quarta-feira, 15 de junho de 2011

Planejamento urbano deve considerar Moda e Turismo

 Por Glenda Almeida


O planejamento urbano de metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo deve ser pensado levando em conta a trajetória de seus aspectos simbólicos e sociais, como a Moda e o Turismo. Segundo a pesquisa do geógrafo Valnei Pereira, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, essas cidades se  recriam em função da chamada “economia criativa” e necessitam de políticas públicas que compreendam e aproveitem suas dinâmicas. Dessa forma, o espaço urbano não deve ser considerado somente como “mais uma dimensão física imutável”. Como aponta o autor do estudo, “esses dois aspectos refletem as tendências de transformação urbana e socioeconômica de cada uma das duas cidades.”


Para realizar sua pesquisa, Pereira tomou os dois setores como referência, a partir da chamada ‘nova economia cultural do espaço’, buscando entender como aconteceram os processos de desenvolvimento desses setores. O autor analisou distintos circuitos da economia criativa, acessando dados oficiais e realizando entrevistas em agências públicas e privadas, como SPTuris, RioTur, Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos do Rio de Janeiro, Secretaria de Planejamento Urbano de São Paulo, Associações Brasileiras das Indústrias Têxteis e do Vestuário, além dos principais eventos de turismo e moda, como São Paulo Fashion Week e Fashion Rio.

Depois de entrevistar Oscar Metsavaht, proprietário e Diretor de Criação da grife Osklen, o geógrafo conta o quanto a moda paulistana e carioca refletem os imaginários e suas representações. “Valorizamos os processos de criação das coleções, onde essas duas cidades são capturadas e apreendidas”, afirma Metsavaht. “O planejamento urbano de São Paulo e Rio de Janeiro não pode desconsiderar esses aspectos, onde características diferenciadas exigem tratamentos distintos, que atentem para as complexas relações e intercâmbios entre estilo de vida, paisagem urbana e circuitos criativos da nova economia cultural do espaço”, completa.

Aproveitar as experiências
De acordo com o trabalho, o incentivo governamental deve ser direcionado, dentro do planejamento urbano, a arranjos culturais que aproveitem as cenas criativas da cidade, estimulando seu engajamento e apropriação dentro da vida socioeconômica, política e cultural das metrópoles. “Um projeto de revitalização de centros abandonados, por exemplo, não pode matar a essência do local, a ponto de enterrar sua história, seu passado, e todas as experiências culturais ali vividas. Pelo contrário pode revelar por outras vias e paisagens toda a riqueza acumulada de uma experiência urbana, inclusive para a economia e novos negócios”.

A pesquisa aponta tendências e perspectivas para o planejamento de contextos metropolitanos, criticando o pensamento urbanístico brasileiro, que não pensa a metrópole como um todo articulado, muito preso a escalas específicas que separam os espaços urbanos. Ao investigar as políticas de outras metrópoles, particularmente Nova York, Londres e Berlim, a tese identifica as oportunidades e os limites que a tendência de transformação urbana e socioeconômica baseadas na economia criativa podem oferecer. A fim de ilustrar a “nova economia cultural do espaço”, Pereira cita as experiências “Being Berliner” e “Cool Britannia”, em que os governos nacionais e locais incentivam o desenvolvimento de negócios urbanos sintonizados com as vocações de cada cidade, cada vez mais ligados à moda, arquitetura, arte, música, cinema, fotografia, turismo, lazer, cultura, entretenimento, design, comunicação, noite e novas mídias”.

Turismo e Moda
Segundo o geógrafo, a sensibilidade e a capacidade de analisar essas dimensões ou “cenas” revelam uma organização de setores alternativos, relacionados as políticas públicas, responsáveis pela reciclagem da imagem e da experiência metropolitana, assim como de suas chances de reestruturação urbana, social e cultural.

A distinção entre o Turismo e a Moda nas duas metrópoles mostra a importância de se pensar nesses “setores alternativos” ao organizar o espaço. Como conta Pereira, há características que diferenciam o tipo de turismo em cada uma das cidades, relacionadas aos serviços, ao lazer, à cultura e ao entretenimento, e até à maneira como a imagem de cada metrópole é “vendida” para quem deseja visitá-las. “Para os turistas, São Paulo é apresentada como o grande centro financeiro e econômico do Brasil, onde é possível vivenciar uma ‘experiência genuinamente urbana e multicultural’. Na cidade há uma rede gastronômica completa, hotéis sofisticados e grandes eventos”. A moda paulistana é voltada para os salões internacionais, com destaque para uma moda mais internacionalizada, enquanto o Rio parece trazer para a moda os aspectos mais tropicais da brasilidade.

“A trajetória da moda em São Paulo tem origem com a presença imigrante, desde judeus, árabes e coreanos, até os circuitos marginais de bolivianos com grande capacidade de gerar novos circuitos, inclusive o mercado de luxo e suas paisagens”. Essa moda tem forte relação com outros circuitos criativos, sobretudo da música e da noite. No Rio, a moda remete à uma experiência mais ligada à natureza, com apelo para elementos sustentáveis e paisagísticos que refletem a relação entre a praia, a natureza e a cidade.

Apesar de distintas nesse sentido, as duas metrópoles são promovidas como brasileiras. Uma mais tropical, outra diversa. O Rio de Janeiro é “vendido” como a “cidade brasileira”, com presença a apelos brasilianistas na gastronomia, na música, e em outros aspectos. Em São Paulo, a marca da sua experiência urbana é a diversidade e o multiculturalismo. “Hoje é nítido que o crescimento do turismo em São Paulo está ligado à sua dimensão cultural com destaque para a noite e eventos, o que reafirma a importância de considerar esses aspectos na hora de planejar a cidade”.

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