terça-feira, 5 de julho de 2011

50 anos sem Hemingway

Por Talita Rustichelli

Em um cenário de descontentamento após a Primeira Guerra Mundial encontrava-se um dos grandes nomes da literatura americana e mundial: Ernest Miller Hemingway, autor de obras famosas como "O velho e o mar", "Por quem os sinos dobram" e "Adeus às armas".

Hoje, exatamente após 50 anos de sua morte, um dos escritores de mais destaque da literatura americana deixa uma obra de cerca de 20 livros publicados, entre romances e não-ficção, além de contos.

Como jornalista, recebeu o prêmio Pulitzer em 1953 e, no ano seguinte, recebeu o Nobel de Literatura por  sua obra. Em 2 de julho de 1961 suicidou-se com um tiro de espingarda.


"É impossível pensar em Literatura Americana e não considerar Ernest Hemingway. Ele fez parte de uma geração de artistas que viveu o descontentamento e a decepção do pós-Primeira Guerra Mundial", afirma a professora de língua inglesa e de Literatura Americana, Patrícia Bértoli Dutra.

A decepção veio, segundo ela, porque os americanos acreditavam que aquela seria a guerra que terminaria com todas as guerras, o que não aconteceu. "Além disso, os EUA transformaram-se em grande potência, o que influenciou no modo de vida dos americanos, que passaram a ter mais do que o necessário e substituíram o interesse pelas artes e cultura por bens de consumo. Com isso, os artistas sentiam-se despatriados, daí o nome 'Geração Perdida'", explica.

Hemingway nasceu em 1899, em Oak Park, Illinois (EUA) e cresceu em contato com o ambiente rude da zona rural, onde seu pai atuava como médico. Na mesma cidade, concluiu o segundo grau e iniciou a carreira como jornalista.

Na década de 20, em Paris, teve contato com diversos artistas, como Juan Miró, Pablo Picasso, James Joyce e Ezra Pound, através da poetisa americana Gertrude Stein, que realizava em sua casa eventos artísticos, como saraus literários, exposições, entre outros. A escritora recebia ainda outros artistas americanos que, junto aos outros, compunham o grupo que ficou conhecido como "Geração Perdida", termo cuja criação é atribuída a ela.

O escritor trabalhou como correspondente de jornais americanos na Europa, especialmente sobre assuntos relacionados à guerra. Trabalhou como correspondente de guerra em Madrid durante a Guerra Civil Espanhola, o que lhe rendeu o livro "Por quem os sinos dobram", publicado em 1940. Viveu na Espanha por quatro anos, onde estabeleceu uma relação emotiva e ideológica com os espanhóis e, fascinado pelas touradas, torna-se toureiro amador.

ÍCONE
Patrícia afirma ser leitora fiel das obras do autor. "Eu adoro Hemingway e sempre busco informações sobre ele. Visitei, por exemplo, a casa onde ele viveu em Key West (Flórida, EUA), onde ele mantinha criação de gatos raros (gatos de 5 dedos), com uma adega farta de vinhos e um banheiro, no segundo andar, onde o vaso fica em frente a uma janela que, escancarada, possibilita uma vista maravilhosa para o mar. Dizem que, do lugar, com um binóculo, pode-se ver Cuba", conta.

Cuba, aliás, foi uma das grandes paixões de Hemingway, que viveu no país por 21 anos, entre 1939 e 1960. Na cidade de Havana, o hotel Ambos Mundos, mostra aos visitantes o quarto onde Hemingway passou os primeiros meses no país. No quarto há objetos do escritor, como uma a máquina de escrever, óculos, uma roupa de pescador e uma jaqueta de toureiro.

JORNALISMO
Pelo fato de ter exercido a profissão de jornalista, Hemingway adota em sua obra características do texto do gênero, ou seja, narrativas claras, diretas e com vocabulário simples. Para Patrícia, o autor trabalha com a subjetividade disfarçada de simplicidade.

"Hemingway está, de fato, entre os meus autores favoritos, especialmente porque, embora seja uma leitura que flui com facilidade, há sempre um retrato sobre as adversidades da vida de uma maneira bem realista, sem grandes esperanças".

Conforme Patrícia, grande parte de seus romances não apresenta um final feliz, mas um final reflexivo. "E é isto que mais me chama a atenção nas obras dele: o elo com a realidade". Além disso, conforme a professora, seus personagens são autênticos, em geral pessoas de coragem e honestidade que lidam com a brutalidade da vida e da sociedade, muitas vezes retratados como soldados, atiradores, toureiros, caçadores e pescadores.

A professora afirma ainda que, embora "O Velho e o Mar" (1952) e "Por quem os Sinos Dobram" (1940) sejam dois de seus melhores livros, ela prefere "O sol também se levanta" (1926), um dos primeiros publicados pelo escritor. "Gosto porque retrata mais o personagem urbano, vítima do pós-guerra, cheio de indecisões e tendo que se adaptar à sua impotência frente a revoluções sociais como o liberalismo feminino", diz.

Primeira edição de ‘O Velho e o Mar’
"Tudo o que nele existia era velho, com exceção dos olhos que eram da cor do mar, alegres e indomáveis". Assim é descrita a personagem principal de uma das obras mais conhecidas de Ernest Hemingway, "O Velho e o Mar" (The Old Man and the Sea, no original em inglês), escrito durante o ano de 1951, em Cuba (onde também se passa o enredo do livro), e que teve sua primeira edição publicada em 1952.

O livro conta a história de Santiago, um velho pescador cubano experiente, que é desafiado por colegas mais jovens e sai ao mar aberto de Havana para provar-lhes que, apesar da idade, ainda consegue realizar uma boa pescaria. Porém, acaba ficando 84 dias sem fisgar peixe algum, mas persiste e luta para sobreviver aos perigos do mar, solidão e ações da natureza. No 85º dia, consegue um peixe de aproximadamente cinco metros de comprimento, com o qual tem de lutar para dominar. Após conseguir amarrá-lo em sua canoa, sofre vários ataques de tubarões e, quando finalmente chega à praia, resta apenas o esqueleto do peixe espada (marlin).

Patrícia afirma ter lido a obra mais de uma vez, em português e uma em inglês, e acha a obra formidável. "O velho pescador, numa situação de azar, passa a refletir sobre sua vida e as decisões que vem tomando, quando se vê diante de um grande desafio: levar um marlin sozinho em seu pequeno barco, tendo que enfrentar tubarões e encontrar seu caminho de volta dependendo apenas do vento e da correnteza. Embora pareça simples, é uma leitura complexa, pois é uma obra filosófica, já que nos levar a refletir sobre nossos conceitos e nossas escolhas ao longo da vida e aquilo que deixamos que nos leve adiante", afirma a professora.

FILME
Em 1958, o livro ganhou as telas do cinema, com o mesmo título. Protagonizado pelo ator Spencer Tracy, o longa metragem de 86 minutos teve a direção de John Sturges, e contou ainda com atores como Felipe Pazos, Harry Bellaver e Don Diamond. A filmagem conquistou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Ator no National Board of Review, em 1958, e o Oscar de melhor trilha sonora (composta por Dimitri Tiomkin). Além deste, outros livros também ganharam versões cinematográficas, como "Adeus às armas", "Por quem os sinos dobram" e "As Neves do Kilimanjaro".

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