quinta-feira, 30 de junho de 2011

Região tem mais de 37 mil analfabetos

Por Sérgio Teixeira

A região de Araçatuba tem 37.126 pessoas em situação de analfabetismo. O porcentual de moradores que não sabem ler nem escrever chega a 6,2% nos 43 municípios regionais, superando o índice do Estado de São Paulo, de 4,3%. Profissionais da educação avaliam as estatísticas locais como "assustadoras". Para se ter uma dimensão do problema, os analfabetos superam a população de Guararapes.


Os dados foram divulgados pelo Censo 2010, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Segundo a pesquisa, o maior contingente de analfabetos mora em Araçatuba, 5.695 no total. No entanto, este montante corresponde a 3,8% do público com mais de 15 anos de idade recenseado, formado por 147.722 araçatubenses. Isso confere à cidade o menor índice de analfabetismo da região, abaixo também da média estadual.

Lavínia tem 15,1% de seus habitantes em situação de analfabetismo, o maior índice regional e superior ao de países como Jamaica (9,8%) e República Dominicana (12,9%). No total, são 1.179 pessoas que não sabem ler num grupo de 7.768 pesquisados. O coordenador geral de educação de Lavínia, Douglas Longhini, foi informado sobre este dado pela Folha da Região e disse estar "abismado".

Para Longhini, o alto índice pode estar relacionado à população carcerária de Lavínia, cujas penitenciárias também foram recenseadas pelo IBGE. "Você não vai achar esse número na população geral do município. Estou para te dizer que nós não temos 150 analfabetos na cidade [desconsiderando os presos]", afirma o coordenador.

Longhini ressalta ainda que o município oferece a EJA (Educação de Jovens e Adultos), com 25 estudantes atualmente matriculados. Para analisar de forma mais precisa as estatísticas do censo, identificando onde estão os analfabetos, ele diz que irá aguardar a consolidação dos dados e a divulgação das informações por setores municipais. Segundo o IBGE, esta etapa deverá ocorrer no próximo semestre.

ASSUSTADOR
Marlene Pinheiro Ghetti, mestre em Educação, analisa o número de analfabetos da região como reflexo da migração. "Eu percebo que temos muitos analfabetos pelo grande número de migrantes que vieram para a região pelo corte de cana", afirma, considerando o dado divulgado pelo IBGE como "assustador".

Marlene explica que boa parte dos analfabetos tenta esconder que não sabe ler nem escrever. "Eles não têm culpa, pois são vítimas. Eles não devem esconder esta situação, mas, sim, buscar as escolas", ressalta a educadora.

Sobre como os educadores configuram atualmente uma pessoa em situação de analfabetismo, Marlene explica: "Não basta escrever. É preciso ler e entender, fazer uso social da língua. Alguns analfabetos conseguem 'desenhar' o próprio nome, mas não tem domínio nenhum da língua."

A mestre em Educação alerta que o analfabetismo aumenta a exclusão social, pois limita o sucesso pessoal e profissional, criando grupos dependentes das políticas sociais para poderem sobreviver. A solução para erradicar este problema, segundo ela, depende de um trabalho conjunto de todos os setores. "Todos somos responsáveis e temos que assumir esse compromisso", defende.

DIFICULDADES
Os índices de analfabetismo escancaram as desigualdades sociais do País, mas não são suficientes para revelar os problemas cotidianos que uma pessoa com o mínimo ou nenhum domínio da Língua Portuguesa acaba enfrentando. "Sentia falta de saber ler. Às vezes, quando ia assinar transferência de terreno, tinha problemas", afirma o pintor de residências Gilberto da Silva, 48 anos.

Quando era criança, Silva chegou a estudar até a segunda série, mas parou para poder trabalhar. No entanto, o passado de pouco conhecimento no mundo da escrita já se transformou numa página virada em sua vida. Atualmente, ele cursa o termo 2 da EJA (3ª e 4ª séries do fundamental) na escola municipal Lauro Bittencourt, no bairro Jardim TV, em Araçatuba. "Não vou mais parar de estudar. Quero terminar agora o ensino fundamental", garante o pintor.



Força de vontade move adultos que querem aprender a ler e escrever

Na cidade que ostenta o menor índice de analfabetismo da região, a força de vontade é o principal ingrediente dos adultos que decidiram voltar a estudar. São 680 estudantes da EJA (Educação de Jovens e Adultos) matriculados atualmente nas escolas municipais de Araçatuba, número 79% maior que o registrado em 2008. Para conhecer um pouco desta realidade, a Folha da Região visitou esta semana uma sala de aula da EJA na Emeb (Escola Municipal de Educação Básica) Francisca de Arruda Fernandes, no bairro Aviação.

A aposentada Francisca Maria da Silva, 64 anos, caminha quase dois quilômetros todos os dias para estudar. Nascida em Pedra Branca (CE), a moradora conta que veio ainda jovem com a família para o Estado de São Paulo. Desde cedo, teve que trabalhar na lavoura, situação que a impediu de continuar sua formação escolar.

"Aprendi a ler um pouco, mas os anos foram se passando e esqueci como ler e escrever", explica Francisca. Agora, como não tem tantos compromissos, ela decidiu voltar a estudar. Aos poucos, a aposentada descobre como a educação pode mudar pequenas coisas do seu cotidiano. "Eu sempre quis ler a Bíblia e já estou conseguindo ler alguns trechos. Meu maior sonho é ler o livro sagrado por inteiro", afirma.

LUTADORA
Quem também dá duro para estudar é a empregada doméstica Eliana Maria Santos, 45 anos. Ela acorda às 6 horas para poder chegar cedo ao serviço, onde trabalha de manhã e à tarde. Após deixar a casa da patroa arrumada, por volta das 17 horas, ela ainda vai numa academia para ter aulas de Muay thai. Depois disso, ela ainda tem forças para ir à escola, onde está aproveitando agora a oportunidade que a vida a tirou na infância.

"Comecei a trabalhar na roça quando tinha 8 anos. Carpia, colhia algodão e ajudava no milho. Era muito cansativo. Na época, a escola mais perto ficava a 15 quilômetros", explica Eliana. Ela vivia em Iturama (MG). "Foi a minha vizinha Rosângela que fez a minha matrícula na EJA. Era ela quem me ajudava a ler as coisas que eu não entendia. Hoje, sou muito grata a ela e tenho orgulho de saber ler e escrever", completa.

PERSISTÊNCIA
A dona de casa Fidelina Tertuliana de Assis Silva, 66 anos, nasceu no distrito de Argoim (BA). Na época, ela não tinha como estudar porque não havia escola pública perto da sua casa. Aos 13 anos, ela começou a trabalhar como cozinheira. "Eu sabia ler e escrever alguma coisa, mas fui esquecendo aos poucos. Foi ruim não ter ido para a escola. Às vezes você vai assinar alguma coisa e acaba errando", conta. Desde o começo deste ano, Fidelina começou a dar um rumo diferente ao seu destino ao se matricular na EJA. "Aprender é sempre bom. Não quero mais parar de estudar."

O desafio de ensinar a turma onde estas alunas estão matriculadas é enfrentado diariamente pela professora Bruna Longhini Marques Faria. "A convivência diária e a experiência de vida dos alunos acabam tornando o ensino um pouco diferente. Eu aprendo e ensino com eles todos os dias", afirma a docente. A matrícula da EJA pode ser feita em qualquer escola da rede municipal.



Secretária diz: grau de conhecimento da mãe interfere na saúde do filho
 Os mais de cinco mil analfabetos em Araçatuba são uma preocupação para o poder público. "Essas pessoas têm família. Já é provado em estudos científicos que o grau de avanço de conhecimento da mãe interfere na saúde do filho. Não são apenas 5 mil pessoas, mas todas as suas famílias que estão vinculadas", afirma a secretária municipal de Educação, Beatriz Soares Nogueira.

Ainda não é possível afirmar, com base no censo, se o grau de analfabetismo do araçatubense está crescendo ou em declínio. No Censo 2000, quando o IBGE considerou para as estatísticas o grupo de pessoas com mais de 10 anos de idade, a cidade tinha 8.376 pessoas sem saber ler ou escrever, que representavam um índice de 5,8%. Em 2010, a pesquisa considerou como analfabetos somente as pessoas com mais de 15 anos, conforme diretrizes dos órgãos nacionais de Educação, informou o IBGE. Neste novo cenário, o índice local caiu para 3,8%.

INCENTIVOS
Mobilizações em busca de analfabetos, material didático gratuito, janta e expansão da EJA para outras escolas são os recursos usados pela administração municipal para tentar erradicar o analfabetismo em Araçatuba. Beatriz acredita que, se o ritmo das ações for mantido, o município poderá se ver livre deste problema social em pouco mais de seis anos.

Segundo a secretária, a política de combate ao analfabetismo em Araçatuba está embasada num tripé: acesso, permanência e sucesso. Para identificar o adulto e convencê-lo a voltar para a sala de aula, uma força-tarefa composta por agentes da educação, da saúde, da área social e da própria comunidade escolar foi envolvida na missão de identificar as pessoas que não sabem ler nem escrever.

"Nós fomos até eles, pois não há como você mandar uma carta para os analfabetos se identificarem", explica Beatriz. A ação já demonstrou resultados no aumento das matrículas, de 380, em 2008, para 680, em 2011. Outro avanço foi a expansão da EJA no município. No ano 2000, seis escolas da rede municipal de Araçatuba ofertavam o ensino para jovens e adultos. Até 2011, o número subiu para 12 escolas.

No entanto, levar o aluno para a EJA não é garantia de que ele consiga chegar até a última etapa do ensino. "Boa parte dos estudantes acabava se evadindo. Hoje, nós damos material escolar, uniforme e o jantar. Isso garante a permanência deles", afirma a secretária.

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