terça-feira, 26 de julho de 2011

4,75% dos araçatubenses se dizem pretos

Por Sérgio Teixeira

O número de moradores que declaram ter a pele da cor preta representa apenas 4,75% da população de Araçatuba, ou 8.634 pessoas, mostra o Censo 2010. O porcentual local desta etnia é menor do que o registrado em toda a população nacional, na qual 7,61% afirmam ser negros. No entanto, a Associação Cultural Afro-brasileira de Araçatuba e a Secretaria Municipal de Participação Cidadã afirmam que os dados não refletem a realidade.

"Há afrodescendente que se declara branco temendo tratamento diferenciado. Isso para nós é sintoma de uma doença social chamada preconceito", afirma o secretário municipal de Participação Cidadã, Alex Lapenta. Para ele, a quantidade reduzida de pessoas que se declaram negras, num País que foi povoado por milhões de escravos africanos durante três séculos, reflete um contexto histórico de opressão contra o afrodescendente.


Em Araçatuba, os brancos compõem o maior contingente racial, com 118.223 pessoas (65% da população). Já a cor parda foi declarada no Censo 2010 por 50.242 habitantes (28%). Em dez anos, a população de pardos foi a que mais cresceu em Araçatuba, com variação de 23,6%, de 40.626 para 50.242 pessoas, conforme os dois últimos censos demográficos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

O presidente da Associação Cultural Afro-brasileira de Araçatuba, Joaquim Januário Pereira, afirma que o número de pretos é maior, mas o "preconceito velado" colabora, muitas vezes, para que a pessoa não reconheça a própria identidade. "O censo colocou a cor parda para disfarçar, pois, em minha concepção, o pardo não existe. No meu registro de nascimento está a cor parda, mas eu sou negro", diz.

INFLUÊNCIA
A participação numérica pequena dos negros, quando comparada aos brancos e pardos, pode ser explicada por estudo divulgado na semana passada pelo IBGE, que mostra que 63,7% dos brasileiros reconhecem a cor como fator de influência no mercado de trabalho, na relação com a polícia e a justiça, no convívio social e na escola. A pesquisa entrevistou cerca de 15 mil domicílios, em cinco Estados, incluindo São Paulo.

"Avalio que a relação com a polícia e com o Poder Judiciário é a que traz maiores prejuízos à população negra", afirma Lapenta. O secretário também diz que o não reconhecimento da raça, muitas vezes, é resultado do mercado de trabalho. "É evidente que o número de negros ocupando cargos de comando é bem reduzido e, se buscarmos mulheres negras, o número praticamente deixa de existir."

Pereira defende a efetivação de políticas públicas para favorecer o reconhecimento por parte da população brasileira de suas origens afrodescendentes, porém, aponta que esta aceitação deve começar dentro de casa. "Se a pessoa tem vergonha de dizer a sua etnia, ela não gosta de si", justifica. "Não somos iguais, mas temos que gostar da gente."

A investigação sobre a cor de pele da população brasileira começou de forma ampla no ano de 1872, quando ocorreu o primeiro censo demográfico no País. Na época, a pesquisa tinha quatro opções de resposta, branco, preto, pardo ou caboclo, que foram modificadas ao longo das décadas. Na edição do ano passado, a investigação abordou as raças branca, parda, preta, amarela e indígena.

MOBILIZAÇÃO
Criado em setembro de 2010 pela Secretaria Municipal de Participação Cidadã, o Fórum da Construção da Consciência Negra de Araçatuba se reúne mensalmente para propor ações para mobilizar o negro da sua condição no País e na cidade. A iniciativa é apontada pelo secretário Alex Lapenta como um dos trabalhos de sua pasta para combater a discriminação racial dos afrodescendentes.

"Um trabalho de muita relevância assumido pelo fórum foi o de implantar no município de Araçatuba a lei federal 10.639/03, que determina a inclusão no currículo oficial na rede de ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-brasileira", explica Lapenta.

Para o secretário, inserir o tema na sala de aula é importante para "transformar a realidade e construir uma sociedade que seja verdadeiramente igualitária."

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