terça-feira, 14 de junho de 2011

Enquanto isso no Peru...

Por Cláudio Henrique


Os fatos políticos e sociais no Brasil são tão intensos quanto a extensão do País. O noticiário traz todos os dias situações novas em todos os campos. É ministro com enriquecimento investigado, o esporte com suas paixões, a violência espalhada em cada canto, enfim, todos os dias há algo para nos prender a atenção, ainda que momentaneamente.

Mas vale a pena olhar com mais atenção para um país que tem sido um parceiro estratégico brasileiro. É importante ganhar tempo sabendo o que ocorre em uma nação historicamente pobre, mas que tem grandes riquezas e crescimento econômico intensivo. Nesta semana, o Peru viveu dias decisivos em sua política, e a movimentação de lá soa aqui igual música, cujo ritmo pode ser tanto agradável quanto inconveniente.


Terceiro maior país da América do Sul e vizinho do Brasil pelos Estados do Acre e do Amazonas, o Peru elegeu no último dia 6 de junho mais um presidente de sua história, marcada em tempos recentes pelo populismo e autoritarismo. O vencedor do pleito foi o militar Ollanta Humala, que após bater na trave em 2006 foi eleito em 2011 no segundo turno e com mínima vantagem.

De origem esquerdista, Humala gera controvérsia. Se há cinco anos o militar tinha uma linguagem com agressão nacionalista (inspirada em Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa), o espírito de “paz e amor” foi encampado por ele ao maior estilo Luiz Inácio da Silva em 2002. Em vez de defender o Estado intervencionista e majoritário, o político passou a se deslocar para as ideias de “centro”, o que gerou desconfianças entre a própria população inca.

Enquanto isso, a sua adversária era ligada ao sangue de um ex-presidente. A direitista Keiko Fujimori é filha de Alberto Fujimori, que governou o país de 1990 a 2000 e foi condenado por crimes de violação aos direitos humanos e abuso de poder. Uma eventual vitória da deputada reacendeu especulações sobre a situação do ex-mandatário a partir de então, gerando resistência especialmente entre os setores carentes da sociedade.

E foi esse cenário contraditório, que também fora composto por candidatos sem identidade no primeiro turno, que encabulou e até irritou o peruano, tanto que o escritor Mario Vargas Llosa definiu Humala e Keiko como “câncer e aids”. Entretanto, no final, ele apoiou o primeiro.

Assim como em 2006, quando Alan Garcia chegou ao poder como “o mal menor”, a partir de 28 de julho Humala terá que lutar para reconquistar uma população desconfiada (seu antecessor não conseguiu), que vê um país em crescimento, mas sem distribuição de renda.

Nos últimos anos, o Peru tem se destacado no mercado internacional, chegando a crescer até 7% nos últimos tempos. Sua grande força está em matérias-primas como ouro, prata, cobre e outros metais. Seu território rico tem atraído interesse em investimentos, especialmente vindos do Brasil, que pretende construir hidrelétricas nos limites do país.

Mas na contramão desses indicadores, o país tem um terço de sua população na pobreza, sendo 35% na linha abaixo dela. E esse fator fez com que Humala e seus concorrentes se apoiassem no discurso de distribuição de renda. Como alguns candidatos tinham passado de insucessos, o militar nacionalista conseguiu se alinhar mais às causas sociais, invocando inclusive o nome de Lula como exemplo bem-sucedido.

Pelas circunstâncias locais, a vitória de Humala não representa que a “esperança venceu o medo”, pois o temor ainda persiste, mas do lado econômico. Ao ser anunciado que o militar fora o vencedor do pleito, o mercado reagiu mal e a bolsa de valores de Lima caiu até 12,5%. O efeito é o mesmo que Lula gerava em 2002, e só será contornado se Humala anunciar nomes em seu governo agradáveis ao capital. A primeira parte ele tem feito, que é tentar acalmar as ondas especulativas por meio de um discurso dúbio e até discrepante com as mudanças sociais tão exploradas.

O “grande motor de inclusão social” pregado por Humala será testado e cobrado nos próximos anos. Suas inclinações ideológicas irão se chocar com a tentativa de sedução dos investimentos, e isso requer habilidade para governar. Tirar o Peru da lama da pobreza é mais que um desafio, é um verdadeiro trajeto que pode levá-lo à glória ou ao inferno eleitoral, para onde muitos ex-presidentes já foram.

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