quinta-feira, 21 de julho de 2011

Diário Incendiário

Por Cidinha Baracat

Não sei o que é ter avô ou avó. Não os conheci, e deles sei quase nada. Se deixaram algum diário ou registro de suas vidas, não me chegaram às mãos. Não sei como se chama essa orfandade, mas é uma lacuna impreenchível. Tento ser boa avó de meus oitos netos, mesmo sem um modelo avoengo que me possa inspirar.

Talvez por isso tenha chamado minha atenção o título “O Diário de Vó Lina”, do livro que minha querida amiga e ex-aluna Emília Goulart acaba de publicar e a cujo lançamento não pude comparecer.

Li-o de uma assentada. Escrever romances é tarefa nada fácil. Urdir uma trama coerente, torná-la verossímil no contexto espacial e temporal, despertar o interesse do leitor pelo conflito das personagens e conduzir a um desfecho plausível requer habilidade e perspicácia. Um exercício eterno em busca da melhor expressão formal e conteúdo substancial, um desafio literário que poucos lograram vencer. Uma ousadia, enfim, que a Emília corajosamente enfrentou.


De forma despretensiosa, num estilo simples e despojado de qualquer sofisticação literária, a autora desfaz o novelo de vidas que a vida entrelaçou. E, ao desfazê-lo, desconstrói e destrói dois mitos: o da “vó Lina”, narradora do passado, e o da família perfeita de Denise, narradora do presente.

Ambos os mitos eram belos. O da mulher abnegada e desprendida, que abdicou de si para ajudar pais e irmãos, que se violentou para ser perfeita acaba por esfacelar-se justamente por meio da arma utilizada para embalsamar o passado: seu diário. E o mito da família feliz e bem estruturada, erigida sobre o alicerce da renúncia de vó Lina, termina por desagregar-se, ferido de morte pela mesma arma: o diário, que acaba sendo o personagem principal da trama novelesca, epicentro do conflito presenteXpassado, vilão inconsciente da queda irreparável da suposta neta inconsolável.

Duas narradoras e um diário conduzem as ações. De permeio, considerações de ambas as narradoras sobre a vida e a morte, os encontros e desencontros, a paz e a guerra, o amor e o desamor, a verdade e a fantasia. Tristezas se amontoam sobre desgraças, e o fio da esperança é tão frágil que acaba por romper-se completamente.

Meus avós não deixaram o relato de suas vidas, com suas grandezas e misérias. Eu gostaria de tê-los conhecido dessa forma. Contudo foi melhor assim. Posso imaginá-los como eu quiser, bruxos ou magos, santos ou demônios. No fundo, apenas seres humanos, cuja herança, boa ou má, ficou em meu DNA.
Valeu, Emília! Que venham outros escritos, espero que menos trágicos. Imagino quanto lhe doeu destruir tantas ilusões, você que sempre me pareceu tão meiga e pacificadora. Ou será isso também um mito, que um diário mais revelador de sua verdadeira essência poderia um dia demolir? Se esse diário existir, não quero lê-lo.

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