terça-feira, 19 de julho de 2011

Em Araçatuba, maioria é da classe média

Por Sérgio Teixeira

Faculdade para os filhos, casa própria e carro na garagem eram desejos impraticáveis para muitos araçatubenses no início da década de 1990, quando a classe média nacional respondia por apenas 31% da população brasileira. Mais de 20 anos se passaram e o Brasil continua sendo um país de desigualdades, mas a porta da ascensão social está aberta. Em Araçatuba, a classe C responde hoje por 61,82% dos habitantes, mais do que a média nacional de emergentes, de 55%.

O estudo é da FGV (Fundação Getúlio Vargas), que considera em sua classificação de classes econômicas a renda domiciliar mensal total de todas as fontes (todas as pessoas com renda e que vivem na mesma casa). Na classe E, estão as famílias com ganhos mensais de R$ 0 a R$ 751, na D, de R$ 751 a R$ 1,2 mil, na C, de R$ 1,2 mil a R$ 5.174, na B, de R$ 5.174 a R$ 6.745, e na A, R$ 6.745 ou mais (veja quadro).


Em números absolutos, a classe média araçatubense é formada por pouco mais de 112 mil habitantes, que se enquadram no rendimento familiar entre R$ 1,2 mil e R$ 5.174, ao mês. Esse grupo intermediário na economia supera as demais divisões sociais do município, compostas por 19,93% de pobres e remediados (36,1 mil habitantes), das classes E e D, e por 18,21% da elite local (33 mil), das classes A e B.

Economistas ouvidos pela Folha da Região indicam que a participação maciça da classe média nos municípios brasileiros é resultado do novo cenário econômico do país, a partir do Plano Real e do controle da inflação. Com a retomada da força da moeda, cresceu também o poder de compra do trabalhador e mais pessoas deixaram de ser pobres.

REFLEXOS
A participação da classe média araçatubense no crescimento da construção civil é significativa. Dados da Caixa Econômica Federal mostram que nos primeiros cinco meses deste ano o banco investiu R$ 91,3 milhões em moradias em Araçatuba. Do total de recursos disponibilizados pelo banco, R$ 68 milhões foram para moradias de até R$ 100 mil, que se enquadram no Minha Casa Minha Vida. O programa habitacional atende famílias com renda de 0 a 10 salários mínimos, incluindo neste bolo a classe C.

Outro reflexo dos emergentes é a existência em Araçatuba, proporcionalmente, de mais veículos do que a Capital Paulista. Levantamento recentemente divulgado pela Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados) aponta que a cidade possui um veículo para cada 1,48 habitante, ou três habitantes do município para cada dois veículos, enquanto o índice da capital paulista é de 1,76.

O resultado é atribuído ao aquecimento do setor automotivo nos anos de 2009 e 2010, estimulado pelos incentivos fiscais, facilidade de crédito ao consumidor e aumento dos ganhos médios. Neste último aspecto, o rendimento médio do araçatubense aumentou em 120% na década passada, de R$ 643, no ano 2000, para R$ 1.417, em 2010.

APOSTA
Em Araçatuba, uma família apostou no ensino para hoje estar na classe C. Na casa da jornalista Bia Beatriz Bugiga, 43 anos, as estantes e mesas estão tomadas por livros universitários dela e das filhas Barbara Franchesca do Nascimento, 19, e Carla Andressa do Nascimento, 18. As três estão cursando faculdade, investimento que já rendeu para Barbara a primeira assinatura na carteira de trabalho, no cargo de assessora de imprensa de uma instituição de ensino.

Bia explica que sua história de vida começou na classe baixa, mas que seus pais sempre a incentivaram a estudar, acreditando que a educação poderia alterar positivamente a realidade econômica. "Eu e meu esposo sempre passamos para as nossas filhas que a educação faria com que elas conseguissem uma melhor sustentabilidade financeira", afirma. As palavras da mãe e do pai se tornaram realidade.

"Se eu não tivesse ingressado na faculdade, dificilmente eu estaria empregada nessa função, que me possibilita um bom salário e estabilidade", diz Barbara. "A classe média hoje planeja como vai adquirir seus bens materiais e imateriais, resultado do esforço que fez ao longo dos anos, e também como irá garantir a permanência ou ascensão", completa, ressaltando que o termo "ascensão", neste sentido, está relacionado com a meta de "viver bem".

EMERGENTES
Os dados sobre as estatísticas das classes sociais de Araçatuba constam na pesquisa "Os emergentes dos emergentes", da FGV (Fundação Getúlio Vargas). O título do estudo é uma referência à ascensão da classe média e ao papel de destaque que a economia brasileira está impondo junto a outros países emergentes do mundo, como China e Índia.
Segundo o economista Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da FGV, 13,3 milhões de brasileiros foram incorporados às classes ABC nos últimos 21 meses. "Desde 2003, 48,7 milhões de pessoas, mais do que a população da Espanha, foram agregadas a estas três classes", afirma Neri, ressaltando que uma das novidades do estudo é o mapeamento das cidades brasileiras.

Para o economista, além do aumento da renda do brasileiro e estabilidade inflacionária, o investimento em ensino também tem papel importante. "Por traz desses fatores, está também a educação, pois nossa pesquisa mostra que só pelo efeito dela, se tudo ficasse constante, a renda do brasileiro cresceria 2,2% ao ano", completa.

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