terça-feira, 28 de junho de 2011

Mistérios ‘do além’ assombram a região

Por Sérgio Teixeira

Uma velha assombrando caminhoneiros, uma linhagem de lobisomens que atravessou décadas e um forte imperial visitado por espíritos. Estas são algumas lendas urbanas contadas em municípios da região de Araçatuba que não foram tiradas de livros ou de filmes, mas da criatividade de seus habitantes. Sem o compromisso de serem verdadeiras, estas histórias atravessam gerações e permanecem vivas no imaginário popular.

Na cidade de Ilha Solteira, a lenda urbana da Velha Barrageira conta que parte das terras necessárias para a construção da usina hidrelétrica pertencia a uma senhora, que não queria vender a área. No entanto, o espaço foi alagado e a senhora foi remanejada das suas terras. O tempo passou e a mulher faleceu. A história conta que a velha retorna para pegar carona com os caminhoneiros e, quando chegam na rotatória da cidade, ela desaparece da cabine.


"Essa história é bem famosa. A gente costuma ouvir quando é criança", afirma o cantor ilhense Hugo César. O artista diz que a lenda teve uma importância muito maior em sua vida, pois serviu como tema da canção Velha Barrageira, música de sua criação e vencedora do Festival Nacional de MPB de Ilha Solteira em 2009.

Para conquistar os jurados, César encarnou no palco um personagem que diz ter presenciado a história acontecer. "A minha ideia foi colocar um velho como uma testemunha. Ele acaba sendo tratado como um louco, pois ele fala que viu a Velha Barrageira, mas ninguém acredita", explica.

ESPÍRITO
Na cidade de Itapura, o mistério está em torno de uma construção imperial conhecida como Forte de Itapura. O antigo estabelecimento naval está próximo dos limites do Estado de São Paulo com o Mato Grosso do Sul, tendo sido erguido na década de 1850, a mando do Governo Imperial para proteger as fronteiras do Brasil durante a Guerra do Paraguai. A lenda diz que o local é assombrado pelo espírito de Dom Pedro 2°.

Roberto Franco, presidente da organização não governamental Econg, diz que a primeira lenda sobre o Forte de Itapura é a de um túnel, que teria sido construído para interligar as duas margens do rio Tietê. Assim, caso os paraguaios invadissem o País por esta rota, o caminho seria usado como espaço de fuga das tropas brasileiras. Com o fim da guerra, a colônia militar foi desativada.

VISÕES
"Quando esta região foi recolonizada, os antigos contavam que algo estranho acontecia no que parecia ser as duas entradas do túnel. Eles diziam que 'pessoas' se moviam por ali, com grandes roupas brancas, algumas até de farda. Falava-se que ninguém poderia chegar às proximidades porque visões grotescas apareciam, e, se as pessoas não corressem, as figuras tombavam sobre elas e as matavam", conta Franco.

Uma das histórias que deixa a lenda urbana ainda mais curiosa relata o encontro de um pescador com um dos fantasmas do prédio imperial. Ao ouvir gritos vindos do além, o homem respondeu com palavras ofensivas. Foi quando uma grande explosão teria ocorrido e bloqueado as passagens do túnel para sempre.

"Mas esta história tem gente que não conta, pois ainda tem medo", completa Franco. A existência de um túnel no Tietê e a passagem de Dom Pedro por Itapura nunca foram oficialmente confirmadas.

Veja no portal o vídeo da apresentação da música Velha Barrageira no Festival de MPB de Ilha Solteira.

 Artistas utilizam as lendas urbanas em seus trabalhos
 Se as lendas urbanas têm o fascínio de deixar os bate-papos entre amigos mais descontraídos, as aulas mais interessantes ou causar medo em crianças e adultos, no universo das artes elas se tornam ingredientes para trabalhos. "O inconsciente de um artista não se diferencia de outras pessoas, apenas canalizamos a imaginação para a criação. É desta maneira que se repercute a apropriação das lendas no campo das artes", explica o músico e artista plástico araçatubense Charles Ferlete.

A pedido da Folha da Região, Ferlete transformou em ilustração as lendas da Velha Barrageira e do Lobisomem de Penápolis. Para ele, o processo de criação do artista e a identificação com a cultura popular precisam estar intimamente ligados.

O cantor Hugo César escreveu um livro sobre a Velha Barrageira, com ilustrações feitas por ele. "Eu acho que existe uma desvalorização cultural em âmbito geral e por questões locais, até por experiência própria", afirma César.

"Eu ganhei o prêmio no festival, mas não consegui publicar meu livro até hoje por falta de patrocínio", completa o cantor de Ilha Solteira. Interessados em colaborar com o projeto podem entrar em contato pelo telefone: (18) 9729-8143.


Lobisomem de Penápolis será alvo de pesquisa a ser feita no Museu do Folclore
A lenda de homens pacatos que se transformam em lobos nas noites de lua cheia ainda causa calafrios em alguns moradores da região. Segundo o pesquisador e monitor do Museu Municipal do Folclore de Penápolis, Gilson Moreno Soares Azenha, pessoas do município juram que viram estas aparições nas décadas de 1950 a 1990, na Vila Planalto.

A história do Lobisomem de Penápolis poderá, em breve, ser conhecida por todos os moradores do município. Segundo Azenha, existe a meta de fazer uma pesquisa sobre o assunto para incorporá-la ao acervo do museu. "O interesse não é saber se ele existiu ou não, mas saber como isso repercute na cabeça das pessoas", explica. "Como os relatos são de períodos diferentes, pode se tratar de uma linhagem de lobisomens que vagou pelas ruas de Penápolis", completa.

O pesquisador diz que lendas como a do Lobisomem de Penápolis costumam sofrer preconceito. "Uma das dificuldades é que há eruditos que consideram o folclore coisa de gente ignorante, justamente porque vem do povo", afirma, defendendo que as lendas devem ser valorizadas por serem manifestações espontâneas da comunidade.

Mas, o Lobisomem de Penápolis realmente existiu? "Era uma das formas de explicar o inexplicável. Quantos deles não poderiam ser homens que chegavam arranhados em casa e diziam para as suas mulheres que tinham virado lobisomens?", arrisca o pesquisador, não descartando a possibilidade de que este ser lendário, na verdade, poderia ser um homem infiel ao seu casamento.

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