo.

A noite da partida da menina foi bonita, disse o mendigo, vocês devem ter ficado contentes, escuridão de noite iluminada...

E como o silêncio calasse raso continuou consolador: quero ter morte assim, luzinhas aos milhares, cada pé de cana-de-açúcar? uma vela..., viram que escalão de chegar aos céus?, rolos cor de chumbo grandes e largos feito uns degraus de escadaria de palácio santo, bonito mesmo!

Na urbanidade incrustada entre campos nunca ninguém descobriu quem, durante algum tempo ia de igreja em igreja (entre a cata de uma latinha e outra) soprando velas votivas (e fazendo secretamente orações pela lucidez dos homens).
Coisa do demo, gritavam as beatas da pacata cidade cercada de plantações de cana.

Na ousadia crescente, por fim, na noite em que juntos tentaram vencer mais do que a combustão de velas em um canavial próximo demais, um vento de trivela os conjugou em brasas. Restou do casal apenas o carvão.

Tão afeitos a certos provérbios, como foram se esquecer de mais prevenir e menos remediar, perguntaram os floristas no prejuízo.

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