quinta-feira, 30 de junho de 2011

Turismo científico é opção para Araçatuba

 Por Roelf Cruz Rizzolo

Quem como eu já mora nesta cidade há um bom tempo, deve estar familiarizado com as infrutíferas tentativas de transformar Araçatuba numa Estância Turística. Não tenho certeza, mas é bem provável que todas as administrações municipais que se sucederam nos últimos 25 anos tenham tentado conseguir esse status. Como sabemos, sem nenhum sucesso.

Não é de fato fácil reconhecer em Araçatuba as características necessárias que a transformem em polo de atração turística. Quem nos visita a partir da nossa rodoviária não deve ter uma impressão positiva. E descobrir que esse mesmo prédio mal cuidado é a sede do governo municipal não ajuda muito.


Desde o ponto de vista urbanístico, não se observa um planejamento definido, nem um desejo real -salvo poucas e honrosas exceções nascidas fundamentalmente a partir de iniciativas individuais - de criar espaços públicos que embelezem a cidade. Aqui, como na maioria das cidades do Brasil, priorizamos os espaços particulares - casas, condomínios, ranchos - em detrimento do espaço público, que em vez de ser de todos, parece ser de ninguém. Mas turistas visitam cidades, e não fazendas ou clubes particulares.

Em termos de belezas naturais, décadas de uma economia baseada na produção extensiva de gado seguido agora pela monocultura de cana-de-açúcar, transformaram nossa paisagem natural nisso que vemos no longo trecho da Rodovia Marechal Rondon, praticamente a partir de Bauru: um enorme oceano de pastagens e cana, com quase nada de mata nativa. Já a parte que nos toca do rio Tietê é de difícil acesso e parece não representar atrativo suficiente para trazer turistas.

É difícil enxergar uma solução a curto prazo para resolver esses problemas. Transformar a cidade mediante um plano urbanístico que priorize os espaços públicos, embora necessário, pode levar décadas e recursos que não existem, além de uma mudança de mentalidade. Recuperar o meio ambiente já tão degradado é também uma medida necessária, mas na pouco crível hipótese que venha a ser implementada os resultados começariam a aparecer apenas em décadas.

Nesse contexto, a opção de turismo científico faz um enorme sentido. Algumas cidades do mundo fazem desse tipo de turismo temático um forte chamariz.

Já mencionamos aqui o caso de Valencia, na Espanha, que possui cerca de 800 mil habitantes. A partir das últimas décadas do século 20 via sua economia decair e o número de habitantes diminuir. Entre as opções para reativar a economia, as autoridades valencianas construíram a “Ciudad de las Artes y de las Ciencias”, um belíssimo conjunto arquitetônico onde, como o nome indica, o visitante passeia entre instalações científicas e artísticas de todos os tipos.

Até 2003 (o complexo foi inaugurado em 1998) já tinham sido investidos 400 milhões de dólares. Mas o retorno foi extraordinário. Em quatro anos, só o museu de ciência tinha recebido sete milhões de visitantes.

Além disso, a cidade capitalizara 500 milhões de dólares em investimentos desde que o centro fora projetado. Foram construídos mais de 30 hotéis, cinco mil apartamentos e um shopping. Com isso, foram gerados em torno de 16 mil empregos diretos, além dos benefícios indiretos.

Todos esses números são de tirar o fôlego, e não temos a utópica pretensão de imaginar em Araçatuba algo dessa magnitude. Mas ilustra como esse tipo de projeto pode conciliar educação, cultura, turismo e dinamismo econômico.

E não é exclusividade dos países ricos. Existem experiências semelhantes em México, Colômbia ou Uruguai, países com realidades sócio-econômicas semelhantes às nossas, e vários no Brasil. Em Porto Alegre, por exemplo, uma das principais atrações turísticas é o Museu de Ciências e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica.

Em São Paulo, o Espaço Catavento faz parte de um roteiro de turismo científico que inclui planetários, aquários e centros ligados à USP, como a Estação Ciência. Brotas, que fica aqui pertinho, também investe em um turismo semelhante, através do projeto CEU.

Anos atrás pensamos em uma solução similar para nossa cidade, em parceria com a Unesp. O projeto arquitetônico, encomendado a um dos principais arquitetos museológicos de São Paulo, pode ser visto em nosso blog ciencia.folhadaregiao.com.br, junto com os outros centros citados neste artigo.

Um espaço como esse, parceria entre a Unesp, o poder público e a iniciativa privada, poderia dar a nosso município o atrativo diferencial para torná-lo polo turístico regional, com o concomitante incentivo à atividade econômica. Além de um espaço difusor da cultura da ciência, peça fundamental para a construção das “sociedades do conhecimento”, poderia ser o espaço para que a indústria local exibisse seu compromisso com a ciência, a tecnologia e a inovação.

Enfim, trata-se de um projeto moderno e inovador, que em cinco anos poderia estar já funcionando e transformando nossa realidade. Uma proposta concreta de educação e desenvolvimento científico e tecnológico. Um passo certo em direção ao progresso aliando educação, inovação e sustentabilidade.

Como aconteceu há 100 anos, o trem da história pode passar por aqui. Resta esperar que encontremos os novos “fundadores”.

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