sexta-feira, 10 de junho de 2011

Os 80 anos do pai da bossa nova

Por Talita Rustichelli



João Gilberto completa hoje 80 anos. Com seu jeitinho manso de cantar e uma batida de violão que soou diferente de tudo o que era produzido na época, o músico baiano colocou no samba características jazzísticas e, no final dos anos 50, participava do surgimento da bossa nova. Referência para artistas como Caetano Veloso e Tom Zé, símbolos do movimento artístico Tropicália, e para músicos de outros gêneros com o decorrer dos anos, o baiano João Gilberto é uma parte viva importante da história de nossa música.

Caetano Veloso, por exemplo, afirma em seu livro "Verdade Tropical" (Companhia das Letras, 1997) ter o músico como seu "mestre supremo". "Eu tinha 17 anos quando ouvi pela primeira vez João Gilberto (...). A bossa nova nos arrebatou. O que eu acompanhei como uma sucessão de delírios para minha inteligência foi o desenvolvimento de um processo radical de mudança de estágio cultural que nos levou a rever o nosso gosto, o nosso acervo e - o que é mais importante - as nossas possibilidades".

Tom Zé descreve como algo quase surreal seu primeiro contato com a interpretação de João Gilberto de "Chega de Saudade", música de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. "Na rádio Excelsior da Bahia, em agosto de 58, de repente tocou uma coisa que era imensamente absurda, uma nave extraterrestre pousando em nossos ouvidos e, ao mesmo tempo, estava entranhada em toda a história do samba que a gente conhecia".


"Com a gravação de 'Chega de Saudade', João revelou uma nova batida de violão, em arranjo ousado para a época. Daí para a frente, o movimento ganhou popularidade e as emissoras de rádio passaram a programar os novos sucessos", explica o radialista Hélio Negri.

Para Negri, que faz questão de inserir a bossa nova entre as canções tocadas em seu programa de rádio, a fusão do samba carioca com o jazz surpreendeu pelo balanço sincopado e o jeito intimista de interpretar. "João Gilberto aparece em um cenário em que predominava o samba-canção, época de intérpretes de grandes vozes, para se tornar o maior símbolo da revolucionária bossa nova, ao lado de Tom Jobim, Newton Mendonça, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Vinicius de Moraes, Luiz Bonfá, Carlos Lyra, entre outros", afirma.

Segundo o também radialista Alcides Mazzini, o comportamento excêntrico e muitas vezes chato do músico, não anula sua importância musical. "Ele é conhecido por ser fechado e de um comportamento extremamente difícil de lidar. Por exemplo, quando fica em hotéis, se tranca no quarto e pede para a gerência do hotel que os funcionários deixem a comida na porta, avisem-no, e saiam; não fala com ninguém", diz. "Mas ele é o grande professor e criador da bossa nova. Suas interpretações de sambas como Doralice, de Dorival Caymmi, por exemplo, são fantásticas", complementa.

ÚNICO
"Ninguém tinha a divisão rítmica de João Gilberto, nem o modo leve e sutil de sua interpretação. Ele inventou aquele jeito e roubou a cena", afirma o agente fiscal e apaixonado por música, Ataliba Sanches de Oliveira Costa, que tem, dentre os músicos da bossa nova, João como o preferido.

Costa afirma que o músico foi, na época de suas primeiras apresentações e gravações, um fenômeno localizado, que ficava limitado à Zona Sul do Rio de Janeiro e a uma pequena parte de São Paulo. "Apenas depois, com um resgate constante feito por Caetano Veloso, e com um maior número de shows realizados, ele passou a ser mais conhecido. Mas ele nunca será um artista de grande público, pois não atende aos requisitos comerciais ditados pela grande mídia", diz.

DELICADEZA
"O amor, o sorriso e a flor", título do segundo LP de João Gilberto, lançando em 1960, talvez sintetize melhor as temáticas das canções bossa-novistas. Barquinhos, musas, paisagens, mar, um cantinho e um violão deitavam na cama de melodias e harmonias bem elaboradas, sem se contrastarem, mas se complementando numa forma de delicadeza musical ímpar.

ALICERCE
Para a educadora musical Lolita Mattiazzo Lozzilla, João Gilberto é um ícone da música brasileira e deve ser respeitado e comemorado. Ela ministra aulas de música e rege corais infantis, inserindo a bossa nova nos repertórios trabalhados com os alunos. "Como educadora, é fundamental mostrar às crianças e jovens a importância da bossa, possibilitar um contato maior com ela. Utilizo, por exemplo, canções de João Gilberto, Tom Jobim e outros para trabalhar a musicalidade nas crianças. A bossa nova tem uma característica de canto 'falado', sem projeções grandes de voz, que acaba sendo mais natural para as crianças e assimilado de certa forma com mais facilidade", explica.]

Louco ou gênio, João Gilberto possui Comportamento considerado “exótico”
Louco ou gênio, adorado ou desprezado, João Gilberto tem um comportamento no mínimo "exótico". Não costuma conceder entrevistas e chegou a não aparecer em alguns shows marcados. É conhecido por sua obsessão com a perfeição técnica em suas gravações e apresentações. Barulhos de celular e cochichos na plateia, ar-condicionado com ruídos ou caixas de som desreguladas podem ser suficientes para que ele abandone o show.

João Gilberto nasceu na cidade de Juazeiro, na Bahia. Aos 18 anos mudou-se para Salvador e depois seguiu para o Rio de Janeiro. Viveu nos Estados Unidos de 1962 a 1980, onde gravou com o saxofonista Stan Getz, Tom Jobim e a então esposa Astrud Gilberto o álbum "Getz/Gilberto", em 1964, que vendeu mais de um milhão de cópias. No disco há a conhecida "Garota da Ipanema", que se tornou uma das músicas mais executadas e regravadas de todos os países.

Durante o período norte-americano, João gravou mais de dez discos e participou de gravações de outros músicos. Em 1965, casou-se com a irmã de Chico Buarque, a cantora Miúcha, com quem tem uma filha, Bebel Gilberto, também cantora. Lançou em 1999 o CD "João Voz e Violão", produzido por Caetano Veloso. Em 2004, comemorou o aniversário de 40 anos do disco Getz/Gilberto, com o lançamento do álbum "In Tokyo", registro do segundo concerto do músico gravado durante uma turnê pelo Japão.

SHOWS
As últimas de suas raras apresentações aconteceram em 2008 no Auditório Ibirapuera em São Paulo e Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e no Teatro Castro Alves, em Salvador (BA). Porém, para setembro de 2011 estão agendados dois shows do músico para festejar seu aniversário: no dia 3 em São Paulo no HSBC Brasil e dia 10 no Rio de Janeiro, na casa de espetáculos Vivo Rio. Os ingressos começam a ser vendidos no início de julho.

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